Como Introduzir seu Filho na Aprendizagem de um Instrumento Musical

Tempo de leitura: 5 minutos

Em nosso primeiro artigo, afirmamos: “Não inicie seu filho na música matriculando-o na aula de instrumento; esta só será benéfica quando ele já tiver estabilizada a aptidão musical. Antes disso, ele corre o risco de apenas acionar teclas ou beliscar cordas, mecanicamente, muscularmente, sem sentido”.

Um de nossos leitores, o eminente violinista e professor Zoltan Paulinyi, teceu algumas bem colocadas objeções. Resolvemos então aprofundar um pouco mais o assunto, esclarecer as dúvidas do professor Paulinyi e, claro, dar mais algumas dicas importantes sobre a aprendizagem de música, especialmente de um instrumento musical.

Qual a idade certa?

Uma das perguntas mais frequentes feitas pelos pais é: “Uma criança deve começar a aprender um instrumento musical a partir de qual idade?”. Segundo o professor Paulinyi, “crianças de 3 anos já são capazes de se apresentar dignamente com instrumento musical”.

Tenho de dizer que concordo plenamente com Paulinyi e, ainda assim, continuo afirmando: não caia nessa tentação! Como isso é possível?

É possível porque não há uma idade cronológica correta para uma criança começar a ter aulas de instrumento. Quem afirma isso é Edwin Gordon, a quem os leitores foram apresentados em nosso artigo passado.

Segundo Gordon, se as crianças não conseguirem cantar com afinação e movimentar o corpo com bom ritmo, elas não realizarão todo o seu potencial na aprendizagem de um instrumento musical. E para isso, elas precisam passar por um processo de audiação (aquela palavra que explicamos no artigo citado, lembra-se?) preparatória. A audiação preparatória dará às crianças um sentido objetivo de tonalidade e de métrica.

Assim, uma criança de 3 ou 4 anos pode estar plenamente preparada e uma criança de 9 anos pode não estar!

O instrumento como referência: certo ou errado?

Em defesa do uso do instrumento musical, o professor Paulinyi diz: “O instrumento musical pode tornar-se uma referência sonora, principalmente no caso de os pais não conseguirem dar o suporte pelo canto (fato muito comum no Brasil, infelizmente)”.

A palavra “infelizmente”, colocada pela próprio professor, já introduz nossa resposta. Ou seja, ele quer dizer que idealmente o suporte deveria ser pelo canto, mas, como este é deficiente, então que seja pelo instrumento.

O problema é que, se o instrumento for o centro, a referência sonora, a criança (ou pessoa em qualquer idade) terá dificuldade em aprender a audiar. Ela ficará dependente do instrumento, sem poder imaginar ou conceber o som fora daquele instrumento. Ela estará mais preocupada com dedilhado, com posição do arco, com embocadura, com posição das mãos e tantos outros problemas técnicos não necessariamente musicais.

O aluno poderá até mesmo desenvolver tensões desnecessárias, porque, sem audiação, ele não sabe muito bem qual som produzirá de seu instrumento antes de tocá-lo. Em geral, as aulas de instrumento ensinam a imitar e memorizar aquilo que os professores tocam. Consequentemente, o aluno só pode confiar na imitação e na memorização, gerando ansiedade e tensão. Com o tempo, essa situação contínua de ansiedade cansa o aluno e a música passa a ser para ele algo difícil, que gera sofrimento. Em pouco tempo, ele abandonará o estudo do instrumento e a música para sempre.

Eu já vi tal situação ocorrer centenas de vezes!

Fica a dica: o instrumento musical deve funcionar como uma extensão de nosso corpo, e não como uma muleta, para compensar uma deficiência.

O curso ideal de instrumento musical

Como explicamos em nosso artigo anterior, segundo Gordon, o som vem antes da notação e há uma sequência correta para a aprendizagem de música. Assim sendo, o bom professor ensina dois instrumentos: um visível, como piano, violino, saxofone etc., e outro invisível, que está dentro da cabeça do aluno, o instrumento de audiação.

É óbvio que há necessidade de desenvolver a técnica instrumental para tocar o instrumento visível. Todavia, caso o aluno não desenvolva competências de audiação, não tocará seu instrumento de forma musical, por mais técnica que possua.

Como deve ser o curso ideal de instrumento?

  1. Antes de tudo, audiação preparatória, com muita escuta, movimentação e canto de padrões tonais e rítmicos;
  2. O vocabulário de padrões tonais e rítmicos que foi desenvolvido pelo canto, pela cantilação rítmica e pela movimentação deve ser transportado para o instrumento;
  3. Toque de canções familiares e não familiares que utilizem o mesmo vocabulário;
  4. Toque de outros repertórios, que continuam a desenvolver o vocabulário;
  5. Finalmente, aprendizagem de leitura musical, daquilo que os alunos já conseguem audiar e tocar.

Uma dica preciosa! As crianças devem ter a oportunidade de ouvir um músico altamente profissional tocar o instrumento que elas estão aprendendo. Elas precisam ouvir a qualidade do som produzida por um grande músico. Elas serão capazes de audiar essa qualidade. O mesmo ocorre com o fraseado e a afinação.

Tempo de estudo

Geralmente, acredita-se que, quanto mais tempo alguém estudar seu instrumento, melhor será. Isso não é bem assim. Se alguém passar seis horas estudando um instrumento, mas sem audiar, o resultado será pouco recompensador, com o acúmulo de tensão muscular, canseira mental e pouco resultado sonoro.

Haverá mais benefícios se a prática do instrumento for por curtos períodos e  várias vezes ao dia, com tempo suficiente para pensar naquilo que se está tocando, ou seja, para desenvolver a audiação.

Hoje o assunto foi mais denso. Mesmo assim, aguardo seu comentário e suas dúvidas! Até mais!


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9 Comentários


  1. Recentemente, aqui em Piracicaba/SP, matriculei minha filha de dois anos e cinco meses, numa escola de música. É uma escola específica para bebês e crianças até 7 anos. Ali ela não aprende um instrumento específico, mas a professora canta várias músicas com diversos instrumentos. É bem lúdico, por exemplo, numa canção que fala de sapo e perereca, eles dão para as crianças um sapo e uma perereca de borracha para cada um, e eles imitam o “sapinho”. Eles dançam, fazem movimentos corporais, cantam, achei bem divertido e lendo este artigo, fiquei na dúvida se foi uma atitude correta. Minha filha é apaixonada por música! Ela ama dançar e cantar, por isso quis fazer o investimento. Ela canta o tempo todo, sempre estimulei ela com música, na hora de tomar banho, fazer xixi, dormir, guardar os brinquedos, sempre canto uma canção relacionada com o momento. Você acha que devo continuar com as aulas? São aulas semanais e duram 45 minutos. Obrigada pelo artigo!

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    1. Olá, sou professora de música, com certeza vocë deve permanecer com as aulas, creio que o intuito desse artigo é justamente esse, esclarecer o quanto pode ser negativo o aprendizado precoce sem a formação da acuidade musical.. que é a audição. Com certeza é assim que sua filho irá desenvolver essa acuidade, com brincadeiras, com a produção sonora através de cançoes que falem de sapo, borboletas, pipoca… enfim um vasto repertório.
      Minha opinião.

      ANA

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  2. E para um adulto que quer começar do zero? Qual a melhor maneira? Obrigado.

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  3. Robison,
    Tudo bom?
    Gostaria de saber se seu curso já está disponível?

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  4. Caro Prof Robson,
    Tomei conhecimento de um método mais moderno de ensino de leitura musical e que utiliza trechos de partitura sem clave para que as crianças solfejem começando com notas diferentes. Falo de crianças que tem boa audiação, e que já estão aprendendo instrumentos. Minha dúvida é porque o trecho já continha terças, além de pausas, ponto de aumento, semínimas e mínimas, muitos elementos complexos para a leitura à primeira vista de quem está aprendendo.
    Esse método é superior ao clássico aprendizado do solfejo em clave de sol, ou clave de fá (ou ambas dependendo do instrumento que a criança toca)? Pareceu-me uma analogia do “método global de alfabetização”, e por isso meu receio.
    Agradeço sua atenção

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  5. Adorei seu artigo sobre iniciação musical, mas ainda tenho duvidas… Queria, por exemplo, comprar um instrumento de aniversário de 3 anos para minha filha Caroline, mas, pelo que entendi no artigo, primeiro preciso verificar a audiação dela, né? Estou um pouco confusa…

    Só devo comprar um instrumento se ela for fazer a aula do instrumento? E precisa ser uma aula que o professor ensine audiação? Qual primeiro instrumento você me indica para essa idade (3 anos)?

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  6. Prezado professor Robison,

    meu pai sempre gostou de escutar música e colocava os discos de vinil — jazz, música clássica, trilhas sonoras de filmes, rock, etc. — para tocar desde a época que eu ainda não tinha nascido; nos meus primeiros anos de vida isso se tornou, segundo ele, na minha hora favorita do dia. Com 6 ou 7 anos guardava as músicas na memória e, enquanto as ouvia, acompanhava o ritmo delas com as mãos, batendo-as nos joelhos ou os dedos da mão esquerda na mão direita. Até hoje — aos 26 anos — não aprendi a tocar nenhum instrumento nem a ler partituras. Depois de ler este artigo e o anterior talvez possa, mesmo depois de tantos anos, ser músico e até um compositor, mas ao mesmo tempo o desânimo é grande: faltaram alguns aprendizados na infância — como o canto de padrões tonais e rítmicos — e por não ter tentado verificar na época se tinha talento para isso, deixando o tempo passar e perder essa chance que parece ser a única. O senhor tem algum conselho? Como eu faço para verificar se eu ainda posso ser músico?

    PS: Se quiser enviar uma dúvida eu posso usar o email [email protected]?

    Abraços,

    Samuel.

    Responder

    1. Prezado Samuel,

      Segundo Victor Zuckerkandl, todo ser humano é um “homo musicus”. A musicalidade não é um dom, mas um atributo dos seres humanos. A música não é uma aptidão especial, reservada apenas a um pequeno número de eleitos. Todo ser humano tem algum potencial para entender e aprender música. Além disso, a idade cronológica não está diretamente relacionada com a idade musical.
      É claro que aquilo que você deixou de estimular na infância está perdido para sempre. Não é possível remediar, mas é possível compensar.

      Agora, do ponto de vista prático. Não sei quais são seus objetivos com música. Quando você fala em ser músico, você quer dizer dedicar a vida a essa atividade? Não sei de quanto tempo você dispõe, qual seu grau determinação e o quanto você está disposto a sacrificar…

      Um conselho prático! Procure um coral para cantar. É um excelente meio de medir o quanto você tem de disposição para a música.

      Boa sorte e um abraço!

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      1. Obrigado pela resposta, professor. Vou procurar um coral sim.

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