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Seu filho já reclamou de uma ilustração, não a entendeu e interrompeu a leitura em voz alta para fazer perguntas como “o que é isso?”, acompanhadas de uma nítida expressão de confusão? Você já ficou incomodado com uma ilustração de livro infantil, achou-a inadequada para uma criança pequena e teve o ímpeto de passar logo a página para que seu filho não a observasse por muito tempo? Ou nunca se preocupou com as ilustrações dos livros que lê para seu filho?

Para as crianças até os 4 ou 5 anos, as ilustrações são, em grande parte, o que atrai e fisga em um livro infantil. “Para que serve um livro sem imagens nem diálogos?” – a pergunta de Alice, na história de Lewis Carroll, é a pergunta das crianças em geral – especialmente das mais novas. Se seu filho se encanta pelas ilustrações de um livro, provavelmente oferecerá menos resistência nas primeiras sessões de leitura em voz alta. Mais tarde, ele pedirá para você repetir aquela história dezenas de vezes. Isso acontece porque crianças dessa idade ainda têm repertórios vocabular e sintático limitados e são fortemente guiadas pela visão, de modo que as ilustrações são muletas muito bem-vindas.
Aproveitemos, portanto, o fascínio das imagens para formar e instruir os filhos. Formá-los na apreciação da beleza e da arte, dotando-os de sensibilidade artística. Instruí-los usando das imagens para desenvolver a acuidade visual e a linguagem: apontar para as figuras e pedir à criança que as nomeie, que descreva cenas, perguntar sobre as cores, as quantidades, os personagens – ou dar as respostas no lugar delas, enquanto não têm linguagem para tal.
Contudo, como não queremos que nossos filhos usem muletas para sempre quando têm plena capacidade de andar por conta própria, é preciso tirá-las aos poucos: reduzindo o número e o tamanho das ilustrações, aumentando a quantidade de texto nos livros. Até que não haja necessidade de imagem alguma – o que obviamente não significa que adolescentes, jovens e adultos não devam ler livros ilustrados e quadrinhos.
As funções das ilustrações

Há pouco mais de 100 anos, o uso das ilustrações nos livros infantis tinha um caráter predominantemente decorativo: margens, arabescos, ornamentos, ilustrações pequenas ou enormes decoravam as páginas, tornando-as mais agradáveis aos olhos. Mas com o ilustrador inglês Randolph Caldecott (1846-1886), as ilustrações passaram a assumir, com mais freqüência, outras funções nos livros infantis: complementar o texto, “dizer o que não foi dito”, destacar certas expressões dos personagens e certos detalhes dos ambientes.
Desde então, a variedade dessas funções tem sido explorada por escritores e ilustradores em todo o mundo, especialmente na criação de livros para crianças com menos de 6 anos, geralmente com pouco texto e muitas e enormes ilustrações. Ilustra-se para reproduzir o que foi dito no texto, ambientar a história, situá-la no tempo, desenvolver os personagens, marcar suas expressões, complementar algo não dito no texto, etc. Há muitas formas de empregar as ilustrações nos livros infantis, e muitas delas produzem efeitos interessantes e que agradam às crianças.
Em “A história do coelhinho Benjamin”, Beatrix Potter introduz um personagem novo e relevante na trama sem o mencionar no texto:
“Ele (Pedro Coelho) se achava um passo ou dois à frente de seu primo quando parou, de repente. Foi isso que os dois coelhinhos viram naquele canto.”

A gata só aparece no texto dois parágrafos depois.
Qualquer ilustração é válida?
Alguns tipos de ilustração, apesar de acompanharem ou mesmo “conversarem” com o texto, podem desagradar, confundir e perturbar as crianças – principalmente as pequenas. São as ilustrações disformes, distorcidas, desproporcionais; as representações de figuras humanas ou animais com economia de traços e expressões; as ilustrações psicodélicas; as imagens que, para alguém que mal chegou ao mundo, não parecem representá-lo – uma vaca que não se parece nada com uma vaca, a heroína da história retratada num estilo tão veementemente cubista que arranca da criança um “Mãe, mas essa é a bruxa!” ou um “Olha, um porco!”
Como lembrou Nathan Freeman em entrevista ao blog Como Educar Seus Filhos:
“Se a imagem de um livro não é um espelho da Natureza, será uma corrupção da Natureza. E essa corrupção da Natureza pode dar a entender que a Natureza não segue leis. Mas, como sabemos, há leis naturais, e os que não seguem as leis naturais correm muito perigo. Por isso, para entender a Natureza, as imagens de um livro precisam ser um espelho da Natureza. Assim, a beleza da Natureza precisa ser vista nos livros. Se a imagem de um livro não é minimamente um espelho da Natureza, deixa de inculcar a beleza no aluno.
A Natureza encerra muitas diferenças. Quando se vê num livro uma árvore, essa ilustração já é uma idealização dela, mas não pode ser menos do que a Natureza, somente mais.”
Cecília Meireles, em “Problemas da literatura infantil” deixou também suas observações sobre o assunto, numa crítica ao primitivismo que despontava nas artes e começava a aparecer também nos livros infantis:
“Quanto à qualidade dos desenhos, talvez seja interessante averiguar o gosto das crianças pelos desenhos simplificados de ilustradores modernos, ainda que seja indiscutível o seu valor artístico no mundo dos adultos.
Que certos desenhos de crianças se assemelhem aos dos artistas modernos não é razão para que a criança os prefira. De uns para outros vai grande distância. No desenho infantil, a impossibilidade de resolver certos pormenores técnicos obriga a simplificação que a criança, com a sua autocrítica, considera imperfeições. Sua intenção é realista; mas, por deficiência de meios, recorre a certas convenções, para exprimir-se. O artista, exausto de técnicas e nostálgico de ingenuidade primitiva, chega a esses resultados por um caminho oposto, pela renúncia à maestria, reconstituindo o mundo de memória, com uma visão purificada, que o aproxima artificialmente da infância.
Por seu gosto realista, e sua curiosidade pelas minudências de um mundo que recentemente começou a conhecer, é natural que a criança goste dos desenhos prolixos, que reproduzem os objetos com todos os seus fulgores e caprichos, seu caráter e sua expressão.”
Antes de comprar um livro com uma ótima história e um bom texto, pesquise sobre as edições disponíveis e observe suas ilustrações. Se elas se encaixarem nas descrições acima apresentadas, é melhor procurar outro livro. Se você achá-las feias, confie em seu julgamento. Se já tiver em casa um livro com ilustrações que lhe agradam, mas podem ser inadequadas para seu filho de menos de 6 anos, considere deixá-lo para mais tarde.
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