Como o Karatê pode Ajudar na Formação de seu Filho

Tempo de leitura: 12 minutos

Os benefícios do karatê vão muito além do condicionamento físico. Ele ajuda a criança a melhorar a concentração, a solucionar problemas, tomar decisões, enfrentar desafios, além de desenvolver virtudes como a paciência e a lealdade. Confira esta entrevista com o karateca Vitor Loscalzo!

Hoje nós vamos conversar sobre a importância da prática do karatê-dô na formação de adultos e crianças. Quem vai falar sobre esse assunto é um especialista, um karateca, o Vitor.

PROF. CARLOS: Tudo bem, Vitor?

VITOR: Tudo, professor Carlos, graças a Deus.

PROF. CARLOS: Seja bem-vindo ao blog Como Educar Seus Filhos.

VITOR: Muito obrigado, é uma felicidade estar aqui com vocês hoje.

PROF. CARLOS: O Vitor está em Londrina, porque aqui há um grupo que mensalmente recebe a visita do Vitor e do professor Corisco. Estamos praticando a modalidade shotokan e ficamos impressionados com os resultados. Disso quem vai falar é o Vitor, pois quero falar muito pouco hoje, já que sou faixa branca. Qual sua faixa?

VITOR: Sou faixa marrom.

PROF. CARLOS: Há quantos anos você pratica o karatê?

VITOR: Há 8 anos.

PROF. CARLOS: Como tudo começou?

VITOR: Tudo começou com a história de um jovem cheio de problemas no colégio, todas as dificuldades com provas, má relação com os professores, trazendo problema para dentro de casa. O que os professores do colégio diziam? Estude mais, se concentre mais, faça aula particular disso e daquilo. Nada disso resolvia.

PROF. CARLOS: Você disse uma palavra importante: concentração. Você era desconcentrado?

VITOR: Aparentemente eu tinha uma desatenção, não conseguia focar na matemática, em uma equação química. Foi quando um amigo me recomendou aulas de karatê justamente para trabalhar esse aspecto. Encontrei um professor de karatê em São Paulo que começou a me mostrar muitos níveis de concentração. Eu disse que tinha dificuldades na matemática, disse que tinha muita desatenção quanto a isso. Ele me perguntou: “Você consegue varrer uma casa com concentração?”.

PROF. CARLOS: Qual a relação entre varrer uma casa e resolver equações?

VITOR: Aí é que está, tudo está integrado. Você faz as coisas com atenção? Com uma certa alegria? Você transporta sua concentração para isso? Muitas coisas se resumem a resolver problemas. A casa está bagunçada? Varra, solucione o problema. Há uma prova de matemática na sua frente? Procure solucionar o problema. Transporte aquela atenção para a atenção acadêmica, para o estudo.

PROF. CARLOS: E você começou a melhorar na escola?

VITOR: Nossa Senhora, melhorei muito! Meus amigos não estavam me reconhecendo. Eles me perguntavam: “O que é que você está fazendo?”. E por incrível que pareça era por meio da arte marcial, do karatê-dô, que eu estava conseguindo alguma melhora no colégio.

PROF. CARLOS: No karatê o professor sempre destaca a centralidade, o centro, não o executar golpes periféricos. Essa noção de centro do karatê o ajudou a se concentrar em outras atividades?

VITOR: Claro! A própria palavra diz CONcentrado, COM centro. Durante uma prova é preciso procurar a centralidade daquilo, não a periferia. A periferia sempre vai existir: dor de cabeça, algum problema em casa, algum problema com um colega. Tudo isso existe, faz parte do nosso dia-a-dia, mas às vezes está na periferia e não é a prioridade. A concentração tem a ver com isso, com o “estar centrado”.

PROF. CARLOS: No karatê, o que ajuda a ter essa noção de centro?

VITOR: Muitas coisas. No karatê você é convidado a desafios, a solucionar problemas. Às vezes temos um combate físico com outra pessoa, frente a frente, e temos de resolver a situação. Quando a pessoa vem nos golpear, temos de solucionar o problema e, se não estivermos centrados, algo pode acontecer. Precisamos estar concentrados. No combate físico, tudo é muito real, não há espaço para os problemas de casa.

PROF. CARLOS: No karatê temos de estar concentrados a todo instante, até mesmo no momento do aquecimento. Qual a diferença de uma corrida no karatê e aquela a que estamos acostumados a assistir?

VITOR: Isso é interessante, Carlos, para falarmos um pouco sobre a diferença entre a arte marcial e o esporte. O esporte busca basicamente um resultado esportivo, você procura ganhar. O karatê-dô surge para que você defenda sua vida. O karatê-dô, como uma busca para defender a sua vida, trabalhará várias coisas como a lealdade, a honestidade, a paciência e uma série de virtudes que estão integradas. Mesmo num aquecimento você está se preparando interiormente para isso. Você não está aquecendo para ser mais rápido, mas para defender algo maior.

PROF. CARLOS: Nós podemos então puxar um assunto interessante que é o da presença. Como isso funciona?

VITOR: O professor Corisco costuma falar bastante sobre presença e ausência. A pessoa muitas vezes está executando um movimento, muitas vezes até de forma rápida, mas está ausente, está distante. Muitas vezes, no colégio, o professor faz a chamada e todos respondem “presente”. Mas será que isso é estar presente mesmo? O aluno está apenas executando um gesto ou está realmente presente? Tem aquela intenção de tomar para si aquela situação e ter uma conclusão?

PROF. CARLOS: Nos treinos vocês percebem quando uma pessoa está ausente e conseguem, por meio dos exercícios do karatê, trazê-la para a realidade?

VITOR: Claro! Numa situação de treino, por exemplo, os alunos ficam enfileirados e o professor chama: “Você, aqui na frente!”. Veja como a pessoa vai. Ela atende prontamente, como uma emergência? Ou ela tem aquela atitude de quem diz: “O que, eu?” A pessoa tem de estar pronta, estar presente, receber um comando e cumpri-lo.

PROF. CARLOS: Com isso ela também vai conquistando a virtude da prontidão…

VITOR: Da prontidão, da paciência, da obediência, vai se tornar uma pessoa capaz de aprender. Ela vai aprendendo como se aprende.

PROF. CARLOS: Então no karatê vocês explicam tudo? Há uma “cultura da explicação” lá?

VITOR: Claro que não, professor Carlos! Nós sabemos que hoje, na minha geração e dos meus colegas, exige-se essa “cultura da explicação”. Tudo tem de ser explicado. Agora? Como? Com quem? Devo? Não devo? Mil coisas são perguntadas. No karatê buscamos justamente o contrário. Há coisas que devemos primeiro fazer para depois entender.

PROF. CARLOS: Então no karatê, se você ficar explicando demais, a pessoa nunca vai tomar decisões? Vai ficar sempre esperando que alguém explique o que deve fazer? É isso?

VITOR: Exatamente isso, como muitas vezes faz uma criança. É natural que a criança faça perguntas, porque ela precisa de pessoas que decidam para ela. Agora o adolescente, o jovem e o adulto têm de saber as coisas. E veja, há coisas que nós temos mesmo de fazer sem entender. Nem tudo dá para saber e entender antes de fazer.

PROF. CARLOS: Nós saímos agora há pouco do treino e praticamos vários exercícios para trabalhar concentração, decisão, timing, ritmo etc. Você poderia dar alguma dica de um exercício praticado no karatê que pode melhorar esses aspectos?

VITOR: Sim! Um exercício muito interessante e bastante simples é o seguinte: imagine uma sala com uma porta e duas pessoas. Assim que uma pessoa abre a porta, a outra pessoa tem de entrar na sala. Abriu-se a porta, a pessoa entra. A porta deve ser aberta o mínimo necessário para uma pessoa passar. Ela deve manter um ritmo, abrindo e fechando a porta e contando. A pessoa que vai entrar pela porta deve tomar a decisão, estar concentrada e ter o timing certo de entrar na sala sem que a porta a machuque. Com isso podemos ver quem está presente, quem está com medo, quem está distante. Isso é interessante tanto para a criança quanto para os pais.

PROF. CARLOS: Muito boa a dica! Vitor, agora que você despertou a curiosidade das pessoas para essa modalidade, basta procurar uma academia qualquer com a modalidade shotokan?

VITOR: Evidentemente as coisas não são tão simples. Eu sou de São Paulo e tive a felicidade de encontrar o professor Corisco há 8 anos e pratico na escola Pináculo, em São Paulo. Contudo, para procurar um professor, temos de observar algumas coisas importantes. A primeira coisa a considerar é: essa pessoa que vai me ensinar karatê-dô tem um ideal de vida? Um ideal de vida é diferente de um objetivo, é algo maior. Um ideal de vida é um compromisso grande com algo. Veja a origem disso: o professor é um aventureiro, um esportista ou tem uma origem? Por exemplo, no karatê-dô, falamos em raiz, tronco e galho. A base é a raiz, os pés bem plantados no chão. Para encontrar um bom professor é preciso observar isso, se é alguém que tem raiz, que tem uma base e um ideal de vida.

PROF. CARLOS: Em São Paulo temos a escola Pináculo. Há algum site ou e-mail?

VITOR: Sim, a Escola Pináculo tem um blog, que você pode acessar: http://pinaculokaratedo.com.br/. Ali você pode ter mais informações sobre o professor José Alberto, mais conhecido como professor Corisco.

PROF. CARLOS: Além de karateca, é verdade que você trabalha em uma editora?

VITOR: Claro, professor Carlos. O professor Corisco fundou uma editora há 4 anos, a Editora Molokai. Como ele faz um trabalho muito grande de educação e formação humana por meio do karatê-dô, a Editora Molokai foi fundada com o intuito de complementar essa trabalho de formação humana e agora com um objetivo maior de divulgar, também, livros do catolicismo.

PROF. CARLOS: Eu tenho aqui um livro da Editora Molokai. Você pode falar sobre esta obra?

VITOR: Este foi o primeiro livro da Editora Molokai e chama-se A boa educação, escrito por Tihamer Toth. O autor foi bispo na Hungria, fez um trabalho muito grande com jovens e foi capelão do exército. Todas as pessoas do Brasil poderiam ler tal livro, porque ele vai falar coisas muito humanas, professor. Desde hábitos de higiene, vestimenta, hábitos de educação, respeito aos mais velhos, o que é um professor, como estudar, faculdade. É um livro bastante abrangente.

PROF. CARLOS: Fala sobre a prática de atividades físicas?

VITOR: Há alguns capítulos que são destinados a isso. Há o capítulo “O corpo bem treinado”, que fala sobre a importância de ter um corpo que responde ao frio, ao calor, que suporta algum momento de fome, de má alimentação. É muito interessante também outro capítulo que se chama “Não é só com a mente que se aprende”, mostrando a importância da formação corporal para a educação da pessoa. O livro está disponível no site da editora, que é https://loja.editoramolokai.com.br.

PROF. CARLOS: Vitor, para encerrar, você trabalha em São Paulo com crianças, jovens e adultos. É isso?

VITOR: Exato. O professor Corisco leciona na Escola Pináculo e faz um trabalho muito extenso com todas as idades, desde crianças até idosos. Tem também um trabalho mais específico com jovens e adolescentes no bairro do Brás. Eu procuro aprender com ele e também dou aulas no bairro do Brás.

PROF. CARLOS: Você acompanha a transformação das vidas dessas crianças?

VITOR: Muito. A criança chega muito distraída, põe a mão no chão, põe a mão na boca, com a roupa do avesso, com dificuldades no colégio. Ela começa no karatê-dô a ter uma visão de respeito, hierarquia, professor, pai, do que é brincadeira e o que é distração.

PROF. CARLOS: Os pais ficam surpreendidos com os resultados.

VITOR: Os pais dizem: “Olha, eu tenho mais filhos, vou trazê-los todos para cá. Eu vejo os resultados: meu filho me ajuda em casa, está melhorando no colégio”. É muito bom!

PROF. CARLOS: Vitor, tenho de encerrar o bate-papo. Muito obrigado pelas dicas. O grupo de Londrina já está sentindo na pele essas transformações e espero que mais pessoas conheçam essa modalidade. Você que mora em São Paulo procure a Escola Pináculo.

VITOR: Muito obrigado!

PROF. CARLOS: Então é isso, pessoal! Fiquem com Deus e até a próxima!


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