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“Estamos chegando?”, pergunta o pequeno viajante do banco de trás.
“Daqui a pouquinho”, você responde, na vã esperança de que essa resposta possa satisfazê-lo. Como todo pai e toda mãe, você sabe o que virá em seguida: inquietação, ansiedade, agitação, agonia.
Acabamos de cruzar a zona da impaciência.
POR QUE AS CRIANÇAS SÃO IMPACIENTES?
Para não perder as estribeiras, é bom entender uma coisa…
Criança é impaciente porque o “agora” é tudo o que existe para ela.
Sem experiência de vida e com uma habilidade para se lembrar que está apenas começando a se desenvolver, crianças pequenas não têm uma compreensão real do conceito de “passado”. Sem compreender o que é “passado”, não é possível compreender o conceito ainda mais complexo de “futuro”. Sem compreender o que é “futuro”, não é possível compreender o que é esperar. E é justamente o esperar que demanda paciência.
Para crianças pequenas, a idéia de tempo não parece real porque não é tangível. Elas não podem vê-lo, ouvi-lo, saboreá-lo, cheirá-lo ou tocá-lo. Faça o teste: pergunte a uma criança de dois anos o que ela fez ontem, e muito provavelmente a resposta será uma carinha perdida. Pergunte se ela foi ao circo ontem, e ela lhe contará tudo. Ela se lembrará de que foi ao circo; só não entenderá que isso aconteceu ontem.
Para pais cuja vida gira em torno da noção de tempo, é difícil imaginar que aquilo que controla cada minuto do seu dia pode ser algo tão etéreo – tão irreal – para seu filho. Então, vamos falar sobre a forma como a noção de tempo entra na vida dos pequenos…
COMO A CRIANÇA APRENDE SOBRE O TEMPO
CONCRETIZANDO O TEMPO. A princípio, a noção pode ser desenvolvida por meio da percepção do dia e da noite – claro e escuro. Depois, a criança pode começar a associar o tempo com a rotina, hábitos cotidianos. Por exemplo: café da manhã, almoço e jantar são acontecimentos regulares, marcados pelo tempo, fazendo com que essa noção torne-se mais concreta.
O APRENDIZADO DE SEQÜÊNCIAS. Mais tarde, desenvolve-se a noção da passagem do tempo, quando a criança começa a compreender as noções de “antes” e “depois”. Vestir as meias antes de calçar os sapatos é o começo mesmo da noção de seqüência, que mais tarde permitirá a compreensão de conceitos como “passado” e “futuro”.
MENSURAÇÃO DO TEMPO. As partes de que se compõe o tempo — segundos, minutos, horas, dias, semanas etc. — são conceitos ainda mais sofisticados, que a criança aprenderá com a experiência, com a aquisição lingüística – e, ouso dizer, com o tempo.
DIZER AS HORAS. E, por fim, a capacidade de dizer as horas despontará quando a criança começar a reconhecer e compreender os números e as seqüências numéricas, e a relacionar esses números aos acontecimentos cotidianos pautados pelo tempo.
FALANDO SOBRE O TEMPO
Como muitas outras coisas na vida de seu filho, os conceitos relacionados ao tempo desenvolvem-se naturalmente por meio das experiências cotidianas e das palavras que ele ouve em casa. Portanto, é importante escolher bem as palavras ao falar sobre o tempo. Afinal, o que “daqui a um minuto” significa para uma criança que não sabe quanto tempo dura um minuto?
Aqui vão algumas expressões, baseadas na noção de tempo, que utilizamos casualmente na conversação diária. Tente imaginar o que elas de fato significam para seu filho…
Em breve • logo que • daqui a pouco • quase • não por muito tempo • mais tarde • em um segundo • um momento • um minuto • daqui a cinco minutos • daqui a um momento • só um momento • agora não • até • não até que • antes • durante • enquanto • depois • ontem • hoje • amanhã • semana que vem • mês que vem • semana passada • mês passado • desde que • uma vez • nunca • já, já
Consegue imaginar por que eles ficam impacientes?
Para ajudar seu filho a compreender a noção de tempo, ele terá de “senti-lo”. Uma das maneiras de ajudar nesse processo é utilizar as palavras com sentido mais concreto. Ao falar sobre o tempo, utilize palavras específicas, contextualizadas e descritivas. Aqui vão alguns exemplos:
“VOU BRINCAR DAQUI A POUCO.”
Escolha um tempo específico e programe o timer (se você não tem um timer de cozinha, recomendo que adquira um), explicando que, quando o alarme disparar, você irá brincar.
“VOU BRINCAR DEPOIS.”
Se você não puder ser específico, contextualize a noção de tempo, por exemplo: “Vou brincar depois, após o jantar.”
“VOU BRINCAR AMANHÃ.”
Quando você não tiver certeza de que seu filho compreenderá um conceito abstrato de tempo, descreva-o. Por exemplo: “Depois que acordarmos pela manhã, já será amanhã, e então vou brincar com você.”
Bem, não posso prometer que, ao utilizar uma linguagem mais precisa, você estará totalmente livre da zona da impaciência. Mas um pouco de clareza e uma boa dose de paciência e compreensão da sua parte podem facilitar a navegação pela zona da impaciência.
PROMESSAS
Uma última observação. Quando você disser que “chegará em um minuto”, chegue em um minuto. Se você chegar dez minutos depois, poderá causar confusão na criança. Ela pode pensar que um minuto dura na verdade dez.
Mas há algo ainda mais importante: ao aparecer no momento em que disse que iria aparecer, você estará ensinando a importância de manter a palavra. Nesse sentido, cada minuto é valioso.
MOVIMENTOS DE UM MINUTO
PROGRAMANDO O TEMPO. Se você ainda não tem um timer de cozinha, recomendo que adquira um. Programar o timer e ouvi-lo tocar é um excelente reforço sensorial para auxiliar na compreensão das medidas do tempo. Como alternativa, muitos smartphones trazem aplicativos de timer. Ou você pode escolher canções curtas de que seu filho goste, de um minuto de duração, e utilizá-las como timer para essas brincadeiras.
A BRINCADEIRA. Programe o timer para um minuto (ou qualquer duração que seu filho consiga compreender) e divirta-se! Utilize a lista a seguir como ponto de partida. Depois, invente seus próprios movimentos de um minuto! Cuidado para não colocar a ênfase na competitividade durante a execução dessas brincadeiras. A idéia é ajudar seu filho a “sentir” o tempo por meio dos jogos e do movimento. Divirtam-se!
- Quanto você consegue correr em um minuto?
- Quanta areia você consegue colocar no baldinho em um minuto?
- Quantas vezes você consegue rolar em um minuto?
- Quantos blocos você consegue empilhar em um minuto?
- Você consegue pendurar-se nas barras por um minuto?
- Você consegue mexer os dedos dos pés sem parar por um minuto?
- Você consegue bater a bola sem parar por um minuto?
- Você consegue ficar totalmente imóvel por um minuto?
- Você consegue escovar os dentes por um minuto?
- Quantos beijos você consegue dar na mamãe em um minuto?
Artigo de Gill Connel e Cheryl Mccarthy traduzido e adaptado do inglês com permissão de Moving Smart
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