Entrevista com Pe. Paulo Ricardo | Parte 2 de 2

Tempo de leitura: 10 minutos

Continuamos hoje com a segunda parte da entrevista com o Pe. Paulo Ricardo. Nela, ele nos fala sobre a importância da linguagem, da família e faz um apelo às mulheres e aos homens. Assista!

PROF. CARLOS: Padre, em uma das palestras que o senhor proferiu aqui em Londrina, o senhor comentou sobre o livro “A origem da linguagem”, de Eugen Rosenstock-Huessy . Li o livro e percebi que as palavras “mamãe” e “papai” são uma rebelião contra as palavras “pai” e “mãe”. O autor diz, se não me engano, que “as canções de ninar são rebeliões contra os corais; e as fofocas, rebeliões contra os tribunais”. Assisti também a um filme, “A árvore da vida”. Em uma cena o filho chama o pai de “papai” e o pai pega o filho pela cabeça, olha em seus olhos e diz: “Pai”, fazendo uma correção. Percebo que isso também acontece na literatura clássica contemporânea, que passa por uma adaptação da linguagem, colocando tudo em linguagem coloquial. Como encarar isso no aspecto religioso, quando se fala, por exemplo, no “cara lá de cima”? Como encarar essa rebeldia com a linguagem formal?

PE. PAULO: É evidente que nós, brasileiros, temos um gosto especial pela informalidade. Sem perder a nossa índole própria, é necessário dar espaço a uma educação formal pelo seguinte: não é possível que a linguagem humana tenha nascido da forma como nós educamos nossos filhos, ensinando uma linguagem coloquial, de berçário e a partir daí tenha surgido uma linguagem complexa. Rosenstock-Huessy diz claramente em seu livro que isso não é possível. Por quê? Porque só existe uma forma de explicar a origem da linguagem: a linguagem nasceu formal, nasceu correta e a partir disso ela foi se deteriorando.

PROF. CARLOS: Aliás, ele diz que a língua nasceu formal, lógica e cronologicamente falando.

PE. PAULO: Sim, essa realidade da linguagem é uma evidência, que fica provada no livro. A linguagem mostra que a teoria da evolução, da forma como nós a “engolimos”, tem algo de errado. Os homens não nasceram balbuciando, nasceram com alma e com uma linguagem elaborada. Sem entrar no debate que Rosenstock-Huessy propõe, precisamos pensar: qual a importância disso para a educação? Ora, na educação precisamos ensinar formalidades aos nossos filhos, principalmente sobre a realidade de Deus. Deus não é o “cara lá de cima”! Deus é majestoso, e não é exagero se ensinarmos a nossos filhos rituais formais. Quando vemos crianças nas igrejas que não se aquietam, sobem e descem dos bancos, correm, fazem barulho, fica evidente que elas nunca rezam em casa. Só existe um jeito de seu filho se comportar na Igreja: você deve rezar todos os dias com ele, em casa. Você deve ensiná-lo a ficar em uma postura de oração formal, a juntar as mãos, a se ajoelhar, a segurar o terço, a rezar o Pai-Nosso e a chamar a Deus de “Vós”. Ensinando a linguagem formal, gestos formais, você ensina que Deus não é “meu chapa”, Ele é infinitamente distante do ser humano. Você deve ensinar que Deus se fez homem e habitou entre nós, mas Ele deve continuar morando numa Luz inacessível, que veio nos visitar. É preciso, portanto, ensinar as orações em linguagem formal e ensinar rituais básicos. Como assim? Ora, o hábito de rezar antes das refeições, ajoelhar-se aos pés da cama para rezar antes de dormir, saber rezar as orações e memorizá-las desde cedo. Não é exagero usar a memória das crianças, porque é impressionante como ela é enorme. Nós acabamos subjugando a capacidade de nossos filhos.

PROF. CARLOS: Padre, sou prova viva disso. As crianças da escola, quando recebem poesias, decoram muito mais rápido do que eu. Eu tenho de correr atrás delas. A capacidade de memorização delas é algo absurdo, me deixa impressionado. O professor hoje, infelizmente, já passou por um processo formativo que deteriorou as suas capacidades e por isso ele subjuga as capacidades das crianças.

PE. PAULO: Claro, é preciso memorizar para educar. Por quê? Porque você pensa. O que é pensar? Por exemplo: um computador formatado, vazio, não faz nada, você precisa colocar programas dentro. Você precisa pensar com aquilo que você memorizou. Se você não memorizou nada, você vai pensar sobre o quê? O cérebro vai girar no vazio! Mais tarde, quando a criança estiver numa idade pré-catequética e catequética, há formulações básicas, como memorizar o catecismo. Há algo sábio e muito sábio no catecismo formulado em perguntas e respostas, onde a criança tem uma fórmula para decorar. Hoje critica-se muito esse método, mas isso é descabido. Existe o “Compêndio do Catecismo da Igreja Católica”. Não digo que ele todo, mas formulações básicas devem ser sim dadas às crianças para decorar. Na realidade a educação clássica tem a sua sabedoria. Nós estamos querendo reinventar a roda, e isso não dá certo. Não dá certo por quê? Por causa da nossa soberba. Nós pensamos que somos a geração mais iluminada de toda história da humanidade e que podemos desprezar milhares de anos de experiência! Ora, as pessoas foram instituindo certos comportamentos ao longo da nossa tradição, e como diz Hans-George Gadamer, “se existe uma tradição, existe uma racionalidade por trás dessa tradição”. Nenhuma comunidade humana iria manter um comportamento durante séculos se ali não houvesse alguma racionalidade. A missão que faz um pai, uma mãe reinventar a educação desde o começo é uma coisa esmagadora. Pode parecer algo muito livre, mas depois, quando você vê que as suas escolhas têm conseqüências sobre o seu filho, você será esmagado pelo peso de saber que você, irresponsavelmente, escolheu reinventar a humanidade do zero. A civilização ocidental tem muito a nos ensinar.

PROF. CARLOS: A idéia do blog é justamente ser prático, é dizer aos pais: “Faça isso! Eu já fiz e vi que funciona!”. Gostaria que o senhor finalizasse comentando um pouco o passo a passo que foi dado: educação do imaginário, rituais, memorização.

PE. PAULO: É importante ressaltar o seguinte: existe uma realidade chamada instituição. A família, a educação, foi institucionalizada ao longo dos séculos. O que é uma instituição? São pessoas que em seu comportamento vão repetindo nos séculos uma forma de comportamento que cria uma forma instituída. Existe uma certa aversão à palavra tradição. Todas as realidades que mencionamos aqui estão muito bem alicerçadas e provadas na tradição. A própria ciência moderna comprova a eficácia e a verdade do que havia na nossa tradição. O que nós quisemos fazer foi lavar a criança e jogamos a criança fora com a água do banho. Pai e mãe, existe uma instituição chamada família, que é baseada no amor. O que é o amor? Amor é uma aliança de sangue que diz: eu derramo meu sangue, mas não desisto de você. Essa realidade significa que você que é pai, você que é mãe deve derramar o sangue pelo seu filho. Como assim? O sangue da nossa vida chama-se tempo. O material com o qual a vida é feita chama-se tempo. Ou você dá tempo para os seus filhos, e tempo de qualidade, ou não vai funcionar. Essa aliança de sangue, essa instituição chamada família, precisa de uma coisa: tempo. Um conselho para as mães, sobretudo, acessem meu site https://padrepauloricardo.org/ e procurem sobre a dignidade da mulher. Vocês verão uma série de aulas sobre as mulheres. A revolução que ocorre hoje em nossa sociedade está voltada para o ataque à mulher. Deus disse: “Porei inimizade entre ti e a mulher”, por isso o demônio procura atacar à mulher diretamente, porque ele sabe que afetando a mulher ele destrói a família. Pesquisem também, pais, sobre masculinidade. Vocês verão algumas aulas para os homens. Há mais aulas para as mulheres do que para os homens. Por quê? Porque as mulheres estão no centro do furacão. É preciso que elas entendam uma coisa: faça uma escolha pelos seus filhos mesmo que sua jornada de trabalho seja menor, mesmo que você ganhe menos dinheiro, escolha estar com seus filhos, principalmente nessa fase inicial da vida. Depois você cuida da sua carreira. No início, aperte os cintos, passe necessidade se for preciso, tenha uma vida frugal, menos luxo, para que você se dedique à sua família. É preciso ter o básico, e o básico não é caro. Caro é o luxo! Ensine seus filhos a viver uma vida modesta. Depois eles crescem, vocês, enquanto pais, podem melhorar economicamente, a mulher pode ir buscar trabalho se desejar, mas faça esse sacrifício inicial. Tudo que nós falamos aqui é sobre uma instituição, a instituição da educação domiciliar, que ocorre na família. Nós temos de ser capazes de dizer: eu amo você, apesar de você. Não espere seu filho ser amável para amá-lo, ame agora e ele se tornará amável. Não espere seu esposo ou sua esposa ser amável para amá-lo, para amá-la; ame-o, ame-a agora, e eles se tornarão amáveis. De outro modo, a família será destruída, porque o demônio odeia a família e odeia a Deus, que é família. Nossas famílias, aqui na terra, são uma imagem da família que é a Trindade no Céu. Por isso o demônio, que não pode atingir Deus, ataca nossas famílias, imagens de Deus.

PROF. CARLOS: Padre, muito obrigado. Gostaria de pedir ao senhor a benção para o nosso trabalho, para o blog e para os pais que depositam tanta confiança no que fazemos.

PE. PAULO: Se Deus quiser, terá sempre nosso apoio, e estarei presente outras vezes, se houver convite. Que Deus os abençoe, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém!


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4 Comentários


  1. Carlos, boa noite!!

    Até me emocionei diante da colocação do Padre Paulo, pois é justamente isso que minha família tem vivido… Vivemos com o orçamento apertadiiiiiiiiissimo, pois parei de trabalhar após a chegada de minha filha que hoje tem três anos, e Deus nos presenteou com a chegada do meu filho com 1 ano e sete meses. Optei pelos meus filhos reconhecendo a importância de minha presença na vida deles nesta fase inicial… Me identifiquei demais com o blog, pois tenho um a rotina em casa, mais estou querendo intensificar a preparação dos meus filhos para alfabetização… Fico ansiosa esperando novos conteúdos… Não sei se tem em algum vídeo que ainda não assisti, mais gostaria de saber de bons livros para que eu possa ler para minha filha de 3 anos e para meu filho também.
    Desde já agradeço, e que Deus te abençoe profundamente!

    Att, Taíse

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  2. Maravilhoso ouvir palavras tão lindas valorizando Deus e família. Obrigada por nos brindar com essa entrevista tão esclarecedora.

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  3. Excelente essa entrevista com o Padre Paulo Ricardo! Já o acompanho em vários setores da comunicação! Um Padre inteligentíssimo e com uma sabedoria sem igual! Parabéns Professor Carlos Nadalim foi muito proveitoso e esclarecedor sob muitos aspectos para mim ! Essa entrevista foi um tesouro achado

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