Como Despertar o Interesse da Criança pelos Livros: Carlos Nadalim entrevista Rodrigo Gurgel

Tempo de leitura: 12 minutos

O vídeo de hoje traz uma entrevista exclusiva com o grande crítico literário, Rodrigo Gurgel, que, entre outros assuntos, fala sobre como despertar o interesse das crianças pelos livros. Segundo ele, “o amor das crianças pelos livros começa muito antes da alfabetização.” Assista!

Quando estive na casa do professor Olavo de Carvalho para participar do II Encontro de Escritores na Virgínia, tive a oportunidade de conversar com um dos escritores presentes, o professor Rodrigo Gurgel.

PROF. CARLOS: Tudo bem, professor Rodrigo?

RODRIGO: Tudo bem, Carlos! É um prazer conversar com você, com as pessoas que freqüentam o seu blog, os seus alunos. Muito obrigado pelo convite.

PROF. CARLOS: Eu já fui seu aluno, nós somos amigos, e hoje chegou o momento de você aparecer aqui no blog. Então vamos começar: o senhor pode se apresentar para aqueles que ainda não o conhecem?

RODRIGO: Claro! Muito obrigado pelas palavras. Meu nome é Rodrigo Gurgel, eu sou crítico literário e sou professor de literatura e escrita criativa. Tenho vários cursos na internet e ministro também uma oficina de escrita criativa em duas modalidades: presencial, com aulas semanais em São Paulo, e via internet, semestralmente. Além disso, eu escrevo críticas literárias para a Folha de São Paulo e para o Jornal Rascunho, o qual hoje, no Brasil, é a única publicação especializada em literatura.

PROF. CARLOS: Professor, o senhor sabe que, via internet, eu ajudo pais a alfabetizar seus filhos em casa. O meu trabalho é muito pedagógico, eu ensino para os pais algumas técnicas, alguns exercícios, para melhorar o desempenho de seus filhos na leitura e na escrita. Porém nós sabemos que o gosto pela leitura não nasce apenas a partir do momento em que a criança domina a técnica de decodificação; há outros fatores em jogo. Eu gostaria que você falasse um pouco sobre a sua história, como você se apaixonou por essa arte da escrita, da leitura.

RODRIGO: Veja, Carlos, o amor das crianças pela leitura, pelos livros sem dúvida começa muito antes da alfabetização. Para que você tenha uma idéia, a primeira lembrança que eu tenho de contato com os livros é de quando eu tinha 1 de idade, pouco menos ou mais. Meu pai tinha uma escrivaninha, um escritório em casa com uma biblioteca, em grande parte jurídica, por conta do trabalho dele, ele era advogado, e o que ele fazia? Meu pai tinha uma coleção, que não existe mais para comprar, a não ser em sebos, chamada Tesouro da Juventude. Essa coleção era dividida em livros, 18 volumes, entre eles o Livro da natureza, o Livro dos porquês e o Livro dos contos. O que meu pai fazia? Ele me colocava sentado na escrivaninha, voltado para ele, com as perninhas para fora da escrivaninha, e ele abria um dos livros no meu colo, de modo que eu via as ilustrações de cima. Ele começava a contar as histórias para mim assim, lendo, e eu ali, com o livro no colo, acompanhando. Percebe? Essa é a grande forma de você ensinar. Você só cria amor pelos livros, só cria amor pela literatura se o ato da leitura, se o contato com o livro for algo absolutamente natural, se for um hábito realmente, ou seja, algo que se faz sempre. Assim, contando as histórias, mostrando que a intimidade com o livro é uma coisa muito fácil, que o livro é algo maravilhoso que está sempre à mão, mostrando que não há segredo nenhum, você vai estimulando a criança, vai mostrando que o livro está sempre relacionado à histórias encantadoras, maravilhosas, que encantam, que seduzem, que alegram. É assim que se constrói, gradativamente, o amor. Mais tarde, por exemplo, eu me lembro que em Jundiaí, a minha cidade natal, onde até hoje existe o gabinete de leitura Rui Barbosa (uma biblioteca que não é do poder público), meu pai possuía a carteirinha do gabinete. Um dia ele me levou, mostrou o gabinete de leitura, me deu a carteirinha dele e então eu passei a freqüentar esse gabinete. Minha avó também possuía uma pequena biblioteca em casa. Foi minha avó paterna que me mostrou As mil e uma noites, numa edição linda que ela tinha, cheia de ilustrações, e também foi quem me fez ler Madame Bovary, quando eu era apenas adolescente. O que, aliás, deu uma grande briga quando meu pai soube, ficou bravíssimo com ela.

PROF. CARLOS: Por quê?

RODRIGO: Ah, porque Madame Bovary é um romance de uma pessoa adúltera, de uma pessoa mentirosa, enfim, uma pobre de uma mulher, mas um romance maravilhoso, absolutamente lindo. Minha avó era muito avançada, muito mais avançada que o filho. Papai era muito moralista, muito mais que a própria mãe. Então perceba [a importância de] essas figuras próximas a nós. Ainda sobre o gabinete de leitura Rui Barbosa, eu fiquei muito amigo da bibliotecária, a dona Odete. O que ela fez? Ela permitia que eu entrasse no acervo para escolher os livros. Imagine só, você entrar numa biblioteca de milhares de volumes e poder ter acesso a tudo aquilo, caminhar entre aquelas estantes, escolher os livros, tudo isso é fascinante. Perceba, uma coisa leva à outra. Você precisa criar no âmbito familiar uma intimidade com os livros, uma intimidade com o ato de ler, o ato de estar em relação constante com os livros, isso é fundamental. O começo é sempre assim. O começo é sempre, para tudo na vida, um gesto de amor. Quando eu conto essa história do meu pai, que me contava histórias, o que eu recordo é disso: de um gesto de amor utilizando o livro. O princípio de tudo é sempre isso.

PROF. CARLOS: No meu curso, logo no início, eu passo instruções para os pais para que, no primeiro momento, eles conservem o hábito da leitura em voz alta. Há uma expressão técnica que é a leitura partilhada: você vai partilhar histórias com as crianças e, nessa partilha, vai também estreitar os laços e as relações familiares por meio dos livros, criando um ambiente em que a criança comece a perceber que a presença dos livros é muito importante para a vida familiar. Você citou aqui a coleção Tesouro da Juventude. Você poderia falar um pouco mais a respeito dela? Existem pais que preferem ler aqueles livros infantilizados, com uma linguagem muito coloquial, porque a criança é pequena, não vai entender o vocabulário, e você acabou de falar da importância dessa coleção para você.

RODRIGO: Os contos dessa coleção de forma alguma eram infantilizados. O importante é que o pai, a mãe, no ato da leitura, procurem não interpretar a história, mas contar de maneira realmente dramática. É muito importante que o pai não seja um leitor frio, mas que conte aquilo com emoção. Trata-se de algo fundamental. Hoje nós temos muitas edições no Brasil, boas até, de clássicos recontados, de maneira mais resumida, sem ter uma linguagem muito boba, muito infantil. Essas coleções são ótimas, pois permitem que os pais contem essas histórias. Esses dias mesmo vi uma edição de Moby Dick, de Herman Melville, que era uma coisa linda, com gravuras imensas, uma edição maravilhosa, e o texto era reduzido, mas não abobalhado, não infantilizado. E isso, para você contar para as crianças, é fascinante. Com gravuras deslumbrantes, com uma edição maravilhosa, é impossível que a criança não crie amor pelos livros. O Tesouro da Juventude no meu tempo era o que existia, hoje o mercado está muito mais diversificado.

PROF. CARLOS: Mas é uma excelente dica…

RODRIGO: É uma boa dica, sem dúvida, eu acho que em sebos ainda é possível encontrar, mas não sei se são feitas novas edições dessa coleção.

PROF. CARLOS: Não, não são. Há o Novo Tesouro da Juventude, mas eu não o indico. Uma edição com capa vermelha e diferente que eu não indico. Eu tenho duas coleções do Tesouro da Juventude.

RODRIGO: Você conhece então? Que ótimo! É uma maravilha! E as ilustrações? Feitas a bico de pena. As ilustrações das histórias eram muito bonitas. Eu me lembro que o Livro dos porquês era muito interessante. Uma vez eu perguntei ao meu pai: “Por que a gente abre a boca quando está com sono, por que nós bocejamos?”. Ele me falou: “Vá lá no Tesouro da Juventude que a resposta está lá”, e de fato estava. Havia toda uma explicação, uma explicação curta, porém objetiva. Fico feliz em saber que essa coleção ainda possa ser encontrada.

PROF. CARLOS: Eu penso que nós deveríamos reeditá-la.

RORDRIGO: Claro, claro. Veja bem, eu não acompanho literatura infantil, mas tenho vários amigos que praticam homeschooling com os filhos e que acompanham com muita seriedade essa questão de livros infantis. Do que eles encontram nas livrarias, 90% são verdadeiras aberrações.

PROF. CARLOS: Você poderia mencionar um exemplo?

RODRIGO: Eu cheguei a contar aqui a história de um livrinho. Numa dessas famílias amigas que eu fui visitar, eles me mostraram uma história bobinha de uma passarinha que mora no alto da árvore. O pai então a orienta a não descer para o chão da floresta, porque há a raposa que come os passarinhos etc. E é claro que a passarinha, como toda criança, todo adolescente, decide um dia descer em meio às pedras e encontra com a raposinha, com o filhote da raposa. Começa aquela coisa, a passarinha diz: “Olha, eu preciso conversar com você, porque o meu pai disse que vocês comem passarinhos”. A raposinha responde: “Não, não é assim, nós não comemos passarinhos, vamos ser amigos”. Então a passarinha e a raposinha viram amigas. A passarinha, é claro, fica com um drama de consciência por ter desobedecido ao pai e pensa: “E agora? Fiz o contrário do que o meu pai me ensinou”. Ela comenta com a amiga raposa e a raposa diz: “Não, você não precisa contar a verdade para o seu pai, esconda do seu pai e vamos continuar sendo amigas”. A passarinha então mente para o pai, engana o pai, não fala o que fez e é claro, depois de muito tempo, o pai descobre. Descobre e vai cobrar da filha a atitude dela. Esse livro é um exemplo claro do absurdo politicamente correto. O pai vai cobrar satisfações, e o que acontece? A filha dá uma lição no pai: “Você é um moralista, não sabe o que fala. Você não confia nas pessoas, não confia na raposinha, você é um preconceituoso”. Para completar a história, já que 90% do que se produz em literatura infantil é essa “coisa”, o pai, completamente idiotizado, diz: “Olha, minha filha, você tem razão, vamos ser amigos das raposas porque nós não podemos ter preconceito com ninguém”. O livro não conta, mas certamente a família inteira serviu de almoço para as raposas [risos]. Os pais só não estão perdidos porque são sérios, acompanham aquilo que sai no mercado editorial, lêem antes o que vão ler para as crianças e estão atentos. Mas esse livro, ele ensina o quê? Que você não deve confiar nos seus pais, que você deve mentir para eles. Esse tipo de coisa está disseminada pela literatura infantil.

PROF. CARLOS: Gurgel, eu ia pedir para que você nos desse algumas dicas, mas você já deu várias ao longo da nossa conversa. Vamos encerrar então, muito obrigado, Gurgel!

RODRIGO: Meu caro, é um prazer, eu fico muito grato e acho que você faz um trabalho maravilhoso. Você está de parabéns, Carlos. Espero que você tenha sucesso e continue crescendo cada vez mais

PROF. CARLOS: Rodrigo, muito obrigado mesmo. Por favor, indique o seu site para os alunos.

RODRIGO: Ah, claro! Meu site é o www.rodrigogurgel.com.br. Costumo publicar pelos menos dois textos por semana e estou sempre publicando materiais novos. Há ali também a parte dos cursos online para os interessados. Muito obrigado, Carlos, pelo convite para conversar com você e com seus alunos.


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6 Comentários


  1. Gostei da entrevista com Rodrigo Gurgel, e agora em diante vou ter mais cuidado com as historias que escolho para Mariana. E estamos ansiosas para começar o curso. O brigada prof. Carlos Nadalim

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  2. Parabéns, pela entrevista. Obrigado por apresentar o trabalho de Rodrigo Gurgel.

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  3. Parabéns , Carlos Nadalim,estou ansiosa pra começa essas aulas, e aplicá no meu filho

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