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“A poesia, música das palavras…”
Assim a famosa coleção Tesouro da Juventude abre uma de suas seções, intitulada “O Livro da Poesia”. No texto de abertura, após algumas breves palavras sobre a prosa,– essa forma da comunicação humana que se vale de palavras com sentido preciso para comunicar o pensamento –, lemos que:
“Mas há outra maneira de escrever em que as palavras soam com mais encanto, em que as imagens e comparações são mais utilizadas e o ritmo é mais acentuado; aí parece que a frase se coloca em plano bem alto e nos fala melhor ao sentimento emotivo. A sua leitura dá-nos a impressão acentuada de ‘música’ e nos conduz para um mundo diferente do que nos cerca: é a poesia.” (Grifamos)
Se você é leitor assíduo do blog Como Educar Seus Filhos, já sabe que a memorização e a recitação de poesia desde a infância favorece o desenvolvimento lingüístico da criança e pavimenta o caminho para o cultivo de uma vida literária mais rica, preparando o ouvido para a leitura, mais tarde, da grande poesia. Não é sem razão que o professor Olavo de Carvalho certa vez afirmou, em seu Curso Online de Filosofia: “A memorização de poesia é um exercício muito bom, que cria uma espécie de musicalidade interna. (…) Não temos de interpretar a obra literária; ela, sim, vai ser a chave interpretativa das situações da nossa vida.”
Mas pode ser que poesia seja algo totalmente novo para você, e que mesmo as noções mais elementares relacionadas ao assunto lhe sejam desconhecidas. Tudo bem, não é preciso ser um expert no assunto para apreciar, encantar-se e transmitir a seu filho o amor pela poesia. Tudo de que você precisa é apaixonar-se por ela – ou melhor, apaixonar-se por um poeta, deixando-se envolver pelo mundo da poesia, sem ansiedade de interpretar ou analisar o poema, mas deixando-se interpretar por ele.
Se a poesia “nos conduz para um mundo diferente do que nos cerca”, imaginemos, leitor, que estamos nos preparando para uma viagem: uma viagem ao mundo da poesia. Como acontece sempre, alguma bagagem é necessária. No nosso caso, alguns conceitos elementares acerca da poesia.
O CASAMENTO PERFEITO ENTRE FORMA E SENTIDO
Para começar, propomos um desafio…
Leia os seguintes versos em voz alta:
“Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!”
Agora, tente dizer, com suas palavras, o mesmo que esses versos dizem.
Por mais simples que seja compreendê-los, você deve ter percebido que a transposição para a prosa não é tão imediata. Algo das nuances se perde, mas, principalmente, algo da beleza, do impacto imediato causado pelas palavras. É que a poesia é assim: um casamento perfeito entre forma e sentido, de tal modo que, mudando-se um, altera-se também o outro.
Segundo Napoleão Mendes de Almeida, poesia é o gênero literário que manifesta o Belo por meio da palavra rítmica, ou seja, por meio do verso.
Em seu Tratado de Versificação, Olavo Bilac e Guimarães Passos assim definem o verso:
“Compreende-se por verso – ou metro – o ajuntamento de palavras, ou ainda uma só palavra, com pausas obrigadas e determinado número de sílabas, que redundam em música.”
Note a insistência na noção de ritmo quando se fala em verso. Temos aí o seu primeiro elemento característico.
Observação: porque o verso é um fato eminentemente acústico-auditivo, é importante que os exemplos ao longo deste artigo sejam lidos em voz alta.
RITMO
Quando pensamos em ritmo, pensamos em um esquema de sons que se repete com regularidade. Na definição do Dicionário Aulete da Língua Portuguesa, ritmo é a “sucessão de sons ou movimentos que se repetem regularmente, com acentos fortes e fracos”. No verso poético, o ritmo é o resultado da combinação de três elementos: (i) metro, (ii) cadência, (iii) rima.
Metro
É a medida do verso, ou seja, a quantidade de sílabas de que ele se compõe. Mas, atenção: não estamos falando de sílabas gramaticais. A sílaba poética difere da sílaba gramatical. Para o poeta, é sílaba todo agrupamento de sons que pode ser emitido de um único impulso de voz. Além disso, no verso, conta-se até à última sílaba tônica, desprezando-se a última, se átona. Assim, no verso “as asas de ouro finamente abrindo”, há treze sílabas gramaticais, mas dez sílabas poéticas. Vejamos:
Para ilustrar os diferentes metros, recomendamos a leitura do poema “A Tempestade”, de Gonçalves Dias, em que o poeta descreve uma tempestade empregando estrofes compostas de versos sucessivamente de duas a onze sílabas poéticas. O poema começa assim, com versos de duas sílabas poéticas:
“Um raio
Fulgura
No espaço
Esparso,
De luz”
Cadência
Como o próprio nome indica, cadência é a forma de cair. Com relação ao verso, refere-se aos locais onde o acento de intensidade (ou seja, a pronúncia mais forte) deve necessariamente cair para criar um efeito sonoro agradável, melódico. Cada tipo de verso exigirá certos acentos obrigatórios para que o efeito seja considerado eufônico, ou seja, agradável aos ouvidos.
Nos versos de 1 até 7 sílabas poéticas, só existe 1 acento obrigatório, que deverá cair, nos versos de 1 sílaba, na 1a; nos de 2, na 2a; nos de 3, na 3a, e assim por diante.
Assim, o verso “Andava um dia” (An\da\va͡ um\ di\a) possui 4 sílabas poéticas, recaindo o acento obrigatório na quarta sílaba, aqui em negrito.
Nos versos de 8 a 11 sílabas, haverá 2 acentos obrigatórios: além daquele na última sílaba, um outro, em posição mais ou menos intermediária, conferindo equilíbrio à cadência do verso. Assim, em um verso de 8 sílabas, haverá 1 acento obrigatório na 8a e outro na 4a sílaba (esses são os obrigatórios, podendo haver outros acentos no verso). O poeta pode ainda escolher, em vez de acentuar a 4a sílaba, desdobrar esse acento em dois, recaindo um sobre a 5a sílaba e outro sobre a 2a. Veja o exemplo:
O verso “Ó solidão do boi no campo” tem 8 sílabas poéticas. Você consegue dizer onde recaem os acentos?
Sim, os acentos recaíram na 4ª e na 8ª sílabas. Temos aí uma cadência perfeita.
Na tabela a seguir, resumimos onde devem cair os acentos em cada tipo de verso, para facilitar a identificação do esquema rítmico. Os acentos obrigatórios seguem em negrito. Todos os versos exemplificativos foram retirados do poema “A Tempestade”, já mencionado.
Tudo o que dissemos aqui sobre os acentos obrigatórios no verso aplica-se aos versos metrificados. O ritmo no verso livre (verso não metrificado) é obtido por meio de outros recursos (essa é uma longa discussão; para mais informações, confira as obras sugeridas ao final deste artigo).
Rima
Ocorre a rima quando há igualdade ou semelhança dos sons presentes na terminação das palavras. Há muitas maneiras de classificá-las: quanto à fonética, quanto ao valor, quanto à acentuação e quanto à posição no verso e na estrofe. Para maior aprofundamento, recomendamos a consulta a um tratado de versificação ou a uma boa gramática (geralmente há um capítulo dedicado à poesia).
Os versos que não apresentam rimas são chamados brancos ou soltos.
A aliteração é também chamada de “rima ao contrário”, pois a semelhança de sons se dá no começo das palavras, e não no fim. É também um recurso que contribui para a eufonia dos versos, para a criação de um efeito de harmonia imitativa. É o que se nota com muita evidência nos seguintes versos:
“Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.”
UMA DICA VALIOSA
Em seu Tratado de versificação, Olavo Bilac e Guimarães Passos sugerem ao leitor:
“O melhor, para fixar o ritmo na memória, é procurar uma espécie de cantilena para cada espécie, obrigando as pausas e os tempos a firmemente se caracterizarem. Uma vez ajustada ao verso a toada musical, nenhum verso sem medida certa escapará ao metrificador.” (Grifamos)
É dizer: a melhor maneira de treinar o ouvido para identificar um decassílabo, por exemplo, é memorizando versos decassílabos. Então, mãos à obra!
FORMAS FIXAS E FORMAS LIVRES
A poesia pode apresentar-se sob diversas formas: os versos podem ter todos a mesma medida (ou seja, o mesmo número de sílabas), ou cada verso uma medida diferente; podem agrupar-se com uma regularidade pré-determinada nas estrofes (poema de forma fixa), ou sem nenhuma regularidade.
Uma forma fixa é como uma fôrma da qual o poeta se utiliza, devendo obedecer a certas regras próprias. Mas não se deve pensar que isso “limita” a criatividade do poeta. As formas fixas são como um baú, que pode conter tanto tesouros quanto objetos sem valor.
Vejamos a classificação das estrofes segundo o número de versos de que se compõem:
O leque de formas fixas é extenso, do qual mencionaremos algumas bastante conhecidas:
(i) o soneto, forma composta de 2 quartetos e 2 tercetos, comumente de versos decassílabos;
(ii) a balada, forma composta de 3 oitavas e 1 quadra ou quintilha, geralmente de versos octossílabos;
(iii) a trova, quadra ou quadrinha, forma composta de 1 estrofe de quatro versos, geralmente de sete sílabas. Há muitas quadrinhas populares, como “Batatinha quando nasce/Se esparrama pelo chão/Menininha quando dorme/Põe a mão no coração.”
Poemas que não seguem um esquema fixo são chamados de poemas de forma livre.
PARA APROFUNDAR O ESTUDO
- Dicionário de termos literários, de Massaud Moisés, Ed. Cultrix.
- Tratado de versificação, de Olavo Bilac e Guimarães Passos (obra em domínio público).
- Princeton Encyclopedia of Poetry and Poetics, editado por Alex Preminger, Princeton University Press (sem tradução para o português).
- Artigo “Poesia e Ideologia”, de Otto Maria Carpeaux, in Ensaios Reunidos, V. I, Ed. UniverCidade e Top Books.
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