Nativos digitais, lâmpadas e mariposas – as promessas frustradas da “Educação do Futuro”

Tempo de leitura: 13 minutos

Moderno. Eis um vocábulo muito conhecido e que valoriza o substantivo que se lhe associa. Todos parecem querer sociedade, família e escola; governos e partidos políticos; pais e professores; carros, casas, roupas e celulares… modernos.

É curiosa a origem do adjetivo moderno. O adjetivo moderno, em português, deriva do advérbio latino modo e significa “há pouco” ou “recentemente”. Esse esclarecimento é crucial para o entendimento do significado das palavras moderno e modernidade.

Ser moderno é, pois, afirmar o agora do tempo como critério de valor. Simultaneamente, é desvalorizar a lembrança da cadeia de sucessão do ser e do fazer no mundo como chave interpretativa do devir. Privilegia-se a sincronia frente à diacronia, vale dizer, a instantaneidade em detrimento da duração. O eventual ganha preeminência frente ao permanente, o fugaz, frente ao eterno.

Temos, pois, o cenário de uma dupla rebelião: rebelião contra a inelutabilidade do tempo, rebelião contra as determinações naturais. Para vencer o tempo, negá-lo. Para vencer a natureza, a tecnologia. Fugacidade e inovação. Tudo que é novo adquire o sacrossanto condão de libertar e redimir. Do tempo e da natureza.

A sacralização da novidade e a valorização do agora crescem juntas. Cedemos à sedução do dernier cri. E celebramos o vazio.

Dizer, por exemplo, que “temos escolas do século XIX, professores do XX e alunos do século XXI” credencia para a entrada na galeria de celebridade instantânea, inscreve imediatamente o autor na lista de arautos pedagógicos do novo. A emissão de juízos desse tipo transforma seus arautos em espécies de anjos seculares. Envolvem-lhes auréolas. Mas auréolas virtuais: centenas de likes, milhares de shares, milhões de followers.

Esses são os que passam a oferecer abordagens educacionais, métodos de ensino, materiais pedagógicos, currículos, todos inovadores.

Lâmpadas e mariposas? Veremos se não.

Educação do Futuro: o que é isso?

A capitulação frente ao agora, a celebração do vazio, produzem efeitos. Nem mesmo uma Educação do agora está-se mais a querer. Quer-se, diferentemente, a Educação do futuro. Anseia-se pelo que ainda não é sem que tenha havido experiência do que foi e do que é.

O que ela faz e o que ela preconiza, essa Educação do futuro, em busca da qual se corre, implicitamente desde o século XVI, e explicitamente, desde o final do século XIX e início do século XX?

Primeiro ela lisonjeia o interesse confundindo-o com excitação.(1) Depois, porque se prende apenas ao aspecto funcional do agir, ela preconiza nada aprender. Dito de outro modo, nada aprender corresponde a aprender a aprender. Eis a panaceia pedagógica. Uma Educação que ativa as “soft skills”, as famosas funções cerebrais mais elevadas e complexas: pensamento crítico e imaginação criadora sobretudo. Assim, o cidadão se emanciparia. E estaria habilitado a atuar no século XXI. Do pináculo de sua autonomia.

Essa Educação desenvolve competências para a resolução de problemas reais, no mundo real. Mundo cujas notas distintivas são a velocidade e a mudança. Trata-se, pois, de uma Educação cujo alvo é atualizar o “aplicativo” que roda em uma plataforma do “hardware” humano.  A tarefa educacional por excelência seria a de regulagem constante do aplicativo, isto é, de habilitar o educando a dar uma resposta funcional, que se encaixe produtivamente na configuração momentânea do ambiente biológico, físico e social, já que o próprio ser humano a ser educado foi autoproduzido no e pelo entorno, como mecanismo biológico-social que opera por retroalimentação causal.(2)

Habilidades do século XXI e economia do conhecimento

A participação na vida ativa, econômica, social política, no século XXI, diz-se, requer uso intensivo das funções superiores, pois os saberes estão sempre em processo de mudança: habilidades do século XXI. Isso se exprime na afirmação de que hoje vivemos na economia do conhecimento.

É fato que as formas comunicacionais humanas evoluíram de uma configuração em que elas eram restritas à oralidade e limitadas espaço-temporalmente a uma configuração em que são, hoje, instantâneas, ilimitadas e de todo tipo. O uso das propriedades funcionais do córtex cerebral (memória, imaginação, planejamento) foi central nisso. Mas esse papel não foi jogado somente na fase de evolução comunicacional, da qual somos contemporâneos. Ademais, esses processos evolutivos não se restringiram às funções comunicacionais per se.

No processo que levou os grupos humanos a abandonar a alimentação crua em benefício de uma alimentação cozida, a substituir ferramentas de pedra lascada por ferramentas de pedra polida, ou, ainda, a trocar a caça e coleta pela agricultura e o pastoreio, não operaram as funções superiores do córtex cerebral? E esses processos evolutivos não se relacionam, também, com o processo que funcionou na evolução das formas comunicacionais humanas?

Diríamos que na evolução do cru ao cozido, da pedra lascada à pedra polida, do nomadismo à fixação em um espaço, esteve em curso uma economia do desconhecimento, enquanto que ao tempo da revolução nas tecnologias de informação e comunicação está em curso uma economia do conhecimento?

“Logo o livro será obsoleto nas escolas”

Quanto à dimensão instrucional da Educação, invadiram as escolas, sucessivamente, o rádio, as TVs, os computadores, as lousas interativas, a “gameficação” do aprendizado, a realidade aumentada (uma nova tecnologia que funde elementos dos mundos virtual e real).

Em 1913, Thomas Edison vaticinou: logo o livro será obsoleto nas escolas. Algum tempo se passou. As escolas, modernas que querem ser, se tornaram o lugar das novas tecnologias da informação e da comunicação. E da instrução assistida por computador. A “profecia”, contudo, falhou. Os livros continuam lá. Didáticos, paradidáticos etc. Ao alcance das mãos e olhos. Em estantes. Físicas ou virtuais. O que mudou foi que seus conteúdos agora podem vir em outro suporte: e-book. Na língua do mago.

Como são espertas as crianças de hoje!

Sôfregos, pais, e até avós, são seduzidos por um juízo segundo o qual as crianças nascidas após o advento dos jogos eletrônicos e à generalização do uso da internet teriam seu pensamento modulado pela lógica digital e fragmentária típicas do mundo virtual e do funcionamento do multimídia. Diferentemente das crianças das gerações anteriores, as contemporâneas seriam multitarefas, quer dizer, capazes de realizar ações concomitantemente e mudar de tarefas mais flexivelmente. Não só pressurosos, mas sobretudo crédulos, esses pais e avós oferecem a dedinhos e olhinhos, ainda imaturos, telas de celulares e tablets. Exultam diante do resultado obtido:

– Como são espertas as crianças de hoje!

As moderníssimas promessas pedagógicas frustradas nas salas de aula

Ora, o velho e proveitoso bom senso nos deveria prover alguma dose de ceticismo quando se nos apresentam novíssimas maravilhas pedagógicas com promessas visionárias de benefícios que mudarão definitivamente a face da Educação e do Ensino. Convém saber que, nas salas de aula reais, todas essas promessas se frustraram e se frustram. Uma a uma.

Na verdade, as mazelas trazidas por decisões açodadas já ligaram alarmes.

Primeiro, os benefícios que o mundo esperava colher da moderna ideia que preconiza a escolarização em idade cada vez mais tenra (e escolarizar crianças cada vez mais cedo é de um apelo moderno irresistível), à luz de uma observação acurada, não têm aparecido. O que aparece são frustrações das previsões otimistas.

Fomos informados disso por pesquisadores que se encontraram na Brookings Institution, em Washington, outubro de 2016. Future of Children, uma das revistas de maior prestígio científico do mundo no campo da pesquisa sobre Educação Infantil os reuniu para discutir o seguinte: dados longitudinais insistem em não confirmar os benefícios que a teoria educacional previu. Comparadas as trajetórias cognitiva e comportamental entre crianças que “se beneficiaram” (grupo tratado) e crianças que não “se beneficiaram” (grupo controle) da Educação Infantil escolarizada, os resultados insistem em negar, ao primeiro, evidência de trajetórias cognitiva e comportamental superiores. E o problema é que começam a aparecer evidências favoráveis ao segundo.

Segundo, o Relatório de Desenvolvimento Global 2018, do Banco Mundial, dedicado exclusivamente à questão educacional, sob a epígrafe “um relatório emblemático”, intitulado “Aprendendo a Efetivar as Promessas da Educação”, refere-se explicitamente à “crise global da aprendizagem” no mundo atual, ao mesmo tempo em que a educação escolar é provida, cada vez mais cedo, a um número crescente de crianças e adolescentes em todo o mundo.

O mito dos nativos digitais

Terceiro, a putativa existência de nativos digitais, crianças, adolescentes e até jovens adultos, nascidos após a disseminação dos jogos eletrônicos e da internet, e sua propalada habilidade multitarefa mostra-se um mito.

Evidências empíricas coletadas entre estudantes dos EUA e da Europa indicam, por um lado, que o progresso escolar dos usuários intensivos de redes sociais é inferior ao dos não usuários intensivos e, por outro, que os usuários intensivos não colhem benefícios didáticos ou escolares desse uso, além do que, na hipótese da existência dessa capacidade multitarefa não há evidências de que ela renderia benefícios ao aprendizado escolar.

Um paralelo com a história da Medicina

Quanto à observação acurada e prudente da realidade, não custa lembrar que nem Medicina, nem médicos, desfrutavam, antes do século XX, o prestígio, a respeitabilidade, o status que desfrutam hoje. Alcançaram-nos no século passado, depois que se logrou a produção de antibióticos sintetizados em escala industrial e após os médicos começarem a obter altas taxas de sucesso em debelar doenças infeciosas pelo uso desses medicamentos. Ademais, tendo conhecido não somente como se dava disseminação de doenças nas epidemias, mas também os mecanismos biológicos da produção de anticorpos, somente no século XX, a Medicina, sob a ação concreta da orientação médica, conseguiu prevenir com vacinas as temíveis e assombrosas epidemias.

A lembrança do que ocorreu com a Medicina e os médicos abre a porta para importante pergunta. Estariam a Educação e os educadores, hoje, em situação comparável à situação da Medicina e dos médicos antes de terem aprendido a usar Ciência para conhecer funções e disfunções orgânicas do corpo e garantir à população tratamento efetivo de doenças, promoção da saúde, salvação de vidas?

O exemplo das mariposas

Um estudo recente, cujos resultados foram apresentados em 2016, na revista Biological Letters, publicação da prestigiosa Royal Society, comparou mariposas que viviam há longo tempo em região urbanizada, nas quais estava presente um nível elevado de poluição luminosa, com o comportamento de mariposas que viviam em regiões não urbanizadas, onde predominava a iluminação natural da lua durante as noites. O interesse dos pesquisadores visou o comportamento de atração pela luz artificial.  

As mariposas que habitavam regiões urbanas com poluição luminosa mostraram um padrão reduzido de atração pela luz artificial, que as desorienta fatalmente, comparadas com mariposas naturais de regiões intocadas, nas quais a luz natural da lua predomina.  As que hoje vivem, há algumas gerações, em ambientes urbanizados estariam “evoluindo e aprendendo” a regular suas respostas às fontes luminosas não naturais, já que sua visão não processa a informação luminosa como os nossos olhos o fazem.

Por intermédio de mecanismos que os biólogos tanto se esforçam para entender, estaria a natureza operando para que as mariposas aprendessem a evitar um comportamento fatal, resultado do arrebatamento e da desorientação que a luz artificial moderna das lâmpadas lhes causa?

Quando isso ocorrerá com pais e educadores?


Notas

(1) Interesse. Do prefixo latino inter, por entre. E do verbo esse, que é, em português, ser. Ter interesse por algo é querer se entreter lá no coração desse algo. Querer habitá-lo. Jazer nele.  Isso é totalmente diferente de excitação. Na composição da palavra excitação entra o prefixo latino ex, que acrescenta a ideia de “para fora” ou “que vem de”. Também entra em sua formação o étimo citar, do latim citare, referente a ciere, que, por sua vez evoca a ideia de fazer surgir, por em movimento. Caracteriza a excitação um estado, instável e efêmero, de agitação sensível ou perturbação do espírito.

(2) Há aqui uma soma de influências que penetrou o pensamento e as práticas educacionais sem que a maioria dos educadores e pais tenha a mínima ideia de que isso ocorreu. Menos ainda de como ocorreu. Tais influências começam a se consolidar com o criticismo kantiano em Filosofia. E esse processo de consolidação chega ao seu auge nos anos 1950, com a Cibernética e as Ciências Cognitivas. Trata-se de uma questão de alta complexidade. Sem domínio técnico, conceitual e histórico da questão, nem de suas implicações, e, na maioria das vezes sem consciência do que está envolvido, Pedagogos se referem a isso genericamente: sociointeracionismo. O meio formaria o indivíduo que, por sua vez, formaria o meio. Sistemas sociais e sistemas biológicos funcionariam por mecanismos de causação circular retroalimentada.


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