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Como um boneco de madeira pode se transformar em um menino de verdade? Como domar o espírito selvagem de um garoto? Quando o menino se transforma em homem? No que consiste a arte de educar o jovem para que se aperfeiçoe e venha a ser um homem civilizado? A história de Pinóquio nos mostra que o boneco de madeira – teimoso, preguiçoso e ingrato – torna-se digno da honra de ser um menino de verdade quando adquire não apenas certas virtudes como honestidade, obediência, docilidade e diligência, mas também as virtudes do coração – um coração agradecido, bondoso, compassivo, devotado e caridoso. Geppetto procura de toda maneira infundir esses ideais cristãos de tempos imemoriais no boneco – o menino que nunca estuda, freqüentemente quebra suas promessas, sempre dá um jeito de fugir, fazendo-se de surdo a bons conselhos, e está sempre a pedir por comida. Pinóquio não pode elevar-se à condição de menino real a menos que aprenda a ter auto-controle, a valorizar a bondade de Geppetto, a ter amor pela Fada-madrinha e a honrar as verdades eternas da sabedoria proverbial que Geppetto se esforça por transmitir-lhe.
Permeiam o livro estes dizeres de sabedoria antiga: “Meninos desobedientes não conseguem nada em seu proveito”; meninos que têm preguiça de estudar transformam-se em burros; evite as más companhias; “só os velhos e os enfermos têm direito de pedir”; “o homem, nasça rico ou pobre, é obrigado neste mundo a trabalhar”; e “a fome não conhece paladares nem manjares”. O menino de madeira, insensível à sabedoria do pai, trata Geppetto com insolência. Preguiçoso, Pinóquio inventa subterfúgios para não estudar e prefere mendigar comida a trabalhar para obter o pão; indulgente consigo mesmo, cai freqüentemente na tentação dos divertimentos fáceis e das más companhias que o afastam da escola e roubam-lhe seu dinheiro; cheio de caprichos, o menino esfomeado recusa-se a comer pêras, a menos que estejam descascadas. Tais são os traços de caráter do obtuso boneco de madeira, que se transforma em um menino de verdade quando aprende, com a sabedoria tradicional de Geppetto, as valiosas lições para a juventude.
A primeira lição ensina ao boneco a lei das conseqüências morais – seus atos e omissões têm conseqüências –, uma lei que Pinóquio presume não existir, ou não se aplicar a ele. Desafiando verdades proverbiais, Pinóquio aprende a lição pela dor da experiência mais do que pelo respeito à autoridade. Amarrado a uma árvore, apanhado em uma armadilha, confinado em uma casinha de cachorro, preso na lama e aprisionado em uma jaula, Pinóquio admite: “Quantas desgraças me ocorreram!… E bem que as mereço, pois sou um boneco cabeçudo e preguiçoso!” Com algum atraso, Pinóquio por fim compreende a lei das conseqüências que o conduz às verdades da vida moral. Desobedecendo a autoridade e desafiando as regras a fim de fazer tudo à sua maneira e gozar de absoluta liberdade, Pinóquio – sempre fugindo de casa – logo se encontra com uma coleira ao pescoço, preso em uma casinha de cachorro, quando então admite outra verdade da qual vivia se furtando: “Se me comportasse como um menino de bem como há tantos por aí, se tivesse vontade de estudar e de trabalhar, se tivesse ficado em casa com meu pobre paizinho, numa hora destas não me encontraria aqui, no meio do mato, a bancar o cão de guarda da casa de um camponês.” Pinóquio deve reconhecer a lei eterna de causa e conseqüência que rege assim a vida moral como o mundo físico.
Outra lição que a sabedoria oferece à juventude é o respeito pelo real valor das coisas preciosas. Geppetto vende seu único casaco para comprar uma cartilha para Pinóquio ir à escola, ficando em casa “a tremer de frio em mangas de camisa”, mas o boneco vende seu precioso livro para ir ao teatro de fantoches. Quando o titereiro Manjafogo fica sabendo da pobreza de Geppetto e do sacrifício que fez pelo filho, oferece a Pinóquio cinco moedas de ouro como um presente para seu pai – dinheiro que Pinóquio confia à Raposa e ao Gato, que o induzem a enterrá-lo no Campo dos Milagres, onde, dizem-lhe, a fortuna há de se multiplicar. Pinóquio ignora o conselho do Grilo Falante: “Trate de voltar e leve as quatro moedas de ouro que sobraram para o seu pobre pai, que chora desesperado porque você sumiu.” Pinóquio não dá valor ao alimento que tem sobre a mesa, ao recusar-se a comer as pêras, nem dá valor à educação, que ele abandona a fim de viajar para o País dos Folguedos – um país que o seduz com a promessa de não ter nenhuma escola, nenhum livro, nenhum professor, e onde a semana compõe-se de seis sábados e um domingo. Quando meninos não valorizam o pai e a mãe, nem as dádivas do alimento, da educação e do amor, transformam-se em burros estúpidos e embrutecidos, sem nenhum refinamento ou sensibilidade. Sem a capacidade de discernir entre o conselho amoroso dos pais e o conselho malicioso de más companhias, a dureza de Pinóquio permanece inquebrantável.
Entretanto, Pinóquio finalmente se transforma em um menino de verdade quando passa a reconhecer o valor da paciência e a capacidade de perdão de seus pais, o que vence a dureza de seu coração. Finalmente, ele passa a valorizar a sabedoria intemporal, cujo acerto vê confirmado pela vida desregrada que levou. Depois de quase perder o pai, que se arriscara no mar à sua procura, Pinóquio encontra Geppetto dentro da barriga de um tubarão e o conduz para fora, carregando nas costas o velho pai que não consegue nadar: “Monta a cavalinho em minhas costas e, como sou bom nadador, levo-o são e salvo até a praia” – um gesto que nos recorda o piedoso Enéias, que carregou em suas costas seu pai Anquises quando fugiam das chamas de Tróia. O menino que se recusava a estudar ou a trabalhar passa a dedicar-se ao trabalho braçal e a fazer cestas de junco para garantir um copo de leite a seu pai. O boneco que preferia o prazer ao dever e vendia ou perdia seus preciosos bens em nome de divertimentos tolos então resolve: “Até agora tenho trabalhado para manter meu pai: de hoje em diante trabalharei mais cinco horas para manter também a minha boa mãe.” À semelhança do piedoso Enéias, devotado a seu pai já idoso, e dos heróis homéricos, que consideram a vida incompleta até que recompensem os pais por sua dedicação amorosa, Pinóquio reconhece sua dívida e demonstra ter aprendido a valorizar o que recebeu, adquirindo um bom coração – a maior lição que Geppetto e a Fada-madrinha poderiam ensinar a seu menino de madeira. A Fada cumprimenta Pinóquio quando o boneco se transforma em um menino de verdade: “Em reconhecimento pelo seu bom coração, eu o perdôo por todas as travessuras que praticou até hoje. Os meninos que ajudam amorosamente os próprios pais em sua pobreza e enfermidade merecem sempre muitos louvores e grande afeto…”
A educação civilizadora do lar e a dedicação de pais amorosos que passam adiante a sabedoria e os ideais morais de todos os tempos transformam bonecos de madeira em meninos que sabem o que é gratidão, meninos que sabem o que é gratidão em homens generosos, e homens generosos em nobres heróis dotados de um coração disposto a sacrifícios.
Artigo de Mitchell Kalpakgian traduzido para o português. Original em: http://www.crisismagazine.com/2012/carlo-collodis-pinocchio
Traduções e adaptações da obra
Há várias traduções brasileiras do Pinóquio de Carlo Collodi e uma infinidade de adaptações e versões nos mais variados formatos. Muitas dessas adaptações têm uma linguagem pobre e infantilizada – quando não estão repletas de erros gramaticais – e tiram do enredo original partes fundamentais. Portanto, o melhor é buscar traduções integrais. Boas traduções integrais da obra podem ser encontradas (1) na recente (2011) edição da Cosac Naify, com tradução de Ivo Barroso, ainda disponível em algumas livrarias; (2) em edições da tradução revista por Monteiro Lobato, que ainda se podem encontrar em sebos.
Para saber mais sobre as edições brasileiras de Pinóquio, leia este artigo de Denise Bottman.
Idade recomendada: +7 anos
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