Entrevista com um dos Maiores Homeschoolers do Brasil

Tempo de leitura: 48 minutos

Entrevista imperdível, com o prof. Luiz Carlos Faria da Silva! Nela, o professor Luiz expõe os motivos que o levaram a retirar os filhos dele da escola, diz como enfrentou judicialmente essa situação, menciona algumas das estratégias que adotou para educá-los em casa e responde a uma das mensagens enviadas para o blog.

PROF. CARLOS: Hoje estou na casa do professor Luiz Carlos Faria da Silva. O professor Luiz concedeu-nos uma entrevista cujo tema é Educação Domicilar. Mas, antes de começar a entrevista, vou contar um pouquinho sobre como conheci o prof. Luiz. Há aproximadamente cinco ou seis anos, o Silvio Grimaldo recebeu um email com uma matéria que foi publicada, se não me engano, num jornal aqui da cidade, em que era apresentado o acontecimento em que o professor retirou os filhos da escola. Aquilo nos despertou a atenção, porque nós na época já estávamos preocupados com questões de ordem educacional. Foi quando viemos para cá e entrevistamos o professor. Eu trouxe uma câmera bem vagabundinha e fiz um vídeo curto com o professor Luiz. A partir daquela entrevista, começamos a estreitar os laços e hoje somos amigos.

PROF. LUIZ: Mais do que amigo, sou colaborador.

PROF. CARLOS: O professor Luiz é um grande colaborador do projeto que desenvolvo na escola Mundo Balão Mágico. Logo de cara a gente já pode tranqüilizar os pais de que o professor Luiz não é uma pessoa anti-escola. Depois ele vai falar um pouco sobre isso.

Primeiro quero agradecer a você por ter aceitado o convite.

Você poderia falar um pouquinho sobre sua história? O que o levou a tirar os filhos da escola?

PROF. LUIZ: Em primeiro lugar, Carlos, fico satisfeito, lisonjeado até, de ter esta oportunidade de conversar e continuar a colaboração com você e poder compartilhar os resultados, os desafios, as dificuldades dessa experiência prática que viemos fazendo; e compartilhar também os resultados dos estudos que eu faço, porque, afinal de contas, além de ser casado com a Daiane e ser pai do Lucas e da Júlia, sou professor na Universidade Estadual de Maringá no Departamento de Fundamentos da Educação desde 1995 e tenho já uma experiência em formação superior, já trabalhei com formação de nível médio, com formação de crianças e tenho uma trajetória de formação na área de Educação. Fiz Mestrado na PUC-SP e depois Doutorado na Unicamp.

De forma que estou aqui na dupla condição de pai e educador – e ainda na condição de seu amigo e de quem colabora com você e conhece sua experiência, seu empenho e seu ânimo de transformar em ação pedagógica cotidiana com as crianças aquilo que a gente aprende teoricamente, aquilo que a ciência nos proporciona. Estou muito à vontade, faço isso com muita alegria e estou aqui à disposição para conversar.

PROF. CARLOS: Luiz, queria que você começasse tocando naquele ponto que já falei: o que o levou a tirar as crianças da escola?

PROF. LUIZ: Por intuição – você sabe, pois é um estudioso de filosofia, que a intuição é uma forma de conhecimento também -, minha esposa e eu tínhamos feito um compromisso de não levar as crianças à escola antes dos 7 anos de idade.

PROF. CARLOS: Naquele período ainda não existia a obrigatoriedade de matricular as crianças com 4 anos.

PROF. LUIZ: Exatamente. A obrigatoriedade estava estabelecida a partir dos 7 anos. Então nós pensávamos: vamos educar as crianças, acho que vai ser importante a gente conviver com as crianças, intermediar o começo da relação delas com os parentes, com a avó, com o avô, com os primos, tios, com os vizinhos, com as pessoas da igreja, com as pessoas do clube, etc. – pensávamos que éramos os responsáveis diretos por fazer essa intermediação. Sabíamos que nesse período, até os 7 anos, eles iriam iniciar o contato com o mundo, aprender a falar, aprender a andar. E imaginávamos que teríamos que introduzi-los em conhecimentos que fossem preparatórios para o enfrentamento da vida escolar.

Até que chegou o momento de eles aprenderem a ler – acho que depois teremos mais oportunidades de tratar dessa questão do desafio que é o aprendizado da leitura.

PROF. CARLOS: Inclusive nos primeiros vídeos, como você viu, estou dando dicas práticas para o momento da pré-alfabetização. Teremos um momento oportuno para falar sobre isso também.

PROF. LUIZ: Fomos educando as crianças, cuidando das crianças, foram passando as fases e aguardávamos o momento em que as matricularíamos na escola. Mas, antes disso, nós enfrentamos o desafio de ensinar as crianças a ler. E foi aí que eu comecei a me colocar em questão e a colocar em questão meu próprio trabalho profissional. Eu já vinha com uma certa preocupação em relação a isso, porque um professor universitário ou professor do Ensino Médio ocupam um posto de observação privilegiado do desempenho leitor e de compreensão de textos dos adolescentes e dos jovens, e eu estava vendo, tanto na universidade quanto no Ensino Médio, que o desempenho é descendente.

PROF. CARLOS: Eu já fiz um comentário a respeito desse assunto, porque na universidade eu sentia o mesmo drama, só que o problema é que eu sabia que os alunos não conseguiam compreender textos, mas não sabia como corrigir aquilo.

PROF. LUIZ: Eu tive uma primeira preocupação porque observava o enquadramento que nós dávamos ao aprendizado da leitura e da escrita e, como a gente conhece a árvore pelos frutos, o que eu via passar diante de mim era um número cada vez maior de alunos com dificuldade para ler e escrever.

PROF. CARLOS: Isso na universidade.

PROF. LUIZ: Na universidade. Então eu começava a desconfiar do que estava acontecendo. Quando chegou a hora de ensinar as crianças a ler e escrever, eu fiquei atento, precavido, pois, como nos lembra o Evangelho, nenhum pai a quem uma criança pede um peixe lhe dá uma serpente, ou a quem a criança pede um ovo lhe dá uma pedra. Os pais não fazem isso! Os pais, em geral, amam os filhos e querem o melhor para eles. A gente sonha com nossos filhos, que serão isso e aquilo… Para nós, eles serão os melhores sempre!

Pois bem, quando eu estava preocupado com essa questão do mal desempenho em leitura, fiquei precavido, porque, embora tivesse trabalhado com educação, nunca havia ensinado uma criança a ler. E o primeiro problema foi exatamente esse. Então nós fomos procurar informação sobre como ensinar a ler e escrever de maneira eficaz.

PROF. CARLOS: E você já era doutor em Educação?

PROF. LUIZ: Eu já era doutor em Educação, mas não sabia fazê-lo.

PROF. CARLOS: Você era doutor em Educação e não sabia e sua esposa…

PROF. LUIZ: …tinha terminado o curso de Pedagogia e também não sabia.

PROF. CARLOS: Que isso fique registrado, porque eu falei no primeiro vídeo que tudo o que eu estou transmitindo para as pessoas eu não aprendi na universidade e às vezes o pessoal acha que eu estou exagerando, mas não é verdade.

PROF. LUIZ: Não está não. Esse foi um momento crucial preparatório para uma decisão que depois tomamos: tirar as crianças da escola. O meu primeiro choque foi quando, para fazer um percurso adequado e eficaz de ensino de leitura, de entrada das crianças no mundo da leitura, para não acontecer com eles o que acontece com meus alunos universitários e acontecia com meus alunos do Ensino Médio, fomos estudar. E levamos um choque!

PROF. CARLOS: Por que?

PROF. LUIZ: Porque o encaminhamento de um ensino eficaz de leitura é exatamente o oposto do que a universidade brasileira ensina.

PROF. CARLOS: Você está de brincadeira!

PROF. LUIZ: Não, é verdade!

PROF. CARLOS: Eu sei que é verdade.

PROF. LUIZ: E isso foi assinalado muito claramente num documento que a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados publicou em 2003 com uma segunda edição em 2007. Aqui estiveram sete cientistas (quatro da Europa e dos Estados Unidos e três brasileiros) e eles analisaram a questão do ensino da leitura e disseram claramente que o Brasil está de costas ou afastado de tudo o que a ciência produziu nos últimos trinta anos em relação a ensino de leitura e alfabetização. Eu acabei fazendo contato e começando um diálogo muito produtivo e proveitoso com esses cientistas e nós resolvemos o problema do ensino da leitura – poderemos em outra oportunidade voltar a isso e dar detalhes específicos de prática e de implantação desse modelo.

O fato concreto é que as crianças aprenderam a ler muito tranqüilamente. Liam tanto em quantidade quanto em qualidade. Aliás, a gente já lia para elas bem antes de elas aprenderem a ler. Desde cedo nós íamos para o quarto, sentávamos, líamos para elas antes de dormir, em todo o lugar nós líamos para elas.

PROF. CARLOS: Mais ou menos no mesmo padrão daquela dica que dei no vídeo número 3.

PROF. LUIZ: Mais ou menos naquele padrão da dica que você fez. O fato concreto é que chegou o momento de eles irem para a escola. Agora, Carlos, uma coisa muito curiosa: eu sempre achei muito estranho o drama das mães e das crianças no primeiro dia de aula. Você precisava ver como foi o primeiro dia de aula das crianças!

PROF. CARLOS: Conte um pouquinho!

PROF. LUIZ: Parecia que eles estavam mudando de um quarto para a sala aqui em casa. Quando o Lucas foi para a escola, foi uma festa, foi um dia importantíssimo para a Daiane, para mim, para ele e até para a Júlia – porque, no primeiro ano, a Júlia não ia à escola, só ia conosco levar o Lucas.

PROF. CARLOS: Na minha escola, as mães levam a máquina fotográfica, registram…

PROF. LUIZ: Nós íamos com as crianças comprar o material, a Daiane fez o caderno, encapou… Quando estávamos pesquisando escolas, as crianças iam junto conosco. E elas curtiam, as pessoas nos acolhiam… Portanto, a idéia da escola não era ruim, pelo contrário. No primeiro dia de aula, o Lucas ficou super satisfeito, foi tranqüilo. E eu fiz questão, nos primeiros dias de aula, de dizer claramente a ele: essa aqui é a irmã, ela é a diretora da escola. Tudo o que ela mandar você fazer, faça. Tem que obedecer à professora e à diretora da escola. Depois eu explicava para ele: eu tenho confiança nela, o que ela mandar você fazer, faça; no dia em que a gente não tiver mais confiança, a gente lhe tira. Mas enquanto você estiver aqui é porque o papai confia 100% nela.

Enfim, eles entraram na escola. Acontece que, passados o primeiro e o segundo anos, começaram os conflitos. Começamos a perceber rapidamente duas coisas – que foram depois os motivos pelos quais eu acabei, junto com a Daiane, tomando a decisão de tirar as crianças da escola. Primeiro, o nível de instrução é baixo. Um motivo crucial para a decisão de retirada das crianças da escola é que o nível de instrução é muito baixo, mesmo nas escolas privadas – pelo menos aquelas que estão aqui ao nosso alcance. Eu fiquei com a impressão de que, quando você escolhe entre uma escola e outra – mesmo uma escola privada -, o que você escolhe é a faixa de gastos que vai ter e o nível sócio-econômico das crianças que serão os coleguinhas do seu filho. Porque, em termos de instrução, é mais ou menos a mesma coisa, as escolas variam pouco.

Como sabemos que o nível de instrução é muito baixo? Sabemos disso através dos resultados. Os sistemas de avaliação mostram que mesmo as escolas privadas têm um desempenho fraco. É claro que as escolas privadas têm um desempenho melhor que o das escolas públicas, mas ter um desempenho melhor que o das escolas públicas brasileiras não é grande coisa não.

Outra coisa que começamos a perceber muito rapidamente é que é muito difícil enfrentar o arrastão de imoralidade ao qual as crianças ficam expostas quando vão conviver na escola. É muito difícil. Aqui, por exemplo, criança não vê novela. Nem nós. Criança não pode ter acesso a certos conteúdos. Aqui em casa nunca passou pela nossa cabeça gastar um segundo sequer com essa imoralidade das novelas ou do tal do Big Brother.

Mas acontece, Carlos, que quando você leva a criança para a escola todas as outras crianças assistem. E o palavreado e o comportamento das outras crianças é diferente. Eu dizia ao Lucas: “Meu filho, obedeça à professora.” A professora, quando ia sair da sala, dizia aos alunos para não correrem. Então ele não corria. Só que todo mundo passava na frente e ele acabava chegando por último de volt à sala. E ele ficava chateado porque chegava por último, tinha pouco tempo para comer e acabava ficando preocupado porque chegava atrasado e vez ou outra até recebia uma reprimenda. A criança não entende como ela, que foi a única a obedecer à ordem, é repreendida.

Esses foram os dois motivos. Por um lado, o nível de instrução baixo, até porque quando eles foram para a escola já sabiam ler e escrever, estavam alfabetizados. E você sabe que o processo de aprendizado da leitura é longo.

PROF. CARLOS: Longo e tem que ser explícito.

PROF. LUIZ: Tem que ser explícito. A entrada no mundo da leitura é curta. Você pode alfabetizar uma criança de 6 anos tranqüilamente, mas é preciso dar continuidade.

PROF. CARLOS: Corre na internet uma entrevista que você concedeu e, não só nessa entrevista, mas também em outras, você comenta aquela história, que eu acho super engraçada, em que um de seus filhos – não sei se foi o Lucas ou a Júlia – aprendeu a fábula da formiga e da cigarra e aí aconteceu uma coisa um tanto quanto esquisita.

PROF. LUIZ: Esse período de primeiro e segundo anos é um período em que a ação instrucional deve estar dirigida a criar as possibilidades para o aluno desenvolver e treinar a habilidade de dominar os aspectos mecânicos da leitura e da escrita. Eles são duros! Hoje a gente escreve, mas porque já dominou a escrita. É a mesma coisa que andar de bicicleta. Hoje a gente sobe na bicicleta e vai embora, olha para o lado, conversa e tal; mas quando a gente estava aprendendo foi difícil, tinha que colocar rodinha, o pai tinha que ficar segurando, quando soltava a gente caía…

PROF. CARLOS: Não era um aprendizado global, tudo de uma vez…

PROF. LUIZ: Não, de jeito nenhum. É seqüenciado. Então isso me preocupava. O Lucas estava com 7 anos no 1o ano. Quando ele passou para o 2o ano, a Júlia entrou no 1o.

No caso do Lucas, dou um exemplo: o aprendizado da fábula da cigarra e da formiga. Ora, todo mundo a conhece. A fábula tem uma direção: ensinar o valor do trabalho e da responsabilidade. E tem que ser um texto curto, com pouca carga cognitiva de trabalho sintático e semântico e ter uma lição associada. A lição é a seguinte: é preciso pensar que a gente não pode flautear a vida inteira, mas é preciso ser previdente, trabalhar. É claro que isso não precisa ser exagerado, mas pode dar já uma direção para a criança. Aí o Lucas chega em casa com uma releitura da fábula, dizendo que ser cigarra também era legal. Justo no momento em que a criança precisa ser colocada na direção de ter um pouco de responsabilidade, eles vêm com essa história e atrapalham tudo!

PROF. CARLOS: O Monteiro Lobato, no livro “Fábulas”, apresenta a fábula como ela é e, num segundo momento, reescreve a fábula colocando a cigarra na posição dos artistas. Mas ele faz isso com todo o cuidado. Do jeito que você está contanto parece que a coisa foi…

PROF. LUIZ: Foi direto. Se você faz com esse cuidado, tudo bem. Mas nesse momento em que a criança tem 8 anos…

Depois teve o caso da Júlia. No final do 1o ano, ela tinha acabado de aprender a ler, estava alfabetizada…

PROF. CARLOS: Ela aprendeu a ler em casa?

PROF. LUIZ: Em casa. Quando chegou à escola já sabia ler. Certa vez ela chegou com um exercício da escola em que havia um texto escrito em espiral. A criança tinha que fazer assim para ler. Dá sobrecarga cognitiva.

Existe um trabalho muito importante feito por um grupo de pesquisadores da Austrália, da Holanda e dos Estados Unidos em que eles têm um acúmulo de achados em experimentos científicos muito bem controlados e mostram muito bem a teoria da sobrecarga cognitiva. No momento em que a criança está precisando dominar cada vez mais fortemente as construções mecânico-espaciais da escrita e da leitura (da esquerda para a direita, de cima para baixo, uma folha depois da outra), fazem a criança rodar a folha para ler o texto. Aí não dá, né?

PROF. CARLOS: Ou quando a criança nem compreende ainda o que lê, porque ainda não consegue decodificar, não conhece o princípio alfabético nem tem velocidade, e fazem-lhe perguntas do arco da velha, como “e se você estivesse na situação da personagem x, o que você faria?”

PROF. LUIZ: Aí acabou tudo, a criança bloqueia. Era exatamente isso o que acontecia. E isso nos levou à decisão de tirar as crianças da escola. Do ponto de vista instrucional, aquilo estava criando dificuldade para as crianças e conflitando com o que nós fazíamos em casa.

E, do ponto de vista moral, a gente não tinha o menor controle. Não tinha o controle do palavreado, dos gestos, das ações, do padrão de relacionamento com os outros. E hoje tem um problema muito grave: há anos atrás a escola não tinha medo e não delegava a responsabilidade de mediar as relações entre as crianças. Hoje todo mundo se preocupa com o autoritarismo dos pais, mas ninguém presta atenção ao autoritarismo do grupo. O grupo de iguais é cruel, inclemente. Se você deixa um grupo de crianças ou adolescentes sozinhos, muitas vezes eles se destroem, pois não têm dó nem piedade uns dos outros. O que a escola fazia antigamente? Brincar, gozar, ironizar, zombar uns dos outros é natural no ambiente escolar, principalmente em se tratando de adolescentes, mas a escola interferia, administrava. Quando era uma coisa grave, interferia e impedia –  e às vezes até castigava na medida da gravidade. Hoje não, os pais deixam as crianças inventarem por si mesmas as regras da convivência. Aí vira uma tragédia. Isso é deformativo.

Então foram estes os dois motivos: má instrução, conflito com o que ensinávamos em casa e o problema da formação educacional.

PROF. CARLOS: Aproveitando esse gancho, recebi várias perguntas no blog e inclusive a Camila Abadie – que tem um blog e um programa na rádio Vox chamados Encontrando Alegria – fez também esta pergunta, que é mais ou menos a pergunta de vários pais: você tirou os filhos da escola e já mostrou os motivos que o levaram a tomar essa decisão, mas legalmente como está sua situação hoje?

PROF. LUIZ: As crianças já estavam matriculadas e, quando nós as retiramos da escola, a escola tem uma determinação legal de entrar em contato com os pais caso as crianças faltem por certo tempo. E, se elas faltarem por muito tempo, têm de comunicar o Conselho Tutelar. Então a seqüência foi a seguinte: a escola entrou em contato comigo, eu reafirmei que as crianças não iriam mais. Passado aquele período, a escola comunicou o Conselho Tutelar. O Conselho Tutelar me chamou e me ouviu – fomos eu e a Daiane. Nós reafirmamos nossa posição diante do Conselho Tutelar de que não iríamos voltar com as crianças para a escola. O Conselho Tutelar ameaçou comunicar o Ministério Público. Eu disse: “Perfeitamente, pode comunicar.” O caso foi então ao Ministério Público, que nos chamou. Dialogamos com o Ministério Público. Um detalhe: quando o Ministério Público veio dialogar comigo e com a Daiane, ele não veio simplesmente dialogar com um pai e uma mãe, mas com um professor da universidade num curso de formação de educadores com doutorado em Educação e com uma pedagoga formada. Acho que essa condição me facilitou, porque nós tínhamos condições muito favoráveis para explicar tanto ao Ministério Público quanto, depois, ao juiz os motivos da nossa ação. O Ministério Público, assim como o Conselho Tutelar, inicialmente foi contra, mas nós tivemos condição de dialogar com o Ministério Público e depois com um juiz. E o Ministério Público, nesse processo de diálogo, acabou formando um convencimento de que aquela atitude nossa não prejudicava as crianças, de forma que recomendou ao juiz que ele autorizasse a educação domiciliar supervisionada pelo Estado de ano em ano. Assim tem sido até hoje.

PROF. CARLOS: As crianças começaram a realizar avaliações. Onde e como isso acontecia?

PROF. LUIZ: Antes de nós retirarmos as crianças da escola – que era privada -, nesse processo de diálogo com o Ministério Público, chegamos até um juiz da Vara de Infância e nosso diálogo tanto com o Ministério Público quanto com o juiz não foi um diálogo difícil, acho que por conta daquilo que já assinalamos, que eu estava falando com conhecimento de causa. Isso não tem acontecido com pais que não têm essa formação profissional. Estive numa audiência pública em Brasília na semana passada e lá abordou-se o assunto: muitos pais estão se sentindo assediados moralmente pelas autoridades judiciárias, que se prevalecem de serem autoridades judiciárias para fazer pressão sobre os pais quando eles decidem educar os filhos em casa e não têm a formação profissional adequada para isso, embora tenham legitimidade jurídica, filosófica e a responsabilidade moral por conduzir a educação dos filhos.

Nesse processo de diálogo com o Ministério Público e com o juiz, o juiz me sugeriu que eu fizesse um esforço e colocasse as crianças em outra escola, que tentasse mais uma vez. Nós tivemos uma idéia: vamos transferir as crianças para uma escola pública perto da nossa casa, porque antes eles estavam numa escola particular um pouco longe da minha casa e eu tinha que pegar carro para levar e ainda pagar mensalidade. Então nós os matriculamos.

PROF. CARLOS: E aí?

PROF. LUIZ: Ah, Carlos. Foram 15 dias. Não é possível! As crianças ficavam apavoradas. Era uma balbúrdia! Em duas semanas o Lucas testemunhou criança chutando a professora, subindo em cima da mesa, não deixando a professora falar… E os meus filhos, assim como os filhos da maioria das pessoas que têm essa preocupação, são crianças que não fazem isso, eles ficam chocados com esse tipo de coisa.

Depois de 15 dias, portanto, tirei-os também da escola pública. E procurei a escola pública e disse: “Façamos uma coisa. Vocês me dêem o programa, eu ensino em casa, vocês marquem as avaliações e eu virei aqui.” A escola pública disse: “Não!” Fomos ao núcleo. Fizemos a mesma proposta, mas o núcleo disse “não”. Mandamos a mesma proposta para a Secretaria de Educação em Curitiba. A secretaria também disse não. Então nós assumimos a posição de tomar as crianças e instruir em casa. Foi aí que o diálogo continuou com o Ministério Público, que acabou formando o convencimento e sugeriu ao juiz que nos desse a autorização.

PROF. CARLOS: Quando dizem “não”, esse “não” tem um respaldo também na questão da socialização. Parece-me que os educadores em geral sempre justificam que a escola é um ambiente de real socialização, onde a socialização ocorre de forma efetiva. Você tem algum dado científico atual para apresentar a respeito dessa questão?

PROF. LUIZ: Olha, Carlos, se você estiver disposto, acho que a gente tem que fazer algum trabalho ou produzir algum material para abordar essa questão.

PROF. CARLOS: Vamos fazer.

PROF. LUIZ: Eu tenho duas coisas a falar sobre isso. A primeira coisa é o seguinte: é um mito que crianças educadas em casa possam apresentar problemas de socialização. O último dado sobre os Estados Unidos, publicado num documento que o organismo de estatística educacional dos Estados Unidos publica todos os anos, The Condition of Education, se não me engano, é de 2007, e apresenta que havia lá mais de 1 milhão e meio de crianças entre 4 e 17 anos estudando sob a modalidade de educação domiciliar. Não existe qualquer evidência nem nos Estados Unidos nem nos demais países onde se pratica a educação domiciliar – parece que são 64 países no mundo – de uma epidemia de sociopatia entre as crianças educadas sob a forma de educação domiciliar. As evidências são essas.

Em segundo lugar, a socialização não é exclusiva da escola. Onde é que se socializava então quando não existia escola? O processo de socialização começa em casa e vai se ampliando, passa para a vizinhança, para a família, para a igreja, para o clube. E esse processo continua até que a pessoa ganhe a capacidade de lidar com ele de tal maneira que possa ser funcional na sociedade.

Hoje a situação é esta: nós obtivemos uma autorização da Justiça e, de ano em ano ou de ano e meio em ano e meio, eles vão até lá e são submetidos a uma prova. É claro que, à medida que o tempo vai passando, há certos conflitos na hora de fazer a prova. O processo funciona assim: o juiz manda uma ordem para o Núcleo Regional de Educação, o Núcleo designa uma escola, a escola designa uma equipe pedagógica e entra em contato conosco. Então vamos até lá e a equipe pedagógica desenha a avaliação, marca uma data conosco e levamos as crianças. A equipe pedagógica então aplica a prova, corrige-a, faz um relatório, manda-o para o Núcleo e o Núcleo manda-o para o juiz.

É claro que existem alguns conflitos durante esse processo, as coisas não são tão fáceis assim. Por exemplo, a escola desenha a avaliação de acordo com seu próprio currículo – que não é o currículo que a gente segue em casa -, o que às vezes dá origem a conflitos. Então é preciso negociar com a equipe pedagógica, lembrando-lhe que é um princípio pedagógico universal não cobrar em avaliação aquilo que não foi ensinado e dizendo a ela o que ensinamos.

PROF. CARLOS: E há alguma negociação com relação aos conteúdos exigidos?

PROF. LUIZ: Em geral não. Mas nós mudamos de equipe pedagógica. Começamos com uma escola em que a equipe pedagógica era pouco flexível e ela acabou mudando. Esta outra equipe pedagógica é bem mais flexível e ouve mais os pais.

Gostaria de ressaltar que, lá no começo, é preciso haver uma decisão: o pai, percebendo que a escola não vai bem nem do ponto de vista instrucional nem do ponto de vista da formação e da moral, tem que decidir se quer ou não tomar as rédeas da instrução e da formação dos seus filhos. Ele tem que querer! Se a mãe e o pai estão firmes nessa decisão – tem que ser os dois, não pode um querer e o outro ficar em dúvida -, as dificuldades podem ser enfrentadas. E para enfrentar as dificuldade é preciso, por um lado, ser firme e ter clareza, procurando ajuda para defender o seu ponto de vista perante o Ministério Público, o juiz e o Conselho Tutelar; e, por outro lado, no caso de ter que conversar com as escolas, é preciso ser firme também para justificar pedagogicamente os motivos pelos quais você fez isso.

PROF. CARLOS: Luiz, agora você poderia dar uma dica para os pais. Na prática, como é que funciona? Acho um ponto importante a questão da rotina. Sabemos que, querendo ou não, na escola há uma rotina. Por mais que existam escolas com problemas de instrução, etc., há um horário, há uma divisão das disciplinas. E em casa, como você lida com essa questão?

PROF. LUIZ: Isso é muito importante. Todos nós precisamos de rotina, mas as crianças mais ainda. Mas isso foi facilitado para nós porque, antes de elas irem para a escola, a Daiane já tinha organizado e dado o ritmo da casa. Temos duas coisas que podem nos ajudar a marcar essa rotina antes de as crianças entrarem na vida escolar: o conjunto das atividades de alimentação e de repouso. Temos de nos alimentar mais de uma vez por dia. Normalmente as crianças se alimentam de manhã cedo, às vezes há até algum tipo de alimentação entre o desjejum e o almoço, as mamadeiras, o horário de descanso depois do almoço, o lanche da tarde, a ida lá embaixo para tomar sol – pois as crianças precisam tomar sol todos os dias para que a vitamina D possa ser ativada para fixar o cálcio.

Quanto ao repouso noturno, é importantíssimo que a criança vá dormir todas as noites no mesmo horário e acorde mais ou menos no mesmo horário. E é importantíssimo que a criança ouça a voz do pai e da mãe antes de dormir e ao acordar – isso cria segurança e previsibilidade na criança. Ao acordar de manhã, ela saberá que não passará muito tempo sem ouvir a voz do pai.

PROF. CARLOS: Você está falando essas coisas e eu estou me recordado daquele trecho do “Pequeno Príncipe” em que a raposa conversa com o Pequeno Príncipe e eles começam a combinar: “amanhã, você vai ter que voltar no horário x, porque então eu poderei me preparar e ouvirei os sons dos seus passos…”, você se lembra dessa história?

PROF. LUIZ: Lembro.

PROF. CARLOS: E ele fala assim: “E os homens abandonaram os rituais, eles querem tudo pronto.” Precisamos resgatar isso!

PROF. LUIZ: Tem que ter esse ritual da hora do almoço, da hora da comida e da hora do sono, da hora do levantar. A Daiane encaminhou muito bem isso. Depois poderemos falar mais sobre isso.

Nós temos uma rotina. Depois poderemos falar sobre a rotina de estudos. Mas os pais ficam muito preocupados porque não sabem Física, Ciências, Geografia, etc. Vamos combinar uma coisa? Quando as crianças estão pequenas, até os 10 anos, elas têm que aprender a ler, escrever e contar. Aprender Geografia é fácil, é simples. Compre um atlas, um mapa, sente-se com a criança e comece primeiro mostrando-lhe o mundo. Às vezes a gente ia para o escritório com o globo e, no escuro, acendíamos uma lanterna e iluminávamos o globo. Depois girávamos o globo e dizíamos: “Olhe a lanterna. Ela é como o sol. Quando ela ilumina este lado, do outro lado fica escuro. Então é dia aqui e é noite lá. Quando é noite  no Brasil? Veja lá!” Pronto, acabou! As crianças aprendem o hemisfério norte, o hemisfério sul, os continentes, quantos são, qual país é muito grande, qual país é muito pequeno, qual fica longe…

Outra coisa: elas adoram decorar.

PROF. CARLOS: Não é tortura! Elas adoram.

PROF. LUIZ: Não! Elas adoram fazer isso. Nós tínhamos um atlas que tinha bandeiras e ficávamos olhando as bandeiras dos países. Aí dizíamos: essa é do Brasil, essa é do Congo, essa é do Zimbabwe, essa é da França, essa é da Austrália, essa é da Grã-Bretanha… De tal maneira que o Lucas logo viu a diferença entre a bandeira do Reino Unido e a bandeira da Inglaterra… Era muito engraçado, pois há um país da África chamado Burundi e ele gostava de responder quando nós lhe mostrávamos a bandeira desse país.

Ensinar Geografia não é difícil. Para as pessoas que têm formação, que são cultas, não é difícil.

PROF. CARLOS: Mas isso não é uma educação bancária, professor Luiz?

PROF. LUIZ: Mas é assim que tem que ser. É assim que funciona, não se aprende de outra maneira.

PROF. CARLOS: É uma boa poupança, você vai depositando ali e depois..

PROF. LUIZ: Uma educação familiar que tenha que assumir também o trabalho instrucional enfrentará alguns desafios, mas, se você estruturar as atividades, se a casa estiver organizada, se se criar um ritual em torno dessas coisas marcantes como a alimentação, o repouso, a conversação em casa, o tempo livre, a leitura em voz alta, não há problema nenhum. Posteriormente poderemos voltar a esse tema e trabalhar uma técnica de seqüenciamento dessas coisas.

Mas é preciso chamar atenção para um fato: é mais fácil falar, dar entrevista e escrever artigo sobre a educação domiciliar do que a por em prática.

PROF. CARLOS: Dizer é fácil. Fazer é que são elas.

PROF. LUIZ: Entretanto, não é um bicho de sete cabeças. Com auxílio, você pode fazê-lo. O curioso é que aqui no Brasil ainda não há um repertório de materiais, de assessoria e consultoria sobre como organizar e conduzir isso.

PROF. CARLOS: Na verdade, o blog Como Educar seus Filhos está tentando fazer isso.

PROF. LUIZ: Exatamente. Pela primeira vez no Brasil alguém tomou a iniciativa de orientar os pais, dar dicas, etc. Espero que você possa, de agora em diante, com esse trabalho que iniciou, prover os pais com recursos, materiais, técnicas e procedimentos que ajudem os pais a fazerem isso.

Antes de encerrarmos o assunto, gostaria de chamar atenção para o fato de que, embora seja preciso de uma certa técnica, não é um bicho de sete cabeças fazer educação domiciliar. Além disso, é possível fazê-lo de várias maneiras. Por exemplo, uma das maneiras – que é rara – é quando o pai e a mãe assumem todas as tarefas instrucionais. Eles dão as aulas, conduzem as crianças e ensinam todos os conteúdos. Mas você não precisa necessariamente fazer isso. Nem todos os pais têm tempo, recursos e conhecimento necessário para fazer tudo, de forma que pode haver outras maneiras.

Aqui em casa nós optamos por um procedimento em que parte fazíamos em casa e parte fora de casa. Por exemplo, as crianças foram estudar matemática no Kumon. O inglês eles iam aprender fora de casa também. Além disso, nós trazíamos uma professora em casa para praticar a conversação com eles. E foi muito proveitoso. Hoje eles têm fluência, falam… A gente saía para levar a Júlia ao balé ou para ir à natação. O Lucas saía para fazer uma atividade física – por exemplo, durante quase dois anos ele praticou taekwondo.

Então há uma primeira modalidade – que é rara – em que os pais assumem toda a tarefa, tanto instrucional quanto educacional. Há uma outra modalidade, em que você faz uma parte em casa – aquilo que você sente mais seguro para fazer. Todo mundo que tem formação superior e um nível cultural elevado pode conduzir as aulas de Português e Matemática básicas.

PROF. CARLOS: Isso é importante, porque há um mito no Brasil: acredita-se que é preciso ser especialista para ministrar esta ou aquela disciplina. Já conheci várias pessoas que têm um conhecimento prático, técnico em áreas como Língua Portuguesa e Matemática e colhem resultados superiores a de especialistas. Acho que qualquer um é capaz de ensinar essas disciplinas se tiver um interesse real.

PROF. LUIZ: Se a gente tem o compromisso de educar e instruir as crianças, tem esse nível cultural de domínio da língua, de domínio mínimo da aritmética, aquilo de que a gente precisa é única e exclusivamente um apoio para ir praticando certos roteiros, procedimentos e exercícios. Uma vez que você tem esse apoio, que existe uma seqüência de exercícios organizados, poderá obter bons resultados.

Eu estava falando das modalidades: há uma primeira modalidade em que os pais podem assumir tudo e uma outra modalidade em que se pode fazer uma parte em casa e outra fora, porque são cursos específicos. No caso do Kumon, por exemplo, as crianças iam lá e trabalhavam uma hora e meia duas vezes por semana – ou seja, três horas por semana -, mas isso dava um rendimento muito bom, porque elas iam para lá fazer uma atividade orientada por uma professora que tinha uma técnica, uma seqüência, um material.

PROF. CARLOS: Sim, eu conheço o método e, pelo pouco que eu li, vai ao encontro de tudo aquilo que os cientistas apresentam como as técnicas mais eficazes no ensino de Matemática. Eles passam pelo passo-a-passo da apresentação de figuras, depois transformação dessas figuras em formas geométricas e, por fim, apresentação do símbolo matemático, o número indo-arábico.

PROF. LUIZ: E vai sempre do simples para o complexo, pouco a pouco, fazendo revisões, reforçando.

PROF. CARLOS: Há uma quantidade expressiva de exercícios, eles não saem logo duma operação e vão para outra.

PROF. LUIZ: E evitam aquela situação muito comum na escola brasileira de ficar sempre estudando a mesma coisa em espiral. Isso é ineficaz.

E há ainda uma outra modalidade que infelizmente não consegui praticar. Eu gostaria de praticá-la e sei que há grupos no Brasil que fazem isso. Você pode localizar três, quatro, às vezes cinco famílias que compartilhem dessa decisão de educar as crianças. Eu conheci um grupo que juntou três, quatro famílias, alugou uma casa, selecionou um roteiro de estudos, escolheu um material, criou um horário e as crianças iam juntas para lá e estudavam. Havia até gente na família que era professor de Matemática ou de Geografia.

PROF. CARLOS: Luiz, os pais nos enviam a seguinte questão: vou educar meu filho em casa, vou procurar aplicar os métodos mais eficazes, mas ao mesmo tempo vou mantê-lo na escola. Pode ocorrer um cruzamento metodológico? Essa criança conseguirá transitar do método aplicado em casa para aquele da escola e vice-versa, ou isso poderá gerar uma confusão?

PROF. LUIZ: Eu, com a devida prudência, não tenho exemplos nem conhecimento desses casos, mas, pelo que estudo e pelas evidências que conheço a respeito do funcionamento do cérebro, existe uma coisa nas funções executivas que envolvem várias habilidades cognitivas; uma delas é o sistema de controle atencional e outra é o que os neurocientistas chamam de flexibilidade mental. A flexibilidade mental é a capacidade de mudar o foco da atenção para assuntos diferentes, permitindo que ela vá e volte. E isso é difícil. De maneira que eu não recomendaria. Ou bem você escolhe uma escola na qual tem confiança do ponto de vista instrucional e do ponto de vista da gestão que a escola faz do processo de socialização das crianças, de aprendizado do comportamento social, dos valores, etc., como acontece na sua escola – eu estive lá, vi como funciona e sei como você procura o conhecimento científico que nos provê com achados sobre o que é eficaz para o ensino e, ao mesmo tempo, busca convertê-lo em procedimento prático pedagógico na seqüência das atividades em sala de aula ou na seqüência das atividades durante uma semana ou durante um bimestre -, ou você assume a responsabilidade de ensinar em casa numa dessas modalidades. Eu não recomendaria fazer as duas coisas, porque isso que você fala acontece sim. É difícil para a criança ficar transitando entre dois universos distintos de ordenamento das ações.

PROF. CARLOS: Mas foi bom você ter mencionado a visita que fez à escola. Seria importante você deixar claro que também não é uma pessoa anti-escola, porque muitos acreditam que, por ter tirado os filhos da escola, você detesta escola. Eu, porém, acompanho seu trabalho e sei que você já deu vários cursos de formação para professores da rede municipal. Afinal, você é anti-escola?

Segunda questão: ao visitar a minha escola, o que você sentiu a respeito dessa transposição do universo científico, dos artigos científicos e das pesquisas para o mundo da prática?

PROF. LUIZ: Conforme você falou, eu sou professor universitário e tenho um interesse imenso pelo que acontece na escola. Acho que é da minha responsabilidade trabalhar para colocar a possibilidade de ter um ensino eficaz e uma educação saudável ao alcance do maior número de pessoas possível. Portanto, em hipótese nenhuma sou anti-escola.

O problema é que nós encontramos uma situação concreta. Naquela situação concreta, aqui na cidade onde eu vivo, eu procurei as escolas, escolhi uma e percebi que era impossível. Troquei de escola, saí da rede privada e fui para a rede pública, mas continuou problemático. Então tínhamos um problema concreto para resolver. É como se houvesse uma casa pegando fogo e seu filho estivesse lá dentro: você não ficaria discutindo sobre as propriedades físicas, sobre a termologia, sobre o calor, pois seria preciso correr e tirar a criança dali.

Por isso, eu os tirei da escola. Mas em hipótese nenhuma sou anti-escola. Acho que a escola tem um papel importante. Aliás, eu matriculei-os numa escola católica porque minha expectativa era de que a escola contribuísse para reforçar a formação que nós dávamos em casa e que, ao mesmo tempo, desse uma instrução eficaz, de alta qualidade. Se você encontra uma escola com essas características, não há problema nenhum em colocar a criança na escola. No seu caso, tenho acompanhado e tenho visto…

PROF. CARLOS: Acompanhado e ajudado.

PROF. LUIZ: Faço isso com muito prazer, pois a gente está colocando um conhecimento à disposição das pessoas, que vai contribuir para que as crianças possam fazer uma trajetória mais favorável, tanto instrucional quanto de formação.

Mas há uma coisa crucial que não tem acontecido não só no Brasil, mas também na Europa, nos Estados Unidos e na África. Nos últimos 30, 40 anos, por conta das técnicas que ficaram disponíveis para avaliar o funcionamento cerebral in vivo e por conta também dos avanços na estatística, na computação, no tratamento de dados e dos conhecimentos a partir do Projeto Genoma, as neurociências têm avançado bastante para esclarecer o funcionamento do cérebro quando desafiado a processar informações, por exemplo, quando se aprende uma escrita e a tratar com números. Mas o conhecimento que esses cientistas produzem é um conhecimento feito em laboratório. Eles precisam se aproximar de quem está praticando a ação educativa na sala de aula.

O que me fez me aproximar com muita alegria do que você faz é que encontrei alguém que ouve os estudos que eu faço e procura fazer as adaptações necessárias e criar procedimentos pedagógicos e rotinas de ensino que levem em consideração os avanços científicos, além de produzir um conhecimento na prática pedagógica.

Eu fico um pouco assustado porque sobretudo as escolas cristãs parece-me que têm abandonado a tradição pedagógica que o Cristianismo acumulou em 2.000 de instrução para aderir a quinquilharias pedagógicas num espírito novidadeiro. Por outro lado, não podemos deixar de levar em conta, para elaborar boas técnicas pedagógicas, o que a ciência agrega em termos de conhecimento de como funciona o cérebro, os sentidos, a integração – como o cérebro codifica, armazena, recupera e transforma informações para você poder exercitar essas atividades.

No caso da leitura, por exemplo, enquanto a criança não adquire um rendimento caracterizado pela precisão e velocidade na codificação, não adianta focar na compreensão. É como quando se dirige: se você pegar uma pessoa no primeiro dia de aula de direção e colocá-la às 10 horas da manhã num trânsito intenso, ela travará. A pessoa tem que primeiro ir para um lugar ermo e fazer os procedimentos, incorporá-los e automatizá-los, deixando-os no inconsciente, para só então passar a outra habilidade; até o ponto em que ele seja capaz de executar várias atividades de controle motor e psicomotor, mas prestando atenção no geral. O cérebro fica na gestão global do sistema, e as outras operações de mais baixo nível de processamento ficam no piloto automático. Então você tem que trabalhar nessa direção. E as pedagogias mais modernas têm dificuldade com a idéia de trabalhar com procedimentos inconscientes, mecanizados e que funcionam sem a gente perceber. Mas é preciso fazer isso. Os conhecimentos do funcionamento do cérebro mostram que, se a gente for prestar atenção a tudo ao mesmo tempo, o desempenho cai. É a teoria da sobrecarga cognitiva.

PROF. CARLOS: Eu tenho destacado isso nas dicas. Ao passar uma dica ou outra, explico para o pessoal: não exija neste exercício aquela outra habilidade para não dar sobrecarga. Hoje isso está claro para mim.

Luiz, quero ler uma mensagem enviada para o blog. Não é a primeira. Há várias similares. Pessoas formadas em Pedagogia ou cursando Pedagogia relatam mais ou menos o que a Vanessa de Carvalho descreve aqui:

“Carlos, muito obrigada pelo lembrete e pelo seu trabalho. Sobre as dúvidas, são muitas. Me formei em Pedagogia há pouco tempo e, mesmo sem filhos, me preocupo com a educação deles, e principalmente com a educação escolar diante da obrigatoriedade do ensino escolar no Brasil. Eu e meu marido, assim como vários amigos, temos o desejo de praticar o Homeschooling e não sabemos bem por onde começar. Ainda que existam vários empecilhos, acreditamos que os pais devem educar em todo o tempo seus filhos para “limpar” a verdadeira bagunça que ouvirão cotidianamente na escola. Acredito que a minha pedagogia nessa busca por educar meus filhos em casa. Fiz um curso de Pedagogia e não aprendi a ensinar. É desanimador.

Seus vídeos têm me incentivado nessa busca por aquilo que não aprendi.

Muito obrigada, Vanessa de Carvalho.”

PROF. LUIZ: Então, Vanessa, é curioso que você já tenha uma preocupação com seus filhos antes ainda que eles estejam entre nós.

PROF. CARLOS: 30% do blog é de homens solteiros que têm a mesma preocupação da Vanessa. Curioso, não? Porque todo mundo fala que ninguém quer ter filhos…

PROF. LUIZ: Essa é a pré-condição fundamental, você já estar preocupada com eles antes mesmo que eles existam. O resto virá, dentre outras razões, porque, até que seus filhos estejam entre nós, já haverá recursos e procedimentos colocados à disposição de vocês, inclusive por meio deste trabalho do Carlos. Então eu recomendo que acompanhe o trabalho do Carlos, estude, entre em contato e troque opiniões e preocupações. Certamente você vai conseguir fazer um bom percurso com seus filhos.

Quanto ao fato de você ter feito um curso de Pedagogia e não ter aprendido a ensinar, essa queixa é muito comum. Na universidade agora mesmo estou envolvido num procedimento para mudar a grade curricular. Esse é um desafio no mundo inteiro, o desafio de formatar o treinamento dos profissionais de educação de tal maneira que o alvo seja prepará-los para ensinar com eficácia. E estamos dando passos em direção a isso, mas o processo é difícil. Enquanto esse processo não chega a se generalizar, a gente pode contar com essas iniciativas como a do Carlos nesse blog.

PROF. CARLOS: Para encerrar, vou deixar um espaço para você falar sobre algum assunto que você gostaria de tratar e que não levantei aqui, para depois eu fechar a entrevista. Esta é apenas a primeira entrevista. O Luiz continuará com a gente no blog, ele irá nos auxiliar em vários pontos. No primeiro vídeo eu deixei claro que, quanto aos assuntos que eu não domino, procurarei profissionais altamente capacitados para responder às dúvidas dos pais.

PROF. LUIZ: Quero parabenizar o Carlos por esse entusiasmo que ele tem e pelo modo como está enfrentando esse desafio e quero me colocar à disposição. Chamo a atenção para o fato de que hoje precisamos no Brasil dar o seguinte enfoque à educação: procurar descobrir quais são os meios mais eficazes para prover as nossas crianças daquele conhecimento fundamental.

Há uma psicóloga americana que já faleceu que dizia que, na primeira parte do Ensino Fundamental até os 10 anos, é preciso aprender a ler; o resto é ler para aprender. De maneira que nós precisamos encontrar os procedimentos mais eficazes para que as crianças possam aprender a ler, porque esse é o instrumento principal. Mesmo quando se lida com os recursos da tecnologia, com a internet, etc., é preciso saber ler.

Minha palavra final é : procurar procedimentos de ensino baseados em evidências seguras de sua eficácia. Para isso é preciso considerar, de um lado, a tradição e de outro, as pesquisas científicas, mas pesquisas científicas de alto nível, aquelas que realmente produzem achados que comprovam a eficácia das coisas.

PROF. CARLOS: Chegamos ao fim da entrevista. Mais uma vez quero agradecer-lhe por ter aceitado o convite.


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18 Comentários


  1. Parabéns Professor,
    A partir de uma conversa com meu namorado fiquei curiosa a respeito do que se tratava o homeschooling e desde de então comecei a pesquisar sobre o assunto. Fiquei fascinada pelo assunto, pois percebi que muito daquilo que o senso comum comenta sobre o homeschooling no Brasil não corresponde a realidade.
    Não tenho filhos ainda (espero que quando eu tiver filhos, a situação já esteja regulamentada no Brasil), mas gostaria ler mais sobre o assunto e me preparar, já que tenho certeza que vou encontrar desaprovação da minha família e dos meus amigos, provenientes do pouco conhecimento sobre o assunto e das concepções ideológicas predominante no país.

    att.

    Responder

  2. Professor Carlos, não vi a data da entrevista em nenhum lugar. Poderia me informar a data?
    Também gostaria se saber se posso praticar o homeschooling sem enfrentar um processo judicial por parte do governo ou se isto será inevitável. Sei que mais de 3.000 famílias já praticam o homeschooling no Brasil e muitas mais estão se tornando adeptas a este sistema que tem se provado eficiente. Aguardo seus comentários. Obrigado

    Responder

  3. [1:03:46] “O resto virá. (…) Entre outras coisas, porque até que seus filhos estejam entre nós, já haverá recursos, procedimentos colocados à disposição de vocês, inclusive por este trabalho do Carlos.”

    Carlos, quero dizer que estou à disposição para avançar os interesses do homeschooling no nosso país – mais em específico, que esteja claro e garantido o direito inalienável dos pais de fazer valer a sua primazia na educação dos seus filhos.

    Faço parte destes 30% de Homens solteiros citados por ti [1:03:10] Não sei porque cargas d’água (na verdade sei), há muitos anos, o “ensino de meus filhos” é tão dominante em meus pensamentos, sendo que _ainda nem tenho filhos_.

    Responder

  4. Me pergunto quem será o líder a ORGANIZAR UM COLETIVO para fundar o caminho do homeschooling no Brasil, a exemplo, pressionando os legisladores.

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  5. Mestres! Eis o verdadeiro amor, denotado na autêntica preocupação com nossos filhos. A educação é a maior herança que a eles podemos oferecer. Obrigado pela excelente uma hora e dez minutos proporcionados. Como questionamento, gostaria de saber como estão hoje os filhos do Prof. Luiz, em idade e, principalmente, em objetivos: se anseiam por alguma profissão, por alguma causa maior, enfim. O objetivo não é saber nada pessoal, mas sim visualizar um pouco dos resultados potenciais da homeschooling. Grande abraço.

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  6. Excelente!!! Mas confesso que fiquei um pouco assustada… foi abordado assuntos fundamentais para uma boa educação… espero conseguir através do blog muitas informações e trilhar um caminho de exito na educação da minha filha! Conto com você professor Carlos!! Obrigada!

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  7. Como é bom poder contar com pessoas que se preocupam com a verdadeira educação de nossas crianças.

    Que Deus abençoe vocês e esse blog.
    Sou mãe e todo o conteúdo aqui publicado tem me ajudado muito.

    Obrigada!

    Responder

  8. fantástica entrevista e esclarecedora e mostra a total realidade que a educação brasileira vem sendo conduzida

    Responder
  9. Vanessa

    Olá! Parabéns pela entrevista, e muito obrigada pelas dicas preciosas! Gostaria de saber onde encontro esses documentos da Comissão de Educação de 2003 e 2007 a respeito do estudo realizado no Brasil sobre a educação, que indica que estamos indo contra tudo o que foi descoberto na área. E eu gostaria de saber como o Profº Luiz Carlos definiu o currículo de estudos de seus filhos, e em média quantas horas de estudo eles tinham por dia. Muito obrigada, e que Deus os abençoe!

    Responder

  10. Parabéns, professor Carlos! Seu trabalho é muito importante. Abraço.

    Responder

  11. Adorei a entrevista. Percebe-se que o professor Luiz Carlos é fera no assunto e muito sensato em suas declarações. Entretanto, discordo quando ele fala q devemos optar pela educação domiciliar OU confiar na escola e entregar a ela o dever de passar os conhecimentos para o aluno. Particularmente, não confio nas escolas, mesmo as mais caras, mas ainda acho q é lá onde a criança apreende certos códigos sociais q são importantes p sua sobrevivência. Acho q a criança deve enfrentar as dificuldades e os defeitos q essas escolas têm, uma vez que o mundo em q elas vivem não é um mar de rosas. Como ele falou, a criança pode socializar em cursos de inglês, na natação etc. Não creio q seja a mesma coisa. Nesses cursinhos e aulas particulares, há quantos alunos por turma? Às vezes 5, 6 ou menos.
    A escola amplia a rede social da criança em termos numéricos, pois ela conhece a turma da sala, conhece aqueles alunos das séries mais avançadas ou menos avançadas. Trocam informações sobre as matérias e os professores q vão encarar no(s) ano(o) seguinte(s). Dão dicas para os alunos mais novos. Enfim, acho a escola um universo riquíssimo para a criança e por isso, meu filho irá frequentá-la.
    Entretanto, não sou louca por permitir q meu filho absorva apenas os conteúdos dado pela escola. Quantos professores destroem o interesse do aluno por determinadas matérias por não conseguirem prender a atenção dele? Quantos professores tentam doutrinar alunos a respeito de política ou religião? Muitas vezes de forma quase criminosa de tão tendenciosa q é. Quantos professores ignorantes, problemáticos, arrogantes e despreparados intelectualmente vemos dando aulas nas escolas?
    Diante disso, pretendo conciliar as duas coisas, ou seja, levar meu filho à escola, mas quero ensiná-lo em casa. Pretendo fazer roteiros de viagens para ensiná-lo história e geografia na prática. Pretendo ensiná-lo francês e italiano em casa,pretendo indicar os livros certos, independente das sugestões da escola, pretendo aplicar brincadeiras e jogos pedagógicos e tudo que seja importante para q ele cresça e desenvolva todo seu potencial.
    Acredito que esperar conteúdo da escola é tornar-se um mendigo do conhecimento, pois o enriquecimento intelectual é feito em casa. Entretanto, não sou a favor do desvencilhamento do ambiente escolar.

    Enviado do meu iPad

    Responder

  12. Boa tarde.
    Sendo bem sincera espero ser respondida, sendo possível no meu e-mail, o que preciso ser instruída e como eu devo aborda a escola que eu escolho para colocar meu filho que tem 3 anos, para que eu saiba se ela está qualificada, dentro que os senhores explicaram nesse vídeo, pois sou leiga no assunto.
    Grata de coração.

    Responder

  13. Parabéns. Professor Luiz Carlos Faria é uma referência sobre o assunto.

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  14. Estou imensamente feliz com a entrevista. Tudo que eu penso e acredito ser fundamental foi verbalizado. Espero conseguir o mesmo sucesso com a minha filha! Estou buscando praticar o ensino domiciliar legalmente! Obrigado pelas dicas

    Responder

  15. Gostei muito! É bom saber que há educadores sérios e seriamente preocupados com a educação das crianças. Obrigada por esse trabalho e nos dar acesso a ele. Continuem fazendo isso e aperfeiçoando cada vez mais…

    Responder

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