Déficit de Atenção com Hiperatividade – Carlos Nadalim entrevista Dr. Fábio Bechelli

Tempo de leitura: 16 minutos

Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade é um dos temas que frequentemente aparecem nas perguntas enviadas para o nosso blog. Será que existe um exagero nos diagnósticos de tal disfunção, bem como um abuso no uso de medicamentos, como a Ritalina, para o tratamento de nossos pequenos? Muitos pais se preocupam com essa questão. O vídeo de hoje traz uma ótima entrevista com o Dr. Fábio Bechelli, médico clínico, especialista em Neuromodulação Central para disfunções relacionadas ao estresse e Biomodulação Tecidual, que lança algumas luzes sobre esses e outros assuntos, dando várias dicas eficazes para os pais que querem cuidar da saúde de seus filhos.

Quando estive em São Bernardo do Campo, entrevistei o Dr. Fábio Bechelli.

PROF. CARLOS: Seja muito bem-vindo, Dr. Fábio!

DR. FÁBIO: Obrigado, Carlos! Eu agradeço muito o convite e espero poder somar conhecimento para todos os pais e as famílias do blog.

PROF. CARLOS: Certamente! Dr. Fábio vai responder a algumas perguntas encaminhadas ao blog e que eu não tenho condições de responder. Por exemplo, recebemos várias perguntas de pais cujos filhos receberam diagnóstico de TDH, o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. Os pais ficam muito preocupados, porque com o diagnóstico são receitados medicamentos como Ritalina. Os pais começam a desconfiar se realmente a criança tem ou não tem certa doença e perguntam o que nós, do blog, temos a dizer a respeito desses assuntos. Pedimos que você responda a essas questões e a outras, mas antes de tudo você poderia se apresentar?

DR. FÁBIO: Claro. Meu nome é Fábio Bechelli, eu sou clínico aqui no Brasil, tenho algumas formações em abordagens biofísicas fora do Brasil e, especialmente há 4 anos, me dedico à aplicação de uma técnica italiana de neuromodulação que trabalha com a síndrome de adaptação geral. Sou formado em neuropsicofisiobiologia adaptativa, que é uma forma de estudar a expressão da saúde e das doenças. Para ajudar a corrigir ou otimizar essa adaptação alcançada pelo sistema nervoso, nós usamos uma técnica biofísica de neuromodulação que é uma tecnologia inovativa que se chama REAC [Radio Electric Asymmetric Conveyer]. Hoje eu me dedico integralmente ao estudo e à aplicação dessa tecnologia e, em virtude de toda a formação que tive ao longo da minha vida, como minha esposa é nutricionista, sempre levamos em conta essa abordagem estrutural dos alimentos e nutrientes. Trabalho com essa tecnologia em alguns casos neuropsicofísicos e em alguns quadros ligados a dor, estresse e desadaptação ao estresse.

PROF. CARLOS: Já que você falou em abordagem, poderia explicar para os pais qual é a abordagem que norteia a sua prática na medicina? Os princípios antropológicos que respaldam a sua prática?

DR. FÁBIO: Bom, eu sou católico de formação e de vivência. Conheci minha esposa num grupo de oração dentro da Igreja e somos assíduos, participativos. Desde jovem sempre participei, tive o privilégio de ter uma espiritualidade um pouco mais profunda do que a superficialidade que vemos por aí e tive uma formação inaciana. Desde os 12 ou 13 anos participo dos retiros espirituais, de silêncio. Tive também uma experiência franciscana muito grande, me formei na Universidade de São Francisco, e esses princípios evangélicos de se doar, se dedicar aos outros, de expressar o amor por meio de nossas virtudes, nossos dons nortearam tudo o que eu estudei e segui até hoje. Dediquei-me a estudar técnicas não tão tradicionais, mas que me permitissem encontrar eficácias melhores ou respostas para o que entendemos que é saúde, vida, natural.

PROF. CARLOS: Dr. Fábio, essa visão está um pouco afastada da nossa concepção de medicina, dessa medicina mecanicista e técnica. Você poderia explicar a diferença entre a sua prática e essa nossa visão de medicina?

DR.  FÁBIO: Eu costumo dizer que a medicina é uma só. Ela depende desses princípios, de como a gente olha e isso influenciará nossas abordagens e nossas atitudes. Se pegarmos hoje, por exemplo, uma visão mais mecanicista, mais reducionista, em que o recurso mais estudado, muitas vezes o único recurso estudado é uma droga, um remédio, isso é muito pequeno diante do contexto da vida toda, da biologia, do que é um organismo humano, as reações neurológicas, psicológicas e fisiológicas. Quando olhamos apenas pelo aspecto bioquímico, vamos ter uma ação fria diante da realidade humana. Não descarto tal abordagem, ela é até mesmo essencial, e muitas vezes a longevidade e em cirurgias de emergência é necessário entrar com remédios e ações intervencionistas dessa natureza. Quando partimos para a parte de observação de doenças crônicas, de estilo de vida, de implicações a médio/longo prazo, a medicina que fica nesse olhar não tem recursos significados, consistentes, efetivos para acompanhar.

PROF. CARLOS: Nós conversamos bastante a respeito da sua abordagem, e você comentou muito sobre a biologia evolutiva adaptativa. O que seria isso?

DR. FÁBIO: A biologia evolutiva adaptativa é um conceito básico para a utilização da tecnologia REAC, certo? Basicamente, entendemos que estresse é um estresse não só psicológico, mas também ambiental. Não se trata de um estresse de agitação, de dor, de medo, mas há também um estresse alimentar, deficiências nutricionais, um estresse do frio, do calor, da umidade, é o estresse ambiental. Todo mundo está exposto a isso desde que foi concebido.

PROF. CARLOS: E o estresse nem sempre é negativo?

DR. FÁBIO: Não, nem sempre. Esse é um conceito de estresse muito relevante. O estresse na verdade é positivo, ele faz com que sejamos melhor, faz com que consigamos nos adaptar e desenvolver capacidades e evoluir como pessoa. A aprendizagem é uma adaptação diante de um estresse.

PROF. CARLOS: Por exemplo?

DR. FÁBIO: Aprender a ler, escrever, andar, dirigir um carro. Você tem necessidades e se adapta. Você precisa se comunicar e aprende a falar, precisa se locomover melhor e aprende a dirigir. A primeira aula de direção é muito estressante, mas evoluímos, por assim dizer, gerando uma adaptação funcional. Temos, então, o estresse ambiental e um grande gerenciador de todo esse estresse, que é o cérebro, o sistema nervoso, que tem suas peculiaridades de forma de ação. O cérebro tem, propriamente, uma capacidade de gerar sobrevivência, de gerar uma adaptação diante do estresse. Acontece que a maioria de nossas adaptações é funcional, evolui-se, aprende-se algo, porém uma parte dessas adaptações que em algum momento foram interessantes para a sobrevivência, ao se manter presente por muito tempo, pode gerar condicionamentos, bloqueios neuropsicofísicos que se mantêm de forma disfuncional.

PROF. CARLOS: Nós seguimos todo esse caminho para chegar a este ponto: a disfunção, que vai acarretar em alguma patologia. Agora, nós podemos falar aos pais, por exemplo, que crianças com déficit de atenção e hiperatividade sofrem de alguma disfunção?

DR.FÁBIO: Nós podemos olhar por dois lados. Podemos ver como uma desadaptação, uma adaptação disfuncional e neurológica, central, bem como um desbalanceamento de nutrientes e toxinas que levam ao mal funcionamento neuronal.

PROF. CARLOS: Na internet nós podemos ler artigos nos quais há pessoas que batem na tecla que se trata de uma doença com raiz genética. E agora?

DR. FÁBIO: Eu concordo em partes, mas discordo na maior parte, porque vamos falar de expressão gênica. Podemos expressar melhor ou pior os genes. Podemos ativar genes que vão expressar alguma doença e podemos silenciar genes que vão provocar algumas doenças, no sentido estrutural. No sentido neurológico, vamos dizer que essa adaptação da coordenação, do gerenciamento do organismo parte do cérebro. Então, eu considero muito mais contextual, muito mais ligado ao ambiente tanto interno quanto externo do que simplesmente uma doença genética. É uma polêmica falar dessa parte genética, porque dizer “você tem um gene que vai ativar um câncer de mama”, por exemplo, penso que seja muito cedo para chegar a essas conclusões, especialmente no Brasil, onde temos uma miscigenação muito grande de raças. Se você chega à conclusão de que um gene torna inevitável que uma pessoa tenha câncer, por conta desse gene, eu considero evitável expressar esse gene. Considero isso possível. Se você chega à conclusão de que um gene expressará Alzheimer, por exemplo, também acho possível evitar ou retardar a expressão desse gene.

PROF. CARLOS: Doutor, até agora não vi o senhor mencionar o uso da Ritalina. O que você tem a dizer sobre o uso desse medicamento que hoje está em alta?

DR. FÁBIO: Eu não gosto de entrar em polêmicas, porque a polêmica muitas vezes tira a paz e eu tento viver em cooperação, não em conflito. Eu entendo que hoje existe um abuso do uso da Ritalina. Há muito mais indicação do que deveria, e há pessoas dando diagnósticos de TDH sem tudo o que é preciso para isso. Eu mesmo não me sinto capaz de dar um diagnóstico desse. Penso que deve ser um bom neurologista, um grupo interdisciplinar para chegar a essa conclusão e aí receitar o medicamento, que pode ser sim algo útil, se comprovadamente for identificado o transtorno. Vou citar Juarez Callegaro, ele tem um artigo no site dele falando contra o uso da Ritalina. Muitas vezes podemos ter outros recursos da própria medicina orto-sistêmica para agir na mesma área em que se espera um benefício da Ritalina. Então, vou citar de forma ampla uma associação de cromo com zinco e B6, que muitas vezes tem uma modulação em neurotransmissores melhor que a modulação que a Ritalina tenta alcançar. Porém isso demandaria um estudo aprofundado de cada pessoa, dos hábitos de cada criança, de doses específicas para cada situação. O que eu tenho visto hoje em dia é basicamente: primeiro, uso abusivo e, segundo, entrando com uma estratégia orto-sistêmica temos alcançado resultados de maior harmonização do funcionamento, deixando claro que o centro terapêutico, assim como a minha terapia, é centrada no REAC. Nós podemos dar um suporte, uma espécie da matéria-prima mais adequada do funcionamento. Uma coisa interessante também, e que deve ser levada em conta e que muitas nutricionistas desconsideram: a flora bacteriana intestinal. Por exemplo, a vitamina B6 deve ser metabolizada pela flora bacteriana para ser absorvida e a partir daí gerar com o triptofano e outros catalisadores os neurotransmissores, a serotonina, a melatonina. Muitas vezes organizando, reeducando o sistema alimentar, fazendo uso de prebióticos e probióticos, haverá uma melhor harmonização dessa ecologia intestinal e uma indução da produção de neurotransmissores muito mais adequada. Falando da melatonina, uma dica, hoje o sono tende a ser péssimo, cada vez pior, seja por dormirmos tarde, hoje sabe-se que deveríamos dormir antes das 10 da noite, seja por exposição a luz artificial, especialmente a azul, que mexe no centro de formação da melatonina, seja por ruídos, luz, agitação e uma alimentação péssima, sobretudo na janta, tudo isso afeta muito a produção de melatonina, que vai induzir o sono e o aprendizado, uma fixação adequada do aprendizado. Percebe-se que é complexo, mas com pequenas atitudes no dia-a-dia vamos ter uma sinergia maior e uma expressão melhor de saúde.

PROF. CARLOS:  Ou seja, mudanças ambientais?

DR.FÁBIO: Sim, mudanças ambientais. Todo esse contexto ambiental, alimentar, de sono, relacional e centralmente neurológico afeta nossa expressão desse sofrimento, desses sintomas, dessa doença. Se nós melhorarmos, então, o contexto externo e o contexto interno, vamos ter uma expressão mais harmoniza de saúde, das habilidades, das capacidades e potencialidades que são inerentes ao ser humano, principalmente às crianças, que, algumas vezes, podem ficar dopadas com o uso de alguns medicamentos e essa potencialidade fica rebaixada num nível muito ruim. Em relação a certas capacidades, ela vai ter uma expressão e um desenvolvimento humano piores.

PROF. CARLOS: Fábio, você deu algumas dicas aqui, e eu quero abrir um espaço para que você dê mais algumas aos pais. Quais orientações você daria para um pai que está preocupado em manter um ambiente saudável para as crianças, para que elas tenham um alto desempenho em atividades cognitivas?

DR. FÁBIO: Posso dar uma série de dicas. Vou tentar lembrar as mais relevantes. Essa parte do intestino mesmo é um bom marcador. Se a criança tem um funcionamento intestinal adequado, pode ter certeza de que se está num bom caminho. Para isso devem ser oferecidas frutas, muita água, fibras mais adequadas para o funcionamento intestinal. O ômega 3, falamos muito do ovo caipira, são ovos ricos em ômega 3, isso faz muita diferença, para qualquer pessoa, não só crianças. Para idosos, por exemplo, esse ovo é essencial. Muitas vezes nos desconectamos da natureza em ambientes muito sintéticos, longe do sol, do andar descalço, para receber elétrons, que é uma parte estruturante das mitocôndrias, responsável pela produção de energia.

PROF. CARLOS: Des  culpe interromper, mas recentemente recebemos em Londrina a visita de um professor americano, Nathan, que comentava sobre a importância de se expor à natureza, de como estamos hoje afastados da natureza. Não num sentido ambientalista, não é o que estamos dizendo, mas ele destacou, na palestra, que Deus criou a natureza e por isso é importante, nesse aspecto, estar ligado a ela. Agora, você como médico nos trazer essa informação também é muito importante.

DR. FÁBIO: Se falarmos dessa desconexão com a natureza tal como a conhecemos, com uma alimentação com legumes, frutas, água mais saudável, o sol, a luz do sol, e outros fatores que são muito importantes e que estão muito desproporcionais.

PROF. CARLOS: Não sei se estou falando bobagem, mas li num livro da Lubienska sobre a importância de pisarmos na terra. Isso faz sentido?

DR. FÁBIO: Sim, isso é de altíssima relevância. Há um site chamado [inaudível], para falar sobre o aterramento. Até a luz, o sol, a alimentação, a água, o ar. Muitas vezes o ar condiciona, ele tira íons, mas um ar mais ionizado é muito saudável. Um exemplo disso é que, quando cai um raio, ocorre uma ionização do ar e é bom respirar um ar próximo de onde caiu um raio. Existem equipamentos que ionizam o ar e que são interessantes, de diversas marcas. Quando falamos de desconexão com a natureza, falo não só da natureza ambiente, muitas vezes você se desconectou do outro, ou de si mesmo, ou se desconectou do sagrado, que é o estruturante da vida. Então, resgatar essas conexões é algo salutar. Desconectar é patogênico.

PROF. CARLOS: Fábio, vou abrir um espaço para que você indique sites e fale um pouco sobre o Inovitta. Você está à frente do protocolo REAC no Brasil. Explique um pouco sobre isso.

DR. FÁBIO: Sim, sim, até onde sei estou à frente de algumas tecnologias. Bom, os sites que documentei são de altíssima relevância, como o ortosistemica.com.br do Dr. Juarez Callegaro, essencialmente o site do Dr. Salvatore, que é o irf.it, no meu site inovitta.com.br há os links para esses sites. Aliás, agora vou colocar também o “Como Educar Seus Filhos”. Foi muito bom conhecer o trabalho de vocês, foi providencial nesse momento. Já estava pensando em projetos para ajudar estudantes de modo geral, crianças, e realmente casou muito bem todo o conhecimento que você tem na pedagogia e essa abordagem que pode trazer muitos frutos ainda.

PROF. CARLOS: Para encerrar, sei que você poderia dar muitas dicas ainda, mas nosso tempo é curto, gostaria de fazer um convite: gostaria de convidá-lo a ser um de nossos colunistas no blog “Como Educar Seus Filhos”. Quero que você desenvolva com mais calma e tempo outros assuntos que são do interesse de vários pais que estão preocupados com a educação de seus filhos. Aceita?

DR. FÁBIO: Com certeza! É um prazer poder somar, poder participar disso de modo mais unido. Espero contribuir com sugestões importantes, mensalmente. Fico muito feliz pelo convite.

PROF. CARLOS: Então, meus amigos, se vocês gostaram da entrevista com o Fábio, aguardem, pois ele escreverá artigos para o blog e você poderá conhecer mais sobre assuntos relacionados à prática do Dr. Fábio. Muito obrigado, Dr. Fábio, pela entrevista e pelas informações. Eu estive aqui por 4 dias, acompanhei a rotina do seu consultório, fiz um tratamento para as dores nos ombros, dores insuportáveis, e sou suspeito para falar [risos].


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4 Comentários


  1. Gostaria de saber mais sobre hereditariedade do TDAH….Pq qdo vamos as mesmas características no pai tbm…seria coincidência? Seria o meio? Pq o TDAHa um tempo atrás não era falado, assim muitas crianças que hoje são adultos cresceram sem um diagnóstico.

    Responder

  2. Não consegui entender sobre os sites do Dr. Fábio Bechelli –
    Obrigado

    Responder

  3. Carlos, o que você recomenda para adultos analfabetos funcionais? Tenho quase certeza que sou acometido desta deficiência e gostaria de contorná-la.

    Responder

    1. Olá, Juca.

      Está nos projetos do blog a criação de conteúdo voltado para o analfabetismo funcional, mas ainda não temos previsão. Peço que aguarde!

      Enquanto isso, leia, leia muito, de preferência em voz alta. Ouça áudios de livros e poesias. Também ajuda!

      Abraço!

      Pâmela Arumaa – Suporte

      Responder

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