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A palavra “mito” pode significar, na linguagem não técnica, feitos extraordinários realizados por alguém, e, ainda, uma idéia equivocada sobre algo. Nos meios de comunicação, têm livre curso afirmações sobre cérebro e aprendizagem, que se enquadram nesta acepção. Prudência é a palavra de ordem para evitar que a vertigem da velocidade com que os conhecimentos se multiplicam e são difundidos nos arraste ao abismo de um conhecimento desprovido de sabedoria.
Ao findar-se o século passado, em 1990, o congresso dos EUA solicitou ao presidente do país que fosse proclamada uma “década do cérebro”, que duraria até o ano 2000. O objetivo principal era despertar a consciência das pessoas para as pesquisas sobre o cérebro, em particular, e seu potencial para uma vida mental saudável, depois que a medicina em geral, a partir de meados do século XX, desenvolveu várias vacinas e antibióticos, contribuindo significativamente para o aumento da expectativa de vida da humanidade.
No fim da década, o Centro de Pesquisa Educacional para Inovação, uma divisão da Diretoria de Educação da OECD (Organização Econômica para a Cooperação e o Desenvolvimento), desencadeou uma ação cujo alvo era integrar os novos achados da pesquisa sobre o cérebro às práticas educativas. Isso porque, entre outras coisas, os dados dos sistemas internacionais de avaliação começavam a mostrar que os sistemas nacionais de educação escolar fracassavam em prover habilidades de leitura e resolução de problemas.
Tendo chegado ao fim em 2007, o projeto da OECD reuniu numa publicação os achados acumulados nas neurociências: as bases bioquímicas do funcionamento cerebral em nível molecular, as bases eletromagnéticas dos processos de ativação funcional na computação e processamento das informações cerebrais, o percurso de formação e desenvolvimento das estruturas biológicas do cérebro. A mesma publicação indicou como esses processos estão entrelaçados na formação e no desenvolvimento das habilidades e capacidades intelectuais, motoras, sociais e emocionais do comportamento humano. E sugeriu como as atividades educativas podem usar o conhecimento desses processos para incrementar o aprendizado de leitura e matemática, entre outras habilidades desenvolvidas pela educação escolar.
A passagem do segundo para o terceiro milênio foi marcada, também, por um ambicioso projeto de pesquisa científica: o Projeto Genoma Humano. Iniciado formalmente em 1990, tinha a expectativa de identificar as instruções para o crescimento, divisão e função das células por intermédio das quais se forma, funciona e se transmite toda a arquitetura biológica do ser humano. Cientistas estimavam que essas instruções estivessem codificadas em mais de 100 mil genes. Concluído oficialmente o projeto em 2003, o genoma humano não contém muito mais do que 20 mil deles.
Na mídia, enquanto essas iniciativas se desenrolavam, a imaginação do público foi excitada em ritmo frenético de divulgação de novidades. Essa excitação sempre alimentou ilusões: por exemplo, a crença numa espécie de paraíso da vida sem doenças e sofrimentos e do aprendizado sem esforço e dedicação ao trabalho intelectual. O desfecho dos projetos a que nos referimos acima mostra que o avanço é sempre possível. Mas nutrir vãs expectativas é o caminho mais curto para a decepção.
Não há dúvida de que a medicina saberá beneficiar-se dos achados sobre a hereditariedade, legados pelo Projeto Genoma. Quanto às pesquisas relacionadas ao cérebro, sabemos que realmente produziram informações novas e impactantes sobre a formação de neurônios e conexões neuronais, sobre a cronologia do desenvolvimento das diversas estruturas cerebrais, sobre a organização funcional do processamento cognitivo, sobre a coordenação das funções executivas, como as que controlam a atenção e a memória.
Esses achados, todavia, nunca são imediatamente utilizáveis. Há um tempo de maturação para que eles inspirem novas modalidades de intervenção em outros âmbitos, como o pedagógico ou clínico. E ainda assim, quando isso ocorre, é preciso longos períodos de testagem das inovações até surgirem evidências de sua eficácia.
Mas, diante da velocidade dos processos de circulação de informações, a avidez por novidades não poupou o ambiente educacional. Foi assim que se formou uma mitologia a respeito de ações educativas e uso de materiais e procedimentos pedagógicos baseados na revolução do conhecimento produzido no campo das neurociências.
O ambiente educacional em geral, e escolar em particular, foi invadido por crenças de que há pessoas cujo aprendizado envolve mais ativação de um hemisfério que de outro, e isso deu espaço para a idéia de que existem estilos diferentes de aprendizagem para cada perfil pessoal de ativação predominante dos hemisférios cerebrais. A referência a períodos críticos ou sensíveis para o desenvolvimento das funções cognitivas gerou a proliferação de produtos e recursos para estimular o cérebro antes do período de declínio e poda das sinapses, que realmente existe. O abuso do conceito de períodos críticos levou ao esquecimento de que, embora haja janelas de oportunidade para colher frutos da estimulação em certos momentos e situações, o cérebro sempre é capaz de se transformar em resposta à estimulação.
Daí ao surgimento de teses sobre as múltiplas inteligências e sobre uma suposta inteligência emocional, foi um pulo. Apesar de elaboradas por renomados autores, essas teses nunca receberam confirmação validada e confiável segundo as metodologias científicas mais rigorosas.
O balanço desse terremoto de novidades?
Sob os escombros, estão tesouros valiosos. Muitos deles provenientes da movimentação das “placas tectônicas” do conhecimento profundo e meticuloso resultante do paciente e metódico trabalho de pesquisadores. Mas boa parte se encontra nas colunas e vigas, estruturas duradouras, que se mantêm de pé após os abalos. Elas protegem quem se abriga perto delas. Fornecem proteção contra o impacto traumático de desmoronamentos.
Educadores e pais não se devem fechar ao avanço do conhecimento científico no campo das neurociências. Devem, contudo, manter prudência diante das promessas irrealistas de que a abolição de tudo o que a tradição e a experiência consolidaram levará a uma espécie de panacéia educativa. Nada perderão se cultivarem uma curiosidade esclarecida nesse campo, e se interagirem com educadores qualificados de sua confiança. Sobretudo quando eles colocam à disposição materiais e procedimentos cuja eficácia se funda nas melhores evidências; como tem sido o caso da instrução direta, explícita, ordenada e bem guiada por adultos.
A constituição de uma inteligência robusta e capaz é comparável à constituição de um corpo saudável e forte. Exige trabalho, esforço, exercício constante, a paciência do tempo. Mas pede, também, uma disposição animada, nutrida de gratidão pela vida e pela saúde, e temperada com a felicidade de viver.
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Estou estudando neurociencias na graduação e todas essas informações sobre nosso cérebro continuam me cativando e fascinando a cada dia