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Entusiasta das letras, Orton Lowe escreveu, no início do século XX, um roteiro para a introdução da criança no reino da boa literatura de imaginação. Lowe dirige-se aos professores, mas todos os seus conselhos podem ser adaptados para o ambiente doméstico, onde a responsabilidade por cultivar o gosto literário das crianças recai gravemente sobre os pais. O resultado, Lowe garante, é uma vida mais rica de maravilhamentos e de sentido, na companhia do que já se escreveu de melhor para crianças – e, diríamos ainda, para crianças de todas as idades.
Quem acredita que a educação e os livros destinam-se apenas à transmissão de informações úteis não deveria prosseguir na leitura destas linhas, pois há de ficar bastante irritado com o que poderá julgar tratar-se de idealismos e tolices indignas da praticidade da nossa era. Porém, quem acredita que a vida é mais do que a carne, e o corpo mais do que as vestes, e precisa dos livros tanto quanto de sua túnica, há de acompanhar com simpatia e paciência as intuições aqui delineadas acerca dos meios pelos quais os bons livros podem passar a fazer parte da vida de uma criança. Pois, na grande aventura de garantir a moradia, o que comer e o que vestir, a criança que jamais se encantou com a leitura de um livro no aconchego do lar, ou o homem que nunca se debruçou sobre um livro muito amado, à luz de uma vela, simplesmente não experimentou um dos prazeres mais ingênuos e refinados desta vida.
Os livros servem ao nosso refinamento porque são veículos da arte literária — uma arte que é, em seu sentido mais alto, uma expressão e interpretação da vida. Esta é uma arte que lida com o Belo. Seu apelo dirige-se principalmente aos sentimentos. Seu fundamento é a Verdade, seja ela uma verdade de fato ou uma verdade a que se aspira. A natureza mesma dessa arte coloca-nos, desde o início, diante da questão: vale realmente a pena investir na literatura? Até que ponto a educação tem o direito de desenvolver o senso do Belo? Que prazeres e gostos duradouros a criança deveria cultivar, supondo-se que deva cultivá-los? Do que uma criança precisa, afinal, para se preparar para a vida?
Essas são questões importantes; essas são questões difíceis. São questões jamais pacificadas, porque jamais respondidas de maneira satisfatória a todos. São questões mais afeitas ao temperamento do que à lógica. Investigar o papel reivindicado pela literatura em um programa de educação, e daí extrair conclusões lógicas, é algo para além da habilidade, conhecimento ou inclinação do autor destas linhas; nos capítulos seguintes, os senhores encontrarão apenas impressões pessoais. Além disso, uma investigação dessa natureza, se pudesse ser feita, estaria tão fora de moda entre a classe dos professores, que traria apenas reprovação sobre quem a tentasse. O melhor plano é tomar uma premissa educacional como verdadeira e, partindo dela, chegar a uma conclusão favorável. Seguindo esse raciocínio, partiremos do princípio de que livros de literatura são necessários na educação das crianças e concluiremos, daí, que a função principal do professor é treiná-las para ler livros de maneira inteligente e ajudá-las a desenvolver por eles um gosto genuíno. Como um professor com especial afeição por uns velhos livros favoritos não teria uma fé inabalável nesse princípio? Por que esse professor não deveria promover, com alegre confiança, a literatura e tudo o que pode ser feito para desenvolver nas crianças um gosto por ela?
O finado Professor Norton observou certa vez que o gosto pela literatura não era um dom da natureza, mas algo a ser cultivado. Os anos do ensino fundamental parecem ser a época mais propícia a esse cultivo, possibilitando que o gosto pela literatura crie raízes mais profundas. Para desenvolver um gosto sincero e duradouro pelos livros, um esforço vigoroso e cheio de tato será de grande ajuda.
Literatura infanto-juvenil enlatada e certificada
Na atualidade, as pessoas preocupam-se mais com boa comida do que com bons livros — John Bright desejava que a classe operária inglesa comesse bacon, mas não lesse Bacon. A comida pesada e pouco refinada do século passado foi substituída por comida empacotada e certificada, feita segundo uma fórmula que é um mistério para quem a consome. O mesmo se dá com nossos livros. Não temos a franca vulgaridade do século dezoito, mas, em seu lugar, temos as formas mais estudadas de insinuação, cujos perigos a falta de refinamento dos tempos passados não foi capaz de oferecer. Muito da literatura atual faz o curso ordinário dos dias parecer pouco interessante — algo perigoso para um livro, segundo Ruskin. O comportamento retratado nessa literatura tem muito de uma liberdade pessoal originada do mero capricho, rompendo firmemente com a tradição por meio do que um crítico certa vez designou como “insinuação maliciosa e amor frustrado”. O livro é muitas vezes espetaculoso ou lúgubre no tom. Pode ser melodramático, deixando o leitor propenso a um sentimento de revolta, ou com um senso enfraquecido de responsabilidade. Ou, ainda, pode conceder licença ao riso estrepitoso baseado em alguma desgraça pessoal ou em modos grosseiros — à maneira das comédias hoje em circulação. E o pior de tudo: essa literatura pode virar moda, isto é, um best-seller. O nome do livro e alguns de seus temas chegarão às crianças por meio da conversa dos pais. Nessas circunstâncias, convencer a criança de que tem muito mais valor o gosto por uma história saudável colocará os recursos do professor – e dos pais – sob teste. Entretanto, é exatamente isso que se espera deles — uma tarefa hercúlea e inglória.
Garantir a formação de um sólido e genuíno gosto por bons livros deveria ser o objetivo do professor — e isso em uma época na qual o gosto pelo vaudeville, pelo show de variedades, está profundamente enraizado. A variedade toma o lugar da atenção sustentada, abrindo espaço para a licenciosidade. (…) Parece que a melhor coisa que o professor pode fazer é “dar a volta por cima” com um punhado de bons livros. Na alegria e na tristeza, eles serão um tesouro permanente para seus leitores.
A responsabilidade por garantir que esse gosto genuíno e duradouro se desenvolva recai precipuamente sobre o professor. Ele precisa conhecer e apreciar os bons livros que as crianças devem ler. Precisa conhecer o poema ou a história em primeira mão — não a opinião da crítica. A criança perceberá no semblante se ele não gostar de verdade da obra literária. Só então a criança poderá ser colocada no caminho certo, e então deixada para trilhá-lo por sua própria conta, como Scott sugeriu há muito tempo. É preciso tempo para fazer isso: algumas coisas valiosas devem ser feitas sem pressa ou agitação. É tolice matar por indigestão um gosto que está começando a ser cultivado. Aqui se deve andar com temperança e também com entusiasmo.
O professor deve ser capaz de ler em voz alta produzindo um efeito agradável. A voz tem o poder de revelar sutilezas que podem passar despercebidas aos olhos. Nenhuma explicação durante a leitura é mais eficaz do que uma expressão vocal adequada. Na verdade, como regra, quanto menos explicação, melhor. Se existe uma coisa que, nos últimos anos, tem sido um obstáculo para que meninos e meninas apreciem a boa literatura, é o assim-chamado “método de laboratório”. De todas as asneiras educacionais que têm sido promovidas nos últimos tempos, o método de laboratório aplicado a um poema ou história de imaginação é, de longe, o mais presunçoso e absurdo. A quem interessa submeter fantasias e fadas a uma fórmula? Seria o mesmo que aplicar o método de laboratório à própria fé e às esperanças na religião.
Alguns obstáculos ao cultivo de boas leituras
Na luta para trazer bons livros para a vida da criança, é preciso enfrentar muitas forças contrárias com paciência e tato. Censurar livros, tal como inspecionar alimentos, pode ser algo bastante desejável, mas não é de modo algum eficaz. O mais imprestável dos livros continuará se infiltrando, de vez em quando, em todas as ocasiões. Há ainda os hábitos de leitura do meio em torno, as idéias dos pais sobre o que a criança deveria ler e o próprio gosto natural da criança — tudo isso deve ser levado em conta. Seguem, abaixo, algumas das forças contrárias que podem ser encontradas em qualquer contexto:
- As séries juvenis — o problema mais difícil de contornar, do ponto de vista literário. As séries são sempre incrivelmente longas. Todos os volumes seguem o mesmo padrão, estão sempre em destaque e são igualmente estúpidos. Os temas vão desde a vida em um internato até aventuras policiais, e são igualmente falsos para com os fatos da vida real ou para com os anseios por um verdadeiro romance. O que fazer com elas?
- A facilidade de acesso da criança ao jornal cujas manchetes chamam a atenção para o noticiário policial.
- A voracidade com que as crianças lêem o suplemento de humor e até procuram por livros da mesma natureza.
- As seleções de baixa qualidade muitas vezes recomendadas às crianças pela escola como matéria para se aprender a arte da leitura.
- O preconceito dos pais e até do meio em torno contra os contos de fadas e todas as formas de literatura altamente imaginativa — o problema mais difícil do ponto de vista da leitura. Muitos acreditam que esses livros fazem mal; que a criança deve ler sobre “verdades”. Os pais ainda não descobriram a existência da imaginação e do seu papel no desenvolvimento intelectual, artístico e espiritual do homem. Mas será que os professores não deveriam reconhecer essa verdade antes dos pais?
- A impressão de que livros informativos são a verdadeira literatura, e de que isso basta para a criança.
- A crença de que os livros devem ensinar fatos e transmitir ensinamentos morais, mais do que entreter, refinar o gosto e inspirar.
- O recém-adquirido gosto de meninos e meninas por histórias triviais: os meninos têm se voltado para histórias de personalidades famosas dos esportes, e as meninas, para histórias que se passam no ambiente da escola.
- Leitura em excesso e leitura feita segundo sugestões de colegas.
- Poucos livros em casa e poucas releituras de bons livros.
- O fim do hábito de ler em voz alta no aconchego do lar.
O professor certamente terá de reunir todo o seu entendimento, coragem e perseverança se deseja obter sucesso na luta pela boa leitura. Que ele não se esqueça de que sua maior batalha não será impedir que a criança leia o que não é bom, nem convencer os pais de que este ou aquele livro é bom ou ruim, mas conquistar o interesse e a confiança da própria criança. Quando o professor começar a entender que um garoto tende naturalmente a amar um herói, e, como Tom Sawyer, deseja “morrer temporariamente”, ou que uma garota tem uma curiosidade natural de abrir a porta proibida, como fez Fátima [personagem do conto de fadas “Barba Azul”], ele verá que esse é o terreno onde a semente poderá frutificar. Eis o terreno que o professor deve arar com cuidado.
Este é o primeiro capítulo da Introdução do livro Literature for children [“Literatura para crianças”, sem tradução para o português], de Orton Lowe.
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Gostaria de saber se você teria alguns títulos para sugerir para uma criança de 11 anos. Obrigado e parabéns pelo conteúdo!
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Parabens pela matéria, me agregou muito