Carlos Nadalim entrevista Paulo Briguet

Tempo de leitura: 5 minutos

O vídeo de hoje traz uma entrevista exclusiva com o grande cronista Paulo Briguet, que, entre outros assuntos, fala sobre os autores essenciais da literatura infantil. Assista!

Durante o II Encontro de Escritores na Virgínia, realizado na casa do professor Olavo de Carvalho, tive a oportunidade de entrevistar o grande cronista Paulo Briguet que, entre outros assuntos, falou sobre autores essenciais da literatura infantil.

PROF. CARLOS: Tudo bem, Paulo?

PAULO: Tudo certo, Carlos!

PROF. CARLOS: É verdade que você mora numa cidade chamada Londrina?

PAULO: Pois é. Terra vermelha. Pés vermelhos no meio dos rednecks.

PROF. CARLOS: O Paulo é cronista, jornalista, escritor e acompanha meu trabalho. Você visitou a Escola Mundo Balão Mágico logo no início e pôde perceber a transformação que houve na escola. Você pode falar um pouco sobre isso?

PAULO: Olha, Carlos, não tem preço ouvir crianças recitando Camões, Mário Quintana, Cecília Meireles, Manoel Bandeira. A origem da palavra “decorar” é a seguinte: é aquilo que está de cor, que está dentro do coração. Eu vi isso nas suas crianças, elas traziam aquelas obras no coração.

PROF. CARLOS: As famílias estão preocupadas com as obras que circulam no mercado editorial brasileiro. Você teria alguma dica para os pais naquele momento em que vão escolher um livro para ler para seus filhos? O que eles devem fazer?

PAULO: Temos poucos autores hoje na literatura infantil que são confiáveis. Mas acho que temos alguns autores que são canônicos. Por exemplo, Hans Christian Andersen é um escritor que merece ser lido pelas crianças. Elas vão aprender muito com o universo do Hans Christian Andersen, com suas fábulas e contos.

Eu gosto muito particularmente de um autor chamado Isaac Bashevis Singer, um autor polonês de origem judaica que escrevia em ídiche, uma língua praticamente morta, com poucos falantes. Quando recebeu o prêmio Nobel de Literatura, em 1978, ele explicou duas particularidades da sua obra, por que ele escrevia em ídiche e por que ele escrevia, no final da vida, para crianças. Ele disse o seguinte: “as crianças não lêem para se livrar de culpas, para saciar a sede por rebeliões ou para superar a alienação. As crianças detestam sociologia. As crianças não tentam entender o Finnegans Wake. Elas ainda acreditam em Deus, na família, em anjos, demônios, bruxas, lógica, clareza de estilo, pontuação e outras coisas obsoletas como essas. Quando um livro é entediante, elas bocejam com franqueza, sem qualquer culpa ou medo da autoridade. Elas não esperam que seu escritor salve a humanidade. Elas sabem que só os adultos têm esse tipo de ilusão infantil.”

As histórias do Singer são muito boas. São ambientadas nos pequenos povoados da Polônia e algumas delas se referem à vida dos exilados judeus nos Estados Unidos. Ele tem um livro chamado “Histórias para crianças” que eu recomendo fortemente.

Aliás, esse discurso do prêmio Nobel foi traduzido por um escritor que está presente aqui na Virgínia, o Yuri Vieira, um contista de primeira categoria.

Há também alguns textos poéticos que podem ser lidos pelas crianças. O livro “Ou isto ou aquilo” da Cecília Meireles é muito apropriado para o universo infantil. Mário Quintana também tem coisas muito interessantes. E o próprio Manoel Bandeira pode ser  tranqüilamente lido por crianças. Mesmo os poemas supostamente adultos dele podem ser lidos por crianças. Lembro que meu pai sempre recitava os poemas do Bandeira para mim em casa. “Pneumotórax”, por exemplo, e um poema chamado “Profundamente”, também belíssimo. Os poemas do Bandeira são compreendidos pelas crianças. É algo incrível!

Gosto muito também do C. S. Lewis, da série “As crônicas de Nárnia”. Inclusive li-as para meu filho, que agora tem cinco anos. Agora ele já aprendeu a ler, graças ao seu método, e nós recentemente fizemos nosso primeiro poema juntos, com rimas. Ele faz questão de escrever o poema, escolhe algumas das palavras e a gente vai brincando com a poesia.

A imagem mais remota que eu tenho na lembrança é de meu pai lendo um livro na sala em nosso apartamento na Alameda Barão de Limeira, em São Paulo. Eu devia ter 1 ou 2 anos. Acho que aquela imagem é meu mito fundador pessoal. Acho que minha identidade se formou a partir daquela imagem.

Então faça isso com seu filho. Se você, pai ou mãe, adquirir o hábito da leitura, poderá deixar essa imagem para seu filho.

PROF. CARLOS: Briguet, você respondeu às perguntas que eu faria. Então vou encerrar a entrevista por aqui.

PAULO: Foi legal, Carlos. A gente sempre se encontra, não é?

PROF. CARLOS: Sim, vamos falar muito ainda sobre esse assunto em outras oportunidades. E, antes de encerrar, por gentileza, deixe aqui o endereço do seu site para aqueles que ainda não conhecem sua página, suas crônicas, seus livros.

PAULO: As minhas crônicas podem ser encontradas no site do jornal Gazeta do Povo.

PROF. CARLOS: Perfeito. Briguet, muito obrigado! Fiquem com Deus e até a próxima!


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