3 Contos de Fadas que Nos Ensinam a Distinguir entre o que é Essencial e o que não é

Tempo de leitura: 9 minutos

O que os contos da tradição popular e os contos de fadas podem nos ensinar sobre a importante escolha entre os bens primários e os secundários, entre as coisas essenciais e as não essenciais?

Bom senso é a habilidade de distinguir entre as coisas primárias e as secundárias, entre as obrigações mais urgentes e todas as outras.

Por exemplo, ser um bom pai ou uma esposa dedicada é mais importante do que ganhar mais dinheiro ou se dedicar a uma carreira com sacrifício da família.

É um sinal de sabedoria a inteligência para separar o que é e o que não é essencial – o que se evidencia quando consideramos o preço que pagamos pelas coisas.

7 exemplos de insensatez

* Não são mais do que gastos insensatos adquirir bens de valor exorbitante e fazer dívidas que ultrapassam os próprios rendimentos ou economias.

* Valorizar o trabalho acima da saúde e sacrificar o bem-estar mental, emocional e físico por um salário maior é pagar caro demais.

* Encontrar tempo para participar de associações, organizações e trabalho voluntário e não dedicar tempo aos filhos, a conversar e apreciar a companhia do cônjuge, também é um exemplo de insensatez, de incapacidade de distinguir entre o que é verdadeiramente importante e aquilo que tem menos valor.

* Gastar todo o tempo de lazer vendo TV e assistindo a canais esportivos, sem nunca se dedicar a ler um livro, a fazer uma leitura espiritual ou uma oração, também é um exemplo de mau investimento.

* Ser demasiado auto-suficiente e auto-confiante e negligenciar o dever de cultivar amizades, celebrar as ocasiões festivas e renovar os laços familiares é também ignorar uma necessidade humana essencial: o enriquecimento dos relacionamentos interpessoais.

* Cuidar da saúde, tomar vitaminas e alimentar-se bem, mas negligenciar a importância da atividade física, é sinal de insensatez.

* Votar em um candidato apenas por lealdade partidária e visando a vantagens econômicas, mais do que por ideais morais e pelo comprometimento com a dignidade de todo ser humano, desde a concepção até a morte, é colocar o interesse próprio acima do bem comum.

* Economizar, investir, obter lucros e viver apenas para multiplicar a fortuna, sem se preocupar com a caridade e com a generosidade, é valorizar os bens materiais acima dos bens espirituais e viver mais para o corpo do que para a alma.

Muitos contos da tradição popular e contos de fadas nos oferecem uma sabedoria proverbial sobre essa importante escolha entre os bens primários e os secundários, entre as coisas essenciais e as não essenciais.

1. As oferendas de um príncipe e de um mascate

No conto “O Guardador de Porcos”, de Hans Christian Andersen, a Princesa tem a oportunidade de escolher entre os magníficos presentes de um príncipe e as mercadorias ordinárias de um mascate. Como símbolo de seu amor, o Príncipe lhe oferece uma rosa raríssima que floria somente uma vez a cada cinco anos, “mas esta única rosa tinha uma fragrância tão doce, que, ao cheirá-la, esqueciam-se todas as preocupações e tristezas da vida”, e um rouxinol “cujo canto era como se todas as mais suaves melodias se reunissem em sua pequenina garganta”.

A Princesa recusa os inestimáveis presentes de seu pretendente e faz pouco caso do amor do príncipe. Quando o Príncipe então retorna, disfarçado de mascate, vendendo uma panela mágica que exalava o cheiro de tudo quanto se cozinhava em todas as casas do reino e uma matraca que tocava as canções populares da moda, a Princesa compra as novidades pelo preço de dez beijos pela panela e de cem beijos pela matraca. Ela compra objetos sem valor ao preço de seu maior tesouro: seus beijos.

Ao recusar a preciosa rosa e o rouxinol, símbolos da pureza do amor do príncipe, e comprar a panela e a matraca de um mascate qualquer, a Princesa prefere, ao que é excelente, algo que é sem valor: o cheiro vulgar da cozinha ao incomparável perfume da rosa; as canções populares da moda à música celestial do rouxinol.

A Princesa prefere o ridículo ao sublime. Ela rebaixa a dignidade e honra de uma princesa e distribui beijos a um estranho em troca de umas bugigangas que lhe proporcionariam um prazer momentâneo, rejeitando os valiosos presentes de um príncipe amoroso, que seriam fontes inesgotáveis de alegria.

A insensata Princesa valorizou mais o vulgar do que o belo, mais o fugaz do que o duradouro, mais o produto extravagante feito pelas mãos do homem do que o bem natural, dádiva dos céus. Cada escolha da Princesa valoriza o que é secundário, em prejuízo do que é fundamental; o não essencial, em prejuízo do que é essencial.

2. Os favores de um peixe

No conto “O Pescador e Sua Mulher”, dos Irmãos Grimm, a esposa de um pescador faz pedidos a um linguado que seu marido salvara das águas. Quando apanhado pelo pescador, o linguado lhe dissera: “Ouça, pescador, suplico que não me mate. Não sou um linguado comum; sou um príncipe encantado!” O pescador atendeu ao pedido e não voltou a pensar em sua boa ação, até que sua esposa reclamou: “E você não lhe pediu nada?”

Como recompensa pela boa ação que praticara, a esposa insiste que o marido peça por uma casa melhor, para que deixem de morar naquela choupana miserável. Depois que o linguado atende ao pedido, a mulher continua a fazer exigências, e cada vez mais extravagantes – uma casa, depois um castelo.

Em seguida, o desejo é tornar-se rei, depois imperador e, finalmente, papa. Sua última ambição é governar o sol e a lua. O linguado, que até então satisfizera todos os seus desejos, não apenas se recusa a atender a este último, como também desfaz tudo que lhe concedera antes: “Então terá de voltar para o seu velho casebre”, ele responde, irado, ao último pedido do pescador. “Ela já está lá.”

A esposa havia rejeitado o essencial e continuava a exigir coisas maiores e mais vistosas – todas desnecessárias –, até que perdeu tudo por causa de sua avareza.

3. Um duende na mercearia

No conto de Andersen “O Duende da Mercearia”, um duende que habita a mercearia espera ansiosamente, todos os anos, pelo prato de mingau que o merceeiro lhe oferece. O duende não cogita abandonar a loja contanto que receba seu prato de mingau no Natal.

Um dia, o duende presencia um estudante pobre comprando queijo e velas do merceeiro, que então embala o queijo em uma folha arrancada a um velho livro de poesia. Ao ler os versos e se encantar com sua beleza, o estudante muda de idéia e decide, em vez de comprar comida para o jantar, usar o dinheiro para adquirir o velho livro de poesia: “Troco pelo queijo – não me faz falta, já que tenho pão e manteiga!”

O duende assiste à negociação, sem poder acreditar que alguém seria tolo o bastante para sacrificar um pedaço de queijo por um velho e inútil livro de poesia.

Comprar um livro e voltar para casa sem um belo jantar não faz nenhum sentido para o duende, que valoriza o alimento do estômago mais do que o alimento da alma.

Mordido pela curiosidade, o duende espia pelo buraco da fechadura do quarto do estudante, onde jaz aberto o livro de poesia:

“Mas como o livro brilhava no sótão! Um feixe de luz partia dele e crescia até assumir as proporções de um tronco – de uma árvore imensa, que erguia os galhos e os estendia sobre o leitor.”

Entretanto, diferentemente do estudante, que abre mão de um pedaço de queijo em troca da poesia – um bem menor por um bem maior –, o duende decide agir com moderação e “sensatez”, acreditando que pode gozar do melhor dos dois mundos: “Vou me dividir entre os dois… Não posso largar o merceeiro, por causa do mingau!”

Por “sensatez”, o duende quer dizer que dedicará porções iguais de tempo ao estudante do segundo andar e ao merceeiro do primeiro andar. Ele ficará com o melhor dos dois mundos, como se fosse possível ter tudo ao mesmo tempo, conciliando o prazer mais baixo proporcionado pelo mingau com a felicidade da alma proporcionada pela grande poesia.

Ele não consegue sacrificar o bem menor pelo bem maior, e se considera prático e sensato porque pode alternar entre o mingau e a poesia – como se tivessem o mesmo valor.

Fechando a história com uma observação – “Todos nós procuramos o merceeiro – por causa do mingau” –, Andersen lança uma luz sobre essa forma sutil de tentação, que exalta o prazer temporário sobre a felicidade eterna, a satisfação do corpo sobre a saúde da alma, a pequenez de um bem insignificante sobre a glória de um vislumbre celestial.

Freqüentemente aqueles que não conseguem distinguir o essencial e o não essencial, as coisas primárias das coisas secundárias, rebaixam sua dignidade e se comportam como um duende que, assim como Esaú, prefere um guisado ao que lhe era direito de nascença.

Tradução de artigo de Michael Kalpakgian publicado originalmente em Seton Magazine.


Notas:

Tradução do conto “O Guardador de Porcos” extraída de “Contos de Andersen”, 7ª ed., Ed. Paz e Terra.

Tradução do conto “O Pescador e Sua Mulher” extraída de “Contos dos Irmãos Grimm”, 1ª ed., Ed. Rocco.

Tradução do conto “O Duende da Mercearia” extraída de “Histórias do Cisne”, 1ª ed., Companhia das Letrinhas.

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