Como as Crianças Usam a Memória de Trabalho para Aprender

Tempo de leitura: 6 minutos

Já lhe aconteceu de ir a um cômodo da casa buscar um objeto e, ao chegar lá, esquecer o que foi buscar? Você já foi ao supermercado sem levar uma lista de compras, pensando que conseguiria se lembrar de tudo o que precisava e, ao voltar para casa, percebeu que itens essenciais não haviam sido comprados? Pois você já experimentou as limitações da memória de trabalho, esse post it mental de que lançamos mão para armazenar informações enquanto precisamos delas.

A memória de trabalho é fundamental para o aprendizado, uma vez que nos permite armazenar temporariamente e manipular informações, fazendo a ponte entre a informação que chega pelos sentidos e aquela armazenada na memória de longo prazo. Ela está presente em tarefas como seguir instruções verbais (orais ou escritas) e não-verbais, fazer contas de cabeça, resolver problemas matemáticos, ler textos, armazenar temporariamente números, palavras e imagens, recontar uma história lida e fazer exposições orais baseadas em textos.

Memória auditiva e memória viso-espacial

Há dois tipos de memória de trabalho: a memória auditiva e a memória viso-espacial. Numa comparação com a gravação de um vídeo, a memória auditiva gravaria o que você escuta, enquanto a memória viso-espacial capturaria o que você vê. Mas aqui termina a similaridade entre a memória de trabalho e a gravação de vídeos.

Enquanto você está gravando um vídeo, as informações visuais e auditivas vão sendo armazenadas e podem ser reproduzidas quando for preciso acessá-las. Você não tem necessariamente de prestar atenção a detalhes quando está filmando. A memória de trabalho, por sua vez, não se limita a armazenar informações para uso posterior. Elas precisam ser acessadas e reproduzidas imediatamente – mesmo quando novas informações estão chegando e têm de ser incorporadas.

Imagine que um professor lê em voz alta um problema matemático. As crianças precisam guardar todos os números na cabeça, descobrir qual operação usar e passar o problema para o papel. Tudo isso ao mesmo tempo!

Crianças com déficit nas habilidades de memória de trabalho têm dificuldade para gravar e manter as informações recebidas. Elas podem até saber como fazer diferentes tipos de cálculo, mas têm dificuldade quando os problemas matemáticos envolvem enunciados. É difícil prestar atenção simultaneamente às palavras que indicam qual operação usar e aos números que deverão compôr a equação.

“O que foi mesmo que você pediu para fazer?”

Seguir instruções que envolvem várias etapas pode-se tornar um desafio para crianças com déficit na memória de trabalho. Elas têm dificuldade para se lembrar qual o próximo passo, enquanto estão concentradas no passo anterior.

Por exemplo, se você emite um comando, pedindo à criança para (1) fazer o som da letra “o”, (2) escrevê-la no papel e (3) dizer duas palavras que comecem com essa letra, pode ser que ela já não consiga se lembrar o que tem de fazer depois de emitir o “sonzinho” da letra.

Memória e atenção

Eis uma cena muito comum nas escolas: o professor dá uma instrução oral aos alunos e, em meio à execução da atividade, vários deles pedem para ele repetir a instrução. Isso se dá seja por falta de atenção durante a emissão do comando, seja por problemas de memória, seja pela associação das duas coisas!

A parte do cérebro responsável pela memória de trabalho é também responsável por manter o foco e a concentração, e todas essas habilidades estão interligadas. Assim, a memória de trabalho ajuda as crianças a se lembrarem em que precisam prestar atenção. Por exemplo, ao fazer um longo problema de divisão, a criança precisa da memória de trabalho não só para encontrar a solução, mas também para se concentrar em todas as etapas que tem de percorrer até chegar a ela. A criança com déficit nessa memória costuma ter problemas para chegar à solução. É como alguém que sobe as escadas para buscar um objeto no segundo andar e, ao chegar lá, já se esqueceu do que procurava.

Uma memória de trabalho em bom funcionamento, associada a um trabalho para aumentar a atenção da criança, é indispensável para que ela consiga atender a instruções e comandos orais mais complexos.

Memória e leitura

Um bom desempenho em leitura também depende da memória de trabalho. Durante a leitura, é preciso reter temporariamente informações nessa memória, analisá-las, fazer inferências e dar início à compreensão do texto lido. A memória de trabalho visual ajuda a reconhecer palavras automaticamente, a hesitar menos, tornando a leitura mais fluida e menos penosa.

Para ler e compreender um texto, é preciso saber fazer inferências, ir além do sentido literal e mais óbvio. Para isso, há que articular as informações imediatas obtidas da leitura do texto com informações armazenadas na memória de longo prazo (ou seja, com aquilo que a pessoa já conhece). Além disso, o leitor tem de selecionar o que é mais relevante para ser armazenado na memória de trabalho, a qual, tendo capacidade limitada, facilmente se sobrecarrega.

Não é sem razão que várias pesquisas apontaram que crianças com problemas de compreensão textual têm também resultados ruins nos testes de memória de trabalho.

É possível fazer algo?

Ter uma memória de trabalho deficitária ou mal treinada cria sérios obstáculos ao aprendizado. Mas há como transpô-los? Sim. Se se verificar que a criança tem um déficit, é importante investir em estratégias para aumentar a atenção dela. A prática de atividades físicas associada à normalização através da lição do silêncio e de atividades de vida prática é uma forma de fazê-lo. Diminuir os estímulos visuais possivelmente dispersivos no momento da leitura ou aplicação de atividades é outra. Reduzir o tempo de exposição à T.V., ao tablet, ao celular, ainda outra. Repetir os comandos e instruções das atividades quando se mostrar necessário e emitir comandos simples e com clareza também são boas estratégias a adotar.

Durante o período de pré-alfabetização em especial, recomendamos ainda o treinamento da memória de trabalho auditiva com atividades simples e lúdicas, como estas que indicamos aqui, aqui, aqui e aqui; e o treinamento da memória viso-espacial, com outras atividades que indicaremos no blog na semana que vem. Aguarde!

Com informações de UNDERSTOOD.ORG


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