Aproveitando o Embalo da Ginástica Artística

Tempo de leitura: 10 minutos

Você tem acompanhado as provas de ginástica artística nestes Jogos Olímpicos? Conhece os benefícios que tal prática pode trazer a seu filho?

Confira um bate-papo com Clayton Xavier, técnico de ginástica artística, sobre a importância da modalidade para o desenvolvimento infantil.

No ano passado fui a São Paulo para participar de um simpósio sobre ginástica artística e rítmica. Tive o privilégio de conversar com Clayton Xavier, um técnico de ponta, que trabalha com meninas que participam de competições internacionais de ginástica artística. Vocês irão agora acompanhar um bate-papo em que o Cleiton fala sobre a importância da prática da ginástica artística no desenvolvimento infantil e destaca que a ginástica, ao lado do atletismo e da natação, forma o bloco considerado a literacia dos esportes. Decidi disponibilizar apenas agora essa entrevista por dois motivos. Primeiro, porque estamos acompanhando as olimpíadas no Brasil; segundo, pelo feito inédito dos atletas da equipe masculina de ginástica, que conseguiram um resultado histórico.

Antes da entrevista propriamente, deixo um aviso: promoveremos a Jornada da Alfabetização em Casa. Por isso, se você tem interesse em participar cadastre seu email agora mesmo.

Agora, com vocês, o técnico Clayton Xavier e a importância da ginástica artística no desenvolvimento infantil.

PROF. CARLOS: Olá, estou aqui com o prof. Clayton Xavier. Professor, muito obrigado por ter aceitado nosso convite.

PROF. CLAYTON XAVIER: Sou eu quem agradece a oportunidade de bater um papo sobre a importância da ginástica.

PROF. CARLOS: Professor, gostaria que o senhor se apresentasse.

PROF. CLAYTON XAVIER: Sim, claro. Meu nome é Clayton Xavier, sou treinador de ginástica artística, trabalho em nível competitivo nacional e internacional, tenho 15 anos de carreira dentro da ginástica artística feminina, que é a minha especialidade. Já trabalhei em escolas, clubes recreativos, vim sempre galgando o meu lugar ao sol e continuo buscando meus sonhos e objetivos dentro da ginástica artística e das competições. Aproveito essa oportunidade, como nos conhecemos aqui no simpósio, para uma reflexão sobre a importância da ginástica artística – não só da artística, mas das ginásticas em geral – como meio formador de cidadãos e não só da parte psicológica ou motora, mas como um todo. É uma pena que hoje não tenhamos ainda uma adesão à ginástica como prática na educação física escolar.

PROF. CARLOS: Isso é uma coisa que não acontecia nos anos 80. Já encontrei vários manuais e programas do estado de São Paulo em que a educação física era a prática da ginástica, rítmica e artística.

PROF. CLAYTON XAVIER: Sim, nós ainda temos em algumas escolas estaduais, pelo menos aqui em São Paulo, um resquício de material de ginástica: uns colchões verdes, as caixas de montar. Ainda temos parte desse material e podemos vê-lo em algumas escolas, mas infelizmente não são mais utilizados, pelo menos não para a prática efetiva. Eu mesmo peguei o final dessa prática da ginástica na escola, sempre estudei em escolas públicas estaduais. Eu fui um dos que perdeu com a retirada da ginástica. Houve um ganho pela introdução de práticas coletivas, porém tirar uma coisa para por outra talvez não tenha sido o melhor caminho.

A ginástica é a prática da atividade física com o corpo nas mais diversas posições e possibilidades. Nós temos respaldo desde a década de 60 de estudos feitos sobre a ginástica. Ela é o natural do ser humano. É o brincar, rolar, girar, se dependurar, coisa que uma outra atividade coletiva talvez não tenha.

PROF. CARLOS: Esses padrões de movimentos tão importantes que aprendemos aqui no simpósio.

PROF. CLAYTON XAVIER: Exato. Deixando de praticar ginástica, nós deixamos de praticar esses padrões e isso com certeza de alguma forma faz falta para aquelas crianças que no futuro serão desportistas. E mesmo os desportistas de hoje, jogadores de futebol ou voleibol, talvez tivessem uma gama motora melhor aproveitada se tivessem um repertório motor maior através da prática da ginástica artística. Se hoje me perguntarem se eu sou a favor da prática da ginástica como meio educacional, com certeza eu direi que sim.

PROF. CARLOS: Temos esse trabalho na internet, onde ministro um curso de pré-alfabetização e alfabetização e nesse curso há um módulo em que eu trato da importância da tomada de consciência corporal para que se tenha um alto desempenho cognitivo. Nesse módulo, o professor Robson Furlan, que também está aqui conosco, concede algumas dicas para os pais praticarem ginástica em casa. Os pais sempre perguntam: a ginástica não é um esporte perigoso?

PROF. CLAYTON XAVIER: Sem dúvida os pais ficam preocupados com a segurança da criançada. Ainda mais hoje em dia em que as crianças ficam presas dentro de um apartamento e o simples fato de pular de um sofá já causa um certo pânico. Se houvesse um local adequado para isso, a criança não precisaria ficar pulando em cima do sofá. A ginástica não é perigosa, pelo contrário, existem profissionais capacitados. Os educadores físicos têm a disciplina de ginástica muitas vezes por quatro ou cinco semestres, então eles são capacitados para trabalhar com ginásticas diversas. Num ambiente em que se pratica ginástica, nós temos segurança, um profissional, o material adequado, colchões, enfim, todo tipo de material que podemos trabalhar na ginástica e que vai auxiliar a criança a fazer as peripécias dela com toda a segurança do mundo.

PROF. CARLOS: Não quero criar uma polêmica entre a ginástica e os esportes coletivos, mas gostaria de saber: quais são as vantagens que as crianças pequenas adquirem praticando ginástica e que não adquiririam no esporte coletivo?

PROF. CLAYTON XAVIER: Todo esporte coletivo, a priori, tem a parte da preparação para a prática. Há um momento em que o professor faz o alongamento, o aquecimento. Coloquemos que isso ocupe no máximo 10% da atividade. E jogos são adaptados, numa espécie de redução do esporte oficial, dependendo da linha pedagógica de cada centro educacional. A criança tem então 10% da atividade física ocupado com o próprio físico e o restante com o esporte coletivo e tudo de bacana que o esporte coletivo traz. O que a criança deixa de ganhar? O que a ginástica dá? A ginástica dá exatamente o inverso. Ela dá 90% de prática corporal da atividade física, ou seja, alongamento, flexibilidade, ganho de força, as capacidades físicas básicas da ginástica e, a principal de todas, a coordenação, que é ligar uns movimentos aos outros num sem fim – uma coisa fantástica! E a grande mágica da ginástica é essa combinação e seqüência sem fim. Isso no esporte coletivo se perde, pois ele tem uma forma de prática que é engessada. Uma coisa não pode ser desligada da outra e nós deveríamos ter espaço para que ambos fossem praticados.

PROF. CARLOS: É um exagero de minha parte considerar a ginástica, ou as ginásticas, com o atletismo por outro lado, como modalidades propedêuticas às demais práticas esportivas?

PROF. CLAYTON XAVIER: Não, com certeza. Isso está fundamentado desde a década de 70. Aqui nós entramos num campo das definições das habilidades básicas, no qual não quero me aprofundar. Quais são? Esse é o problema. Alguns autores colocam, por exemplo, a velocidade como uma habilidade básica convencional, enquanto outros dizem que não, que é uma habilidade básica coordenativa, pois é coordenar movimento e força que produz a velocidade. Não quero entrar nesse campo. Mas alguns pontos são básicos e o ser humano precisa do básico.  O correr do atletismo, embora o atletismo não seja só o correr, combinar isso com a ginástica e a adaptação a outro tipo de meio ambiente como a natação. Seria tudo de bom se tivéssemos condição no Brasil, desde a pré-escola, de implantar um sistema de desenvolvimento educacional com todas essas práticas. Nós certamente aumentaríamos a qualidade de vida, a qualidade educacional e com certeza teríamos mais chance de produzir novos atletas em todas as modalidades, não só na ginástica.

PROF. CARLOS: A conversa está muito boa, mas nós precisamos encerrar. Vou abrir um espaço para você aqui no blog, pois os pais sempre querem dicas práticas e, para aqueles que são de São Paulo e acompanham o trabalho do blog, nós recomendamos a prática da ginástica, você poderia fazer algumas indicações?

PROF. CLAYTON XAVIER: Em São Paulo temos vários locais para a prática da ginástica artística. Ainda bem que no estado de São Paulo e próximos à cidade de São Paulo temos vários locais com prática da ginástica artística, como os centros educacionais unificados que têm a prática da ginásticas artística e das ginásticas em geral. Temos os centros  da prefeitura de São Paulo com a modalidade artística e as ginásticas em geral. Basta entrar no site da prefeitura de São Paulo e você pode encontrar esses locais. Basta pesquisar ou entrar em contato com a Secretaria dos Esportes da cidade. No estado de São Paulo as prefeituras têm dado muito apoio e temos jogos regionais abertos com a modalidade da ginástica artística, com um número grande de prefeituras que competem nessa modalidade. A maioria das prefeituras do estado tem um centro de ginástica, basta pesquisar a mais próxima.

PROF. CARLOS: Muito obrigado, professor Clayton Xavier, pela entrevista, pelo bate papo. Espero que vocês tenham gostado. Fiquem com Deus e até a próxima.

PROF. CLAYTON XAVIER: Até a próxima.


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