10 Maneiras de Destruir a Imaginação do Seu Filho

Tempo de leitura: 13 minutos

Se você quer saber como NÃO educar seus filhos, esta é a receita perfeita. O professor americano  de literatura Anthony Esolen apresenta aqui um resumo dos estragos provocados pelas pedagogias funestas das últimas décadas.

Alguns anos atrás, um vândalo seqüestrou uns bons quarenta ou cinquenta mil livros da biblioteca da universidade onde leciono. Ele não queria lê-los, sequer vendê-los. Queria apenas livrar-se deles, alegando que, de qualquer forma, ninguém os leria mesmo.

Alguns dos volumes condenados à destruição eram insubstituíveis. Sei disso porque fui até a sala onde os livros foram mantidos temporariamente antes que os caminhões chegassem para levá-los embora. Salvei várias dezenas deles, inclusive um dicionário definitivo de latim medieval e a primeira grande gramática de anglo-saxão – você sabe, a língua de Beowulf na noite em que ele arrancou o braço de Grendel, e o monstro sabia que seu fim estava próximo. “Aquele não foi um dia muito bom para Grendel”, diz o poeta, impassível. Também não foi um dia muito bom para os livros.

Não havia muito o que pudéssemos fazer, porque o vândalo em questão ganhava mais do que nós e tinha um gabinete melhor. Era o nosso bibliotecário-chefe. Chega a ser irônico, mas a realidade é que um dos requisitos dos bibliotecários de hoje é ter aversão por livros. Eles ocupam espaço, e o espaço, reclamam os bibliotecários, é limitado. Além disso, livro envelhece. A capa se desgasta, a lombada se danifica, as páginas ficam com “orelhas”. O estudante distraído o coloca na prateleira errada, onde pode permanecer “perdido” por anos. Há quem pegue emprestado e não devolva. Alguns – eu mesmo sou culpado disso – sublinham seus trechos favoritos, ou escrevem comentários sarcásticos nas margens, transformando o livro em algo como a cena de um crime. Aqui, um padre escreveu: “Isto é a repetição da heresia modernista”; mais adiante, o infiel escreveu: “Igreja, inimiga do pensamento”. Isso para não falar das marcas de dedos e borrões de tinta, e até manchas de sangue – de mosquitos esmagados, suponho.

Livros são desajeitados, um estorvo – como as pedras, e as árvores, e os rios, e a vida. Ocorre-me que tudo que pode ser dito contra a inconveniência dos livros pode ser dito sobre a inconveniência das crianças. Elas também ocupam espaço, não têm nenhuma utilidade prática imediata, interessam a apenas umas poucas pessoas e apresentam todo tipo de problema. Também elas devem ser conservadas de forma eficiente e introduzidas, com o mínimo de resistência possível, na Era Digital.

E aí está o problema. Um bom livro é uma coisa perigosa. Nas mãos erradas, é como uma bomba alojada entre capa e contracapa. Pode explodir e abrir um mundo; se for a Divina Comédia de Dante, pode lançar o leitor tão alto quanto o céu. O livro carrega em si a possibilidade – e é sempre apenas uma possibilidade – de abrir uma rachadura na casca da rotina que nos impede de ver o mundo. Nossos dias passam com a regularidade de uma esteira rolante de aeroporto, na qual subimos devidamente, e seguimos nossos caminhos com uma insípida uniformidade. Um livro é como um garoto travesso que põe o pé para fora da esteira, ou como uma fantástica máquina intelectual que nos acorda num solavanco, e então descobrimos que não há mais esteira. Eis que, em vez disso, estamos conduzindo uma carruagem sobre uma trilha sulcada no chão ressequido, cercados por índios seminus que nos espreitam das montanhas, com seus arcos esticados e flechas voadoras.

Isso em si já é ruim o suficiente. Mas criança é ainda pior que livro. Um livro pode levá-lo a ver o mundo novamente e, assim, arruinar o seu dia calmo e eficiente. Mas uma criança não precisa ver o mundo novamente. Ela o está vendo pela primeira vez. Narra o Evangelho de João que, quando Jesus curou o cego no tanque de Betsaida, as pessoas em volta perguntaram o que ele via. “Vejo árvores andando”, respondeu, olhando para os homens e as mulheres. Criança é assim, com a diferença de que, em sua imaginação, as árvores de fato andam e galhos de fato crescem em pessoas. Os Ents de Tolkien, os pastores das árvores, são como grandiosos e vagarosos carvalhos, bordos e bétulas, se carvalhos, bordos e bétulas pudessem falar; leva quase um dia inteiro para que consigam dizer “bom dia” em suas reuniões. No antigo mito greco-romano, Apolo persegue a ninfa Diana, mas, pouco antes de tomá-la em seus braços, seu desejo de escapar é atendido, e ela se transforma em um loureiro. No mundo da criança, porque é novinho em folha, tudo pode acontecer. O sapo gordo sentado sobre a vitória-régia é um Buda. O homem de uma perna só manquitolando rua abaixo em direção ao bar mais próximo foi certa vez um pirata, tendo matado três homens em uma briga de carteado. A casa do vizinho tem olhos e nariz e uma chaminé em cima. A garota que mora ali, de blusa amarela, é um anjo.

Obviamente, assim não dá. Se acreditamos naquilo que repetimos, que “crianças são o nosso maior recurso”, então devemos fazer algo a respeito. Um recurso é algo valioso porque é de boa qualidade, sólido, previsível e estável. O alumínio é um recurso. O titânio é um recurso. Se uma barra de titânio resolvesse dizer de repente: “Não, pensando bem, não quero formar uma liga com meu amigo alumínio para fazer a fuselagem daquele avião”, e saísse andando da linha de montagem, ou da esteira rolante, e fosse comprar uma passagem de navio para Atenas, deixaria de ser um recurso. Com efeito, seria algo incontestavelmente perigoso. Seria algo pior que do que inútil. Seria um Inimigo do Povo. O granito é um recurso. Se um bloco de granito no topo de um arco decidisse balançar-se toda vez que ninguém estivesse olhando, para lançar-se direto na cabeça do governador, passaríamos um tempo sem utilizar granito na construção civil. Ou poderíamos utilizá-lo ainda mais – mas isso é um outro assunto.

Para que as crianças sejam transmutadas em recursos, portanto, uma tremenda mudança alquímica precisa operar-se nelas. Os antigos alquimistas da Renascença buscavam a pedra filosofal, que, com a receita certa, seria capaz de transformar chumbo em ouro. Rimos dessa tolice. Sabemos muito bem que não é possível transformar chumbo em ouro. Só é possível transformar ouro em chumbo. O ouro não é nada mais do que a imaginação da criança, a qual, se não é ouro em si, pode sempre operar o milagre do antigo Rei Midas. “A natureza nos dá um mundo de chumbo”, escreveu o poeta Philip Sidney, “mas é o poeta que o transforma em ouro”.  Se conseguirmos debilitar a imaginação, então conseguiremos sossegar a criança e transformá-la em um sólido, previsível e estável ocupador de espaço na escola e, mais tarde, em um bloco da enorme pirâmide estatal.

“Mas não queremos isso!”, objeta meu leitor. Sim, querido leitor, você quer, sim. As crianças desmentem a todos nós. Quase tudo que dizemos sobre elas é mentira. Acreditamos no exato oposto do que dizemos, e agimos de acordo.

Suponha que você ame livros. Você não diria: “Ah, livros, sim, livros são uma maravilha. Que tesouros são os livros! Eu mesmo não tenho nenhum, não quero nenhum, ou talvez só um, mas amo tanto os livros!” Ora, você teria livros espalhados pelo seu apartamento. Você sentiria prazer com a simples encadernação, com o cheiro das páginas. Não saberia viver sem eles. Você não diria: “Sim, eu amo livros. Por isso os guardo em um quartinho especial, bem longe de mim, e longe de onde faço as coisas que realmente importam. Mantenho-os trancados nesse armário e só os retiro em ocasiões especiais.” Você não diria: “Livros, de fato, nosso maior recurso. Pegam fogo fácil e dão ótimas fogueiras.”

Se amássemos crianças, teríamos algumas. Se as tivéssemos, quereríamos que fossem crianças, e amaríamos o deslumbramento com que olham para o mundo, e esperaríamos que algo desse deslumbramento nos abrisse um pouco os olhos. Amaríamos suas brincadeiras e desejaríamos brincar com elas de vez em quando, revivendo dentro de nós as lembranças das brincadeiras das quais ninguém se arrepende, e que constituem quase a única coisa que um homem maduro resgata do passado com uma satisfação irretocável. Quereríamos que as crianças nos acompanhassem aonde fôssemos, e, se não, apenas porque entenderíamos que elas arranjaram algo melhor que fazer.

Ora, isso é simplesmente intolerável. Pela primeira vez na história humana, a maioria das pessoas está fazendo coisas que jamais interessariam a uma criança a ponto de atraí-las. Isso diz menos sobre a criança do que sobre nós. Se alguém nos perguntasse: “Que tal passar a maior parte do seu tempo, cinco dias por semana, pelos próximos quatro anos, preso entre quatro paredes?”, ficaríamos loucos – isto é, se tivéssemos ainda alguma imaginação. É somente reprimindo a imaginação que muitos de nós conseguimos suportar nosso trabalho.

Leve em conta, também, os problemas dos pobres sujeitos que têm de administrar esses depósitos de seres humanos, as profusas e distantes escolas, onde são armazenados centenas ou milhares de alunos. Antigamente, digamos, em uma escolinha domiciliar de poucos alunos, você poderia facilmente distinguir o garoto ou garota abençoado com olhos travessos e uma mente vibrante. Seriam aqueles pendurando-se de ponta cabeça em umas tábuas pregadas a uma árvore no jardim da escola, ou colando chiclete no aquecedor, ou lendo Ivanhoé. Então você lhes daria umas tábuas a mais e um balde de pregos, ou uma pá para alcançar o outro lado do radiador, ou Waverley. Lidar com eles era algo possível. Mas, quanto maior a escola, mais perigoso e perturbador se torna um único ato de imaginação. A necessidade de estabelecer a ordem impede que ele aconteça. Um imenso empreendimento como o McDonald’s só pode funcionar porque há mecanismos para garantir que nenhum empregado, em parte alguma, faça algo inusitado – poderíamos dizer “infantil” – ao cozinhar. Às vezes penso que, se o garoto da chapa jogasse páprica nas batatas fritas, o colossal império da comida de papelão ruiria. Não fosse assim, bárbaros em toda parte estariam grelhando as cebolas, ou deixando de adicionar ketchup, ou trocando o molho americano pelo suíço. A grande virtude do McDonald’s – a rotina sólida, previsível e estável – desapareceria. Tal como naquilo que costumávamos chamar de “vida”, você jamais saberia o que esperar.

Devemos, portanto, matar a imaginação. O ideal, evidentemente, seria parar de ter filhos, mas isso poderia impactar negativamente a prosperidade econômica no longo prazo, além de representar uma ameaça de extinção para certos setores produtivos – os fabricantes de roupas de mau gosto, por exemplo, e importadores de açúcar refinado. Uma vez que é preciso ter filhos, devemos garantir que eles sejam submetidos às técnicas mais eficazes e humanizadas de ajustá-los ao mundo em que irão viver – um mundo de shopping centers iguais por toda parte, comida industrializada igual por toda parte, burocracia igual por toda parte, entretenimento de massa igual por toda parte, política igual por toda parte. Devemos isso a eles, e, o que é mais importante, eles devem isso a nós. Temos feito um bom trabalho nesse sentido por muitas décadas. Não deixarei, neste livro, de dar crédito ao que merece crédito. Longe de mim alegar, por exemplo, que inventei as creches. Confesso que, quando menino, eu teria achado a idéia bem revoltante. Tampouco reclamo ter inventado a noção acachapante de que meninos e meninas são perfeitamente iguais. Confesso que, enquanto eu crescia, ficava fascinado, frustrado, chocado e atônito ao descobrir suas diferenças. Mas algumas pessoas são dotadas de gênio, enquanto outras são abençoadas com o dom de dispor suas altas invenções em uma certa ordem. Receio pertencer a este último grupo.

Aqui, pela primeira vez, estão dez maneiras infalíveis de Destruir a Imaginação do Seu Filho. Não tenho a pretensão de que a lista seja exaustiva. Sem dúvida, muitos de meus leitores, abençoados com uma atenção mais aguda para as necessidades da criança, descobrirão outras. Porém, tenho certeza de que uma aplicação judiciosa de mesmo três ou quatro desses métodos será suficiente para matar a imaginação de um Einstein, um Beethoven, um Dante ou um Michelangelo.

Se você quer saber mais sobre essas dez maneiras, não deixe de ler o excelente livro Dez maneiras de destruir a imaginação do seu filho, publicado em português pela Vide editorial. Este artigo, publicado originalmente em 2011 na revista The Classical Teacher, foi posteriormente incorporado ao livro, em que o autor descreve detalhadamente como a educação atual assassina a imaginação das crianças, idiotiza-as e prepara-as para serem adultos que atendem perfeitamente aos interesses de uma agenda global.

Artigo de Anthony Esolen, traduzido para o português. Original em: https://www.memoriapress.com/articles/10-ways-destroy-imagination-your-child/ .


SOBRE O AUTOR

Anthony Esolen é autor de The Politically Incorrect Guide to Western Civilization e Ironies of Faith, tradutor e editor da aclamada edição de três volumes da Divina Comédia de Dante, publicada pela Modern Library. Esolen é professor de Literatura na Universidade de Providence e editor sênior da revista Touchstone. Ele vive em Rhode Island com a família.

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