Como Tirar Proveito do Gosto que Seus Filhos têm pelo Desafio

Tempo de leitura: 7 minutos

Crianças adoram desafios! É importante que você saiba tirar proveito desse aspecto fascinante da personalidade de seus filhos no momento de selecionar ou criar atividades para eles. Na dica de hoje eu falo sobre como fazer isso da maneira certa.

Quero tratar hoje de um fascinante aspecto da personalidade das crianças, o gosto pelo desafio, e explicar por que é importante que nós, pais, levemos em conta esse pendor delas na elaboração e na execução das atividades.

Conheci certa vez um pai que era muito preocupado com a educação de seus filhos, na época entre 2 e 5 anos de idade. Ele queria proporcionar-lhes uma formação harmônica e integral, e então montou uma série de exercícios com atividades físicas, ensino religioso, jogos de linguagem, música, matemática, etc.

A primeira coisa que ele fez para pôr tudo isso em prática foi estabelecer uma rotina em casa, um cronograma diário, adaptado ao dia a dia da família. O tempo passou, e o desempenho das crianças ficou muito abaixo do esperado. Era muito esforço para pouco resultado. Além disso, elas começaram a ficar entediadas e recusar as atividades.   

No fim das contas, o pai chegou à conclusão de que, se continuasse com o programa elaborado por ele, poderia “traumatizar” as crianças, e então decidiu abandonar tudo. Afinal, crianças pequenas devem brincar por brincar. No fundo, o cronograma não passaria de uma fábrica de produção de stress infantil.

Refletindo sobre o caso desse pai e sobre outros casos parecidos, comecei a perceber que o problema não estava na rotina adotada por ele (prática que sempre recomendei aqui no blog), mas, muito provavelmente, na postura, na escolha e na seqüência das atividades em relação à capacidade das crianças.

Outra coisa que me chamou a atenção foi a justificativa – aliás, recorrente entre alguns pais – de que a tentativa de seguir uma rotina de atividades com as crianças em casa produz nelas stress e traumas.    

Antes de qualquer coisa, é preciso entender que stress não é sinônimo de trauma. Ora, pense comigo.

Quase sempre praticamos atividades repetitivas nas quais estamos sob stress. Quando aprendemos a dirigir, a escrever, a contar, a andar, repetimos sob stress um conjunto de ações. Porém, nesses casos, o stress que experimentamos não é negativo, mas sim positivo. Em alguns casos, o stress pode ser positivo e nos leva a uma espécie de adaptação funcional por meio da qual nos aperfeiçoamos e adquirimos novas habilidades, como ler, escrever, contar, cantar e outras mais.

Não quero dizer com isso que o stress negativo não exista. Muito pelo contrário! No mundo moderno, sobretudo nos grandes centros, sabemos que o stress negativo pode até produzir adaptações disfuncionais, muitas vezes causando doenças. A ansiedade e a depressão são exemplos disso. O que não podemos aceitar de modo algum é a tese de que práticas pedagógicas repetitivas, destinadas ao ensino de crianças pequenas, podem estressá-las ou até mesmo traumatizá-las. Estressá-las, considerando-se o conceito de stress positivo, sim; traumatizá-las, salvo raríssimas exceções, não!   

(Detalhe: essa diferença entre stress positivo e stress negativo eu aprendi numa conversa com o dr. Fábio Bechelli, que já concedeu uma entrevista interessantíssima ao nosso blog, da qual tenho certeza de que vocês gostarão muito.)

Veja a que ponto chegamos com essa história de traumatizar as crianças. Quando eu lecionava no Ensino Fundamental II, uma pessoa observou a forma como eu corrigia as provas e me deu o seguinte conselho: “Troque a cor da caneta que você utiliza para corrigir a prova dos alunos, pois a cor vermelha pode traumatizar as crianças. Além disso, não faça estes sinais (um “X”, que eu sempre fazia para marcar a questão errada), pois isso também pode traumatizá-las”. Olhe bem para mim e me diga com toda a sinceridade: você já conheceu alguém que tivesse ficado traumatizado porque seu professor corrigiu a avaliação com caneta vermelha? Haja paciência!   

Bom, coloquemos um ponto final nessa história de stress e trauma, e voltemos ao caso que contei no início, o daquele pai que abandonou todo o cronograma depois de perceber que as crianças estavam desestimuladas com as atividades. Será que o problema estava na rotina, na matemática, nos jogos de linguagem, ou na postura e na seqüência das atividades estabelecida para as crianças? Indo direto ao ponto: será que o programa elaborado era desafiador?    

É certo que as crianças enjoam rapidamente de atividades muito fáceis. Elas também não gostam de tarefas extremamente difíceis. E uma das razões de tudo isso é a tendência delas para o desafio.

Desde pequena, a criança é desafiada pelos pais, que lhe ensinam sempre um pouco mais do que ela é capaz de aprender. E por que procedemos assim? Porque isso desafia a criança a aprender. No ensino da linguagem, por exemplo, os pais falam e interpretam as vocalizações das crianças sempre um passo adiante daquilo que elas são capazes de falar. E não foi justamente assim que seu filho aprendeu a falar? Das vocalizações (“aaa”, “ooo”, etc.) para a produção de sílabas (“bá”, “bá”, “dá”, “dá”), das sílabas para a emissão de palavras, das palavras para a composição de sentenças, e assim por diante.

Quantas vezes, em resposta às vocalizações ou aos balbucios do seu filho, você não dialogou com ele, embora soubesse que ele não poderia falar com você? Quantas vezes você não estabeleceu um diálogo com ele naquele período em que só emitia “dá”, “dá”, “dá” ou “bá”, “bá”, “bá”? Ora, em todos esses exemplos, você estava desafiando seu filho a aprender a falar ou a melhorar a própria fala.

Não foi mais ou menos isso que lhe ensinei quando passei a dica sobre a modelagem da linguagem? Ali também não há uma espécie de desafio linguístico, que convida a criança a descrever suas ações e a reformular suas sentenças, a partir da fala dos pais, que está sempre um passo adiante?

Eu poderia mencionar muitos outros exemplos. Mas basta que você se lembre do e-book que lançamos no ano passado, cujo título é As 5 Etapas para Alfabetizar seus Filhos em Casa. Pois bem, nele eu digo que o ensino dos segmentos fônicos das letras, que o pessoal costuma chamar de “sonzinhos” das letras, não deve seguir a ordem alfabética, mas uma seqüência que vá dos segmentos mais simples para os mais complexos. Quando elaborei essa seqüência junto com o professor Ênio, eu tinha em mente duas coisas: a progressão e o desafio. Essa combinação é decisiva para as crianças aprenderem qualquer coisa.   

Portanto, guarde com carinho esta dica: as crianças gostam de desafios.

E quanto à seqüência das atividades? Onde isso fica nessa história? O que esse assunto tem a ver com o do desafio?

Ora, seqüenciar as atividades de forma gradativa faz com que a criança se depare a cada momento com atividades desafiadoras. Deixe-me explicar melhor.  A escolha de uma boa progressão combina com a tendência natural das crianças pelo desafio. Definitivamente, elas não gostam de tarefas muito difíceis e enjoam rapidamente das que são muito fáceis. Então, que tipo de atividade agrada as crianças? As que são um pouco difíceis! E assim são as progressões eficazes: as que seqüenciam gradualmente não somente as habilidades, mas também os conteúdos, nos programas de linguagem, matemática, música, etc.


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8 Comentários


  1. como sempre adorei essa matéria,devemos sim desafiar nossos filhos, acho que sempre e todos os dias sejam com atividades programadas ou em brincadeiras direcionadas.Quanto a caneta vermelha confesso que já fiquei traumatizada quando estudava a sétima série e a professora corrigiu a prova de matemática,onde eu era ruim de aprender,pois odeio matemática.

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    1. Pâmela Arumaa

      Que bom que nossos conteúdos estão sempre lhe agradando, isso muito nos alegra.

      Meu trauma era com química, teria os mesmos problemas se a caneta fosse de outra cor… rs…

      Abraços.

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  2. Professor, ótimas informações e técnicas. Seria interessante criar uma “timeline” com as técnicas a serem usadas em cada idade das crianças. Assim os pais podem fazer uma busca direto no que é aplicado em determinada idade.
    Sucesso

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    1. Pâmela Arumaa

      Agradecemos a sugestão, Frederico.

      Em nosso curso temos toda a sequência de atividades, e o que esperar de cada idade.

      Abraços.

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  3. Eu gostei muito das dicas
    Estou mesmo precisando de ajuda pós tenho dois filhos pequenos um de três anos e uma de quatro anos

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