Tempo de leitura: 15 minutos
Por muito tempo, os psicólogos experimentais olharam de modo enviesado a psicologia racional e rejeitaram-na como muito teórica, mas agora descobriram que muito do que vem sendo desenterrado nos laboratórios e clínicas é inexplicável ou incompleto sem referência a princípios comuns. Muito do que Freud, Adler e Jung dizem não tem fundamento sólido. Muitos psicólogos vêem com novos olhos a psicologia que tem sido desenvolvida com bastante cuidado ao longo dos últimos 2500 anos. Entre eles está a psiquiatra freudiana holandesa, A. A. A. Terruwe, M. D., que tenta sintetizar as psicologias racional e experimental em seus dois livros, que foram revisados no periódico Dominicana (edição de verão em 1959 e edição de primavera em 1961). Nesse tocante, E. M. Standing discute o método Montessori de educação à luz da psicologia racional, mostrando como está baseado em velhos princípios que são sempre novos. Standing foi amigo e secretário da dottoressa e dedicou sua vida a promover a abordagem Montessori na educação de criança, interessando-se especialmente em expor o sólido fundamento tomista que subjaz ao método.
Parece ser moda entre os psicólogos de hoje desacreditar logo de início a psicologia racional como antiquada, para não dizer morta. Feito isso, eles seguem escrevendo capítulos e mais capítulos sobre a razão, a imaginação, a memória, a atenção, etc., como se nada tivesse acontecido. Como observa o professor Spearman em algum lugar, “as faculdades (da mente) conseguem perder cada batalha e sempre ganhar a guerra.” O que serve para mostrar que deve haver algo de fundamentalmente verdadeiro na psicologia racional. Em face disso, é improvável que o gênio analítico e introspectivo de tantos filósofos, de Aristóteles até Kant, estivesse completamente enganado.
Na verdade, a concepção de alma de acordo com Aristóteles e os escolásticos está mais alinhada com a psicologia da intencionalidade de McDougall do que geralmente se supõe. Para eles, a alma era um princípio espiritual que, como tal, é algo “simples”, ou seja, não pode ser dividida em partes. Por definição, portanto, as faculdades da alma jamais poderiam ser entidades separadas, mas sim modos de ação. Filósofos como São Tomás de Aquino jamais considerariam o conhecimento, a vontade e a aptidão como separados na realidade. Por outro lado, não é preciso ter grande perspicácia introspectiva para perceber que, quando alguém, de olhos fechados, se regozija com o cheiro de uma madressilva numa noite de verão, é a faculdade do sentido (olfato) que ocupa os holofotes da consciência, enquanto que as faculdades da inteligência e da vontade permanecem em pano de fundo. De modo similar, a faculdade da inteligência pode às vezes assumir a dianteira; outras vezes, a da vontade. Sugerir – como alguns fazem – que as inegáveis descobertas de alguns psicólogos modernos tornaram a psicologia tradicional totalmente inválida seria tão tolo quanto “jogar fora o bebê com a água suja da banheira”, para citar William James. Portanto, é de se esperar que um método de educação baseado sólida e diretamente em experimentos realizados na natureza do homem seja, a priori, compatível tanto com a nova psicologia como com a velha. E de fato é.
A razão humana
Aristóteles, o maior dos psicólogos racionais, define o homem como animal racional – uma definição que foi endossada por todas as gerações subsequentes. “Que obra de arte é o homem! Quão nobre na razão e na apreensão! Quão semelhante a um deus! Quão diferente do ‘animal que não dispõe do discurso da razão’.” Contrastando com muitos de seus contemporâneos, Maria Montessori insiste, como Shakespeare, nesse único dom do homem que o distingue dos animais. Tomemos como exemplo este trecho bastante surpreendente de O Segredo da Infância:
“O bebê começa do zero: é um ser ativo que segue adiante com suas próprias forças. Vamos direto ao ponto. O eixo em torno do qual o trabalho interno gira é a razão. Essa razão deve ser vista como uma função natural criativa que brota pouco a pouco, que desenvolve e assume a forma concreta de imagens absorvidas do ambiente. Aqui está a força irresistível, a energia primordial. As imagens são imediatamente colocadas a serviço da razão.”
Ou de novo:
“Do nada, a criança passa a um começo. Ela traz ao ser o dom mais precioso que confere ao homem superioridade – a razão. Ela avança nesse caminho muito antes que seus pequenos pés possam levar seu corpo adiante.”
A alma informa o corpo
Os escolásticos ensinavam que o homem é um ser cuja natureza é composta de dois elementos diferentes, espírito e matéria. Ele não é um espírito puro que foi solto num mundo material, temporariamente e por engano, e que agora, impedido por seu corpo, espera o momento certo para escapar. A doutrina da ressurreição dos corpos indica claramente que a verdadeira natureza do homem é um composto de corpo e alma, e não há teoria melhor que essa para expressar os princípios por trás da prática de Dra. Montessori ao lidar com crianças. Sua doutrina da “Encarnação Progressiva do Homem” (não reencarnação, por favor!) está baseada precisamente nessa relação mais íntima entre alma e corpo. Para citar o que escrevemos em outro lugar:
“A criança recém-nascida é ‘incompletamente encarnada’. Ao contrário de muitos animais de grande porte que nascem maravilhosamente completos, o ‘neonato’ é comparativamente inútil no poder instintivo de realizar ações complicadas (direcionadas a fins instintivos). Ele tem poderes bastante limitados de coordenação muscular.”
Essa aparente inferioridade é, no entanto, um sinal real de superioridade da criança. Esse é o ponto fundamental em que Dra. Montessori insiste e em que se baseia toda sua prática: a natureza do homem consiste na união perfeita de corpo e alma, uma alma que não é completamente dependente da matéria de seu corpo, como no caso dos animais, mas uma alma imaterial, suprassensível. Observações sobre as crianças menores, que ainda não chegaram sequer a falar ou andar, levaram-na a acreditar que a criança pequena está quase sempre em desvantagem, porque os adultos não percebem que ela é um ser que possui as faculdades da inteligência e vontade em medida muito desproporcional ao seu poder de expressão. Portanto, é dever dos pais e dos professores, não só alimentar o crescimento físico da criança e ajudá-la a adquirir uma experiência física ordenada, mas também capacitá-la a aperfeiçoar sua alma e corpo, de modo que este se torne um instrumento, um apto meio de expressão daquela. É por isso que Dra. Montessori introduziu em suas aulas aqueles “Exercícios na Vida Prática”, que são originais e que são tão mal compreendidos por quem é de fora, mas que são muito amados pelas crianças mesmas. Eles são muitos e variados. Incluem, por exemplo, uma série de ações direcionada ao cuidado pessoal: lavar as mãos, arrumar o cabelo, limpar os sapatos, etc.; a outra é direcionada ao cuidado com o ambiente: tirar a poeira, varrer, escovar; um terceiro conjunto volta-se às “Lições de Graça e Cortesia”, e muitas outras desse tipo.
Quanto a isso, é muito significativo o dever que o professor tem de apresentar à criança o que Dra. Montessori descreve apropriadamente como “Análise Lógica dos Movimentos”. Em toda ação complexa, como abrir e fechar a porta, há uma seqüência lógica de ações suplementares que juntas formam um todo, e essa seqüência não pode ser negligenciada sem que se confunda ou se perda a graça (dos movimentos). Por exemplo, é inútil puxar a porta antes de girar o trinco. O princípio dessa análise é sempre o mesmo. A luz da razão é levada a cabo nessas ações, as quais infunde com uma inteligência que relaciona todas as partes numa ordem lógica. Essas distinções podem parecer triviais para nós, mas não o são para uma criança de três ou quatro anos, que encontra nelas tanto interesse a ponto de repeti-las de novo e de novo, cada vez com mais perfeição, percebendo que ganhou mais poder sobre elas. Dessa maneira, as forças que movem a criança são reunidas e coordenadas segundo fins razoáveis de modo que a ordem substitui a desordem.
Relação entre os sentidos e o intelecto
Em todas as atividades sensoriais de Montessori a criança fica ocupada compondo e decompondo grupos de objetos que formam cuidadosamente séries graduadas ou contrastantes. E conforme ela os arranja e rearranja, sua mente forma noções cada vez mais claras sobre conceitos como comprimento, largura, cor, tom, formas geométricas, etc. Trata-se de uma aplicação prática do dito (tão repetido) de São Tomás de que a mente humana conhece ‘por composição e divisão’. É importante perceber que, nessas ações, a mente da criança é tão ativa quanto o são suas mãos.
As imagens claramente definidas que as crianças extraem desses materiais sensorialmente graduados se tornam para elas “chaves que abrem novos reinos (domínios) no mundo que as rodeia”. Essas imagens são claramente definidas a partir daquilo que os escolásticos chamaram de “fantasmas”, de onde o intelecto da criança extrai as idéias correspondentes, igualmente claras. Aqueles acostumados com a psicologia aristotélica reconhecerão nesses exemplos do método Montessori um princípio familiar: nada está no intelecto que não esteja primeiro nos sentidos. Ou como diz Santo Tomás, expandindo essa noção:
“Há três graus da faculdade cognitiva. Há primeiro o ato do órgão corpóreo, isto é, o sentido que conhece os particulares; em seguida, o poder, que não é nem ato do órgão corpóreo, nem uma combinação com a matéria corporal: assim é o intelecto dos anjos, cujo objeto é a forma tal como existe sem matéria; em terceiro lugar, há o intelecto humano, que fica entre um e outro, que é a forma de um corpo, ainda que não seja o ato de um órgão corpóreo. Devemos, pois, admitir que nosso intelecto conhece as coisas materiais por abstrações a partir dos fantasmas e pode entender as coisas imateriais por meio das coisas materiais, assim consideradas.”
Não há palavras que melhor descrevam os processos mentais que, para o observador, parecem se desenrolar nas mentes das crianças enquanto elas trabalham espontaneamente com os vários materiais didáticos na escola de Montessori. Há de fato momentos de expansão intelectual repentina nas vidas desses pequeninos estudiosos em que quase vemos o “intelecto agente” abstraindo as “formas inteligíveis” a partir daqueles “fantasmas” que as crianças obtiveram pelo contato com o material. Esses momentos são de pura alegria para as crianças (assim como para o professor). É a alegria que acompanha o uso correto de uma faculdade; e São Tomás observa em algum lugar que absorvemos melhor o que aprendemos com prazer do que o que aprendemos sem prazer.
Podemos assim visualizar duas imagens mentalmente; a do grande São Tomás defendendo Aristóteles contra os platônicos nas escolas de Paris, e a de Madame Montessori (seis séculos depois) observando, atônita, as revelações que suas crianças livres lhe apresentam na primeira escola de São Lourenço, um bairro pobre em Roma. À primeira vista, não parece haver muito em comum entre essas duas imagens. Mas se as olharmos mais de perto, veremos que ambos fazem a mesma coisa: exibem a verdadeira natureza do homem.
Aprendendo pela descoberta
Muitas dessas iluminações súbitas e jubilosas (chamadas pelos professores “Explosões Montessorianas”) são o resultado de descobertas intelectuais de relações numéricas ou de outras relações. São de fato “verdades que velamos para que nunca pereçam” e que explodem como novos planetas dentro de sua órbita. O espaço não permite mais exemplos; o que gostaríamos de enfatizar é que a espontaneidade é uma de suas características mais notáveis e essenciais. Todo o método Montessori está em verdade baseado – e de maneira muito bem-sucedida – na atividade espontânea do intelecto humano. Daí o seu valor em contraste com a maioria dos outros sistemas, pois diz São Tomás: “Há duas maneiras de adquirir conhecimento, (1) por invenção ou descobrimento, e (2) pela disciplina ou aprendizado. Invenção é o modo mais elevado e disciplina vem em segundo lugar”.
Dividindo a verdade em partes simples
Um dos motivos por que Dra. Montessori foi tão bem-sucedida no ensino pela “autoeducação” (ou invenção) vem da clareza com que ela compreendeu – e da originalidade com que aplicou – o princípio que chamou “A Análise e Separação das Dificuldades.” Ela diz que, se apresentamos a uma mente imatura uma verdade que transcende seu poder de assimilação, é inútil encrespar, coagir ou insistir em apresentá-la. Devemos nos contentar em analisá-la em elementos mais simples e apresentá-los então, cada um, separadamente. Esse é também o método de Tomás: a verdade deve ser quebrada até chegar a algo que a mente veja, isto é, até que ela veja a conexão lógica entre sujeito e predicado.
A espontaneidade do intelecto
Montessori, como vimos, baseia seu método na atividade espontânea do intelecto humano. Aqui ela está de acordo com os princípios escolásticos. São Tomás ensinou que “o homem está naturalmente inclinado a conhecer”, e que “a faculdade (da inteligência) por si, em condições normais, não erra o seu próprio objeto. O intelecto foi criado para conhecer a verdade; e se algo é feito para certo propósito, seria uma contradição em termos dizer que não alcançaria seu objeto.”
A expressão em condições normais é o ponto mais importante na presente discussão. Se, na escola de Montessori, a criança revela uma capacidade completamente inesperada de concentração intelectual, isso não se dá porque seu intelecto seja mais forte que o da criança na escola normal, mas porque as condições na primeira são mais favoráveis, pois “se uma faculdade falha”, observa São Tomás, “falha per accidens (por acidente)”.
Liberdade
É interessante notar que Dra. Montessori, em seus procedimentos práticos com as crianças, teve o instinto correto e com ele desenvolveu um método que está em notável conformidade com a visão escolástica sobre a natureza da liberdade humana.
Segue um sumário dos principais pontos extraídos da Encíclica Libertas Praesantssimum de Leão XIII:
(1) Apenas aqueles dotados da razão podem gozar de verdadeira liberdade.
(2) Liberdade é a faculdade de escolher os meios apropriados ao fim proposto.
(3) Todo ato de verdadeira escolha é precedido de um ato de julgamento.
(4) Por causa da imperfeição da natureza humana, é preciso uma lei para mostrar o caminho condizente com a razão.
(5) Aquele que age em vista de um poder externo é escravo.
Qualquer pessoa que estudar o que se escreveu sobre a idéia de Montessori de liberdade, levando em conta esses pontos, perceberá quanto seu exercício de liberdade na sala de aula está em conformidade com esses princípios.
Outros paralelos poderiam ser traçados entre a psicologia racional e as idéias de Montessori extraídas de suas experiências com as crianças livres, como a relação que existe ou deveria existir entre imaginação e razão, assim como mais detalhes sobre o papel desempenhado pelo “intelecto agente” na formação de idéias abstraídas de objetos concretos. Mas já se escreveu o bastante para mostrar que tanto a teoria de Montessori como a prática são congruentes, não só com o que há de permanente na psicologia racional, mas também com as mais recentes descobertas da nova psicologia.
Artigo de E. Mortimer Standing traduzido por Hugo Eduardo Medeiros.
Deixe suas dúvidas e opiniões aqui embaixo! Obrigado por compartilhar nosso conteúdo!
Receba em seu email nosso ebook “As 5 Etapas para Alfabetizar seus Filhos em Casa”, um guia completo e totalmente gratuito para introduzir seus filhos no universo da Alfabetização. Clique aqui: https://goo.gl/FDS4xU.
Link permanente
Quais obras de Montessori temos para estudar, na faculdade vimos que ela pertence ao grupo da pedagogia crítica, seguindo a linha de Russeau, poderiam me ajudar com essa dúvida