Entrevista com Pe. Paulo Ricardo | Parte 1 de 2

Tempo de leitura: 11 minutos

Nesta entrevista imperdível, Pe. Paulo Ricardo fala sobre como deve ser a educação moral e religiosa de nossos filhos. Assista!

Tenho aqui comigo hoje Pe. Paulo Ricardo, que nos concedeu a honra de uma entrevista.

PROF. CARLOS: Antes de tudo gostaria de agradecer ao Pe. Paulo por aceitar o nosso convite. Ele já é conhecido meu desde há algum tempo e estivemos juntos já em outros eventos. Graças aos professores Olavo de Carvalho e José Monir Nasser, que contribuíram para meu crescimento intelectual, e graças ao Pe. Paulo, que contribuiu com meu crescimento espiritual, é que estou hoje com esse projeto do blog Como Educar Seus Filhos, tentando auxiliar os pais na educação dos filhos.

PE. PAULO: Sou eu quem agradece as palavras gentis, Carlos.

PROF. CARLOS: Padre, muitos pais têm uma preocupação: são católicos, devotos e encaminham seus filhos para a escola buscando uma educação de qualidade. Muitas vezes eles ficam com a impressão de que tudo o que a criança aprende na escola é o contrário do que eles ensinam em casa. Uma dica que dou no blog diz respeito à discriminação auditiva, já que muitas pesquisas apontam que a formação da consciência fonológica é decisiva para a formação de um leitor hábil, e infelizmente, no Brasil, os métodos partem de uma perspectiva de educação global. Nessa dica falei sobre a importância da audição atenta, da escuta.

PE.  PAULO: A audição é um processo importante tanto na educação quanto no próprio cristianismo como tal. Nós sabemos que o cristianismo vem da religião judaica, uma religião que, ao contrário das demais religiões ao redor, se centralizou na audição. O centro do judaísmo é o Shema Israel, ou seja, Ouve Israel. São Paulo também diz “fides ex audito”, a fé vem da audição, do ouvir. Eu salientaria a necessidade de ouvirmos a Verdade, a Palavra de Deus, antes mesmo que a criança entre na idade da fala. Até mesmo quando bebê, até mesmo no útero da mãe. Deus criou o mundo e criou um mundo harmônico. Criou um cosmos, não um caos. Cosmos quer dizer harmonia, beleza. No campo das artes, já sabemos que a arte que mais nos afeta espiritualmente é a música; e é interessante que a música afete espiritualmente, porque ela afeta fisicamente. Ela cria uma harmonia no próprio cérebro da pessoa. Quando você expõe seu filho a músicas dissonantes, não harmônicas, com ritmos excessivos, isso afeta o corpo da criança, afeta os batimentos cardíacos, as ondas cerebrais. Seu filho se desenvolve mal. A realidade da harmonia, presente na música clássica, está presente na própria obra da Criação. Nós, contemporâneos, que somos muito relativistas, pensamos que somos nós que construímos o belo. Não, meu irmão, você não é Deus. Quem construiu o belo é o autor do universo, e você deve reconhecer o belo. O belo terá um impacto sobre você. O belo da música deve estar presente no berço, no útero. Você pode dizer que isso é uma ideologia minha, que “o padre está inventando essa coisa”. Não, há estudos que comprovam isso, não é simplesmente cultural. Nós não podemos querer educar nossos filhos e esperar que as coisas sejam boas ouvindo rock. Aí não dá.

PROF. CARLOS: Eu sou músico e comecei tocando guitarra. Até hoje eu sinto os efeitos negativos que o rock me causou, tanto na minha alma quanto na percepção de mundo e até na minha audição.

PE.  PAULO: Sim, o princípio é este: começar a ouvir sempre música harmônica. Isso não é uma atitude unicamente cristã; trata-se de algo que a inteligência humana descobriu. Você pode ver isso em Platão, nas suas investigações sobre a educação, quando afirma que a criança deve ser preservada dessas realidades dissonantes que perturbam a alma.

PROF. CARLOS: Sim, isso está em um trecho de “A República”, em que Platão trata dos modos que seriam mais adequados para as composições que gerariam homens viris e virtuosos e os modos que seriam fontes de composições que fariam os homens frouxos. Platão diz que nós temos olhos para contemplar os astros e ouvidos para ouvir as belas melodias. Padre, outra dica importante que eu dei no blog é sobre a leitura em voz alta, sobre a importância de ler em voz alta para as crianças. Muitos pais, entretanto, ficam com dúvidas sobre o que ler para elas. Existe um certo receio em ler obras clássicas, porque os pais partem do princípio de que a criança não entende aquilo que está sendo lido. É preciso entender o seguinte: existe um vocabulário receptivo e um vocabulário produtivo nas crianças, e o receptivo sempre está acima do produtivo. Por quê? Ora, é apenas com o passar dos anos que a criança adquirirá as capacidades para expressar aquilo que deseja.

PE. PAULO: Isso é algo evidente, não é preciso muita argumentação. Quando você começa a falar com seu filho, parte de um vocabulário que ele desconhece totalmente e com o tempo ele aprende a falar. As palavras desconhecidas vão sendo incorporadas. Se você quer falar apenas palavras que seu filho entenda, ele não vai crescer nunca. Não vai falar palavras novas. Ler em voz alta, contar histórias faz parte de uma tradição milenar de como educar nossos filhos. Os pais precisam entender o seguinte: filho não é máquina. Você precisa gastar tempo com seu filho. Não é preciso que seja muito tempo, mas que seja um tempo com qualidade. Contar histórias para seu filho é fundamental e desde a mais tenra idade. Qual a nossa tradição? O que os pais faziam de noite? Não havia televisão, não havia luz elétrica, então as crianças sentavam-se no sofá e os mais velhos contavam histórias. Isso é praticado pelos índios ainda hoje, mas não somente. Essa é a história dos gregos. Em “A República”, Platão se preocupa com as histórias que as mães e as amas contam para as crianças antes da idade escolar. Antes da idade escolar propriamente dita a criança precisa ouvir histórias que tenham virtudes, diz Platão. Eu digo mais, as histórias precisam ser heróicas e, sobretudo, sagradas. Qual a importância disso? Existem estudos que nos mostram que as crianças têm milhões de neurônios que ainda não foram especializados, principalmente no lobo frontal. Quando você conta histórias para seus filhos, esses neurônios vão se especializando. Se você não contar histórias para os seus filhos, esses neurônios vão se especializar em outra coisa. Qual o erro que se comete hoje em dia na educação dos filhos? Os pais procuram dar sensações para os filhos, isso está errado. Você não deve procurar dar sensações prazerosas e emocionantes. Por exemplo: você compra um videogame de última geração, com home theater, óculos 3D, controle que vibra, poltrona que vibra e não sei mais o quê. A criança está se especializando em sensações prazerosas. O que está acontecendo hoje? Pela primeira vez na história da humanidade, nós temos crianças depressivas, isso desde pequenas. Por quê? Porque você dá tudo às crianças para proporcionar prazer. Antigamente as crianças brincavam com uma lata na rua ou então pegavam gravetos e se “transformavam” em soldados. Tudo era um exercício à imaginação, as crianças exercitavam a sua fantasia. Hoje, com os videogames, não existe imaginação, não existe história, heroísmo, não há finalidade alguma num jogo banal. Você está permitindo que o cérebro de seu filho se especialize em sensações, em prazer. Isso significa que ele pode ser um drogado, um alcoólatra, um “sexo maníaco”, porque ele vai procurar sensações. Não espere que a Igreja faça o milagre de que, aos 7 anos, quando você levá-lo à catequese, algo melhore. Não! É tarde demais, aos 7 anos já foi. Pode-se consertar alguma coisa, mas, se até os 6 anos seu filho recebeu toda espécie de lixo, ele já está formatado para o lixo.

PROF. CARLOS: Perfeita colocação, padre! E eu explico. Na pré-alfabetização, para crianças com até 4 anos, há exercícios fundamentais que podem ser medidos por avaliação e que dirão como será o desempenho delas aos 8 ou 10 anos. Os pais ficam esperando o momento de colocar a mão na massa, todavia, se você esperar muito, o momento passa. Insisto muito na pré-alfabetização por conta disso. Penso que não é à toa que essas políticas governamentais, cheias de métodos ineficazes, querem ser implementadas agora na educação infantil.

PE. PAULO: Sem dúvida, querem tirar as crianças das mães o mais cedo possível. Na Suécia as crianças são tiradas dos pais no primeiro ano; no Brasil foi aprovada uma lei que obriga a escolarização a partir dos 4 anos. Isso é um absurdo. Vocês, pai e mãe, têm de entender o seguinte: vocês precisam educar os seus filhos religiosamente. E como fazer isso? Simples: story telling, ou seja, contar histórias. Você precisa contar histórias que tenham sentido, principalmente histórias sagradas. Conte a história da criação do mundo, de Noé, de Abraão, de Sansão e Dalila, Davi e Golias, conte histórias para seu filho! Conte histórias do Novo Testamento, conte como nasceu Jesus, como ele expulsava os demônios, como andava sobre as águas, como ele morreu na cruz, conte as histórias de São Paulo, como ele foi um grande herói. Contando histórias clássicas, não somente bíblicas, histórias épicas, tudo isso fará muito bem.

PROF. CARLOS: Gostaria que o senhor desse uma lista, padre. Já vi o senhor falar muito bem de “O Senhor dos Anéis”, por exemplo.

PE.  PAULO: Sim, “O Senhor dos Anéis” talvez seja para crianças maiores, mas “As Crônicas de Nárnia”, de C. S. Lewis, são perfeitas, pois trabalham muito com a fantasia para a criança. O que há de interessante para a criança na história? A história tem propósito, os personagens devem fazer escolhas, existem dramas, não há só histórias perfeitas. Há poucos dias estava lendo um livro, até é católico o autor, coitado, mas ele não entende nada de pedagogia. Ele escreveu um livro com uma história perfeita, em um mundo perfeito, onde não há egoísmo, uma espécie de paraíso utópico-marxista para crianças. Não existe paraíso utópico-marxista. Você deve ler para seu filho histórias em que as pessoas devem fazer escolhas, devem usar sua liberdade, em que suas escolhas são dramáticas e possuem conseqüências.

PROF. CARLOS: Onde entra a mitologia grega, padre?

PE. PAULO: A mitologia grega, as fábulas de Esopo, tudo isso deve estar presente em grande medida. A mitologia grega tem um pouco da perversão moral pré-filosófica dos gregos, mas penso que isso pode ser corrigido na forma de narrar a história. As histórias clássicas dão à criança um propósito. A nossa alma deseja a Deus, e as histórias clássicas, dando um propósito, fazem com que a criança deseje. Por mais estranho que possa parecer, eduque seu filho contando histórias com um propósito e você o estará educando religiosamente.


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6 Comentários


  1. Olá. Encontramos – eu e meu marido – essa maravilhosa entrevista por acaso…depois de um video seu ai esse foi a sequencia. ficamos encantados por tamanha bagagem para nós de sabedoria e direcionamentos. Muito obrigada.
    PS: Amamos de verdade…sobretudo o poema final!!

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    1. Pâmela Arumaa

      Por nada, Vivian. Nós que agradecemos a confiança e o carinho com nosso trabalho.

      Conte conosco!

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  2. Entrevista perfeita!!!Padre Paulo um verdadeiro sacerdote, que fala direto para nossas almas!! professor Carlos, parabéns pelo trabalho maravilhoso!! Deus abençoe !!
    Vou dar meu testemunho!!
    Meu nome é Claire, hoje tenho 33 anos, tenho 2 irmãs de 32 anos e 1 irmão de 39.
    Meu pai quando éramos pequenas, sempre antes de dormir, contava histórias ou bíblicas ou ele inventava a partir de personagens que nós escolhíamos, lembro com carinho da alegria que eram estes momentos e como a imaginação ia longe, e hoje vejo o bem que foi isso em minha vida e de meus irmãos!! Tenho 3 filhos de 8, 6 e 1 anos, meninos, que imaginem amam brincar de Davi e Golias , história preferida deles!! Com essa aulas vou tirar mais tempo e me aplicar mais as histórias!Obrigada

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  3. Professor Carlos,

    a partir de que idade os pais devem começar a ler livros para seus filhos? E que livros vc recomenda para cada idade até 3 anos?

    Abs!

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  4. Olá professor Carlos!
    Que alegria o encontrar com tanto sucesso, sabedoria e conteúdo, parabéns .. fiquei muito orgulhosa e feliz em saber q você participou da educação do meu filho há 9 anos atrás, como professor de violão, primeiramente no Colégio Canadá e depois no Colégio Londrinense. Foi você quem mostrou o mundo do violão clássico para o Willia. Beck, e isso sempre será inesquecível para nossa família. Com certeza você contribuiu para que meu filho se tornasse esse menino, hoje um rapaz que somente nos dá alegrias. Professor Carlos, que Deus o abençoe muito, que o Espírito Santo ilumine seus passos e seu futuro. Que a paz de Jesus e o amor de Maria estejam com você! Um grande abraço com muito carinho de toda a família do William Beck Lourenço Mendes

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  5. Achei muito importante a orientação do Pe. Paulo Ricardo.
    Foi um retorno à minha infância onde meus pais me ensinaram desde
    cedo os valores cristãos, os quais fizeram grande diferança para o tempo
    atual, onde esses valores estão ficando cada vez mais escassos.
    Parabéns, professor pelo belo trabalho na educação, pois é urgente mudar
    o sistema atual relacionado à formação integral do ser humano.

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