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Todo o mundo sabe que a educação no Brasil anda muito mal. Não precisa ser nenhum gênio para entender isso. As crianças passam anos a fio nas escolas e, depois, são simplesmente incapazes de ler, escrever e contar.
Neste artigo, pretendo apresentar a você um apanhado de uma parte de minhas pesquisas e experiências na área da educação infantil, que tratam dessas dificuldades que mencionei.
Eu já tive o privilégio de apresentar esse apanhado geral, a convite do professor Olavo de Carvalho, no II Encontro de Escritores na Virgínia, que ocorreu nos Estados Unidos, no fim do ano passado. Para mim, foi uma honra expor meu trabalho a grandes nomes da literatura e do jornalismo brasileiros, que, ao lado de meu professor Olavo, a quem devo praticamente todas as minhas descobertas, participaram deste momento que, com certeza, foi um dos mais importantes de minha vida.
Então, diante do quadro decadente da educação no Brasil, quis saber primeiro quais eram as raízes do baixo desempenho das crianças em leitura. Por um bom tempo, dediquei-me ao estudo desse assunto. Pesquisando muito, cheguei à conclusão de que deveria compor um método de pré-alfabetização que contemplasse as principais competências e habilidades necessárias para a formação de um futuro leitor. Empolgado com os resultados, após analisar praticamente todos os materiais que circulam por aí, resolvi elaborar um material de alfabetização. Ele já está quase pronto. Como diz meu amigo Chico dos Bonecos, “num futuro brevíssimo”, falaremos mais sobre isso.
Mas, continuando, depois de entender praticamente quais eram os problemas centrais na pré-alfabetização e na alfabetização, comecei a perceber que o buraco era mais embaixo. Quero dizer com isso que os problemas não afetavam os alunos apenas quando o assunto era o ensino da leitura e da escrita, mas também nas práticas de educação física, no ensino de música e, algo que mencionarei rapidamente aqui, no ensino de línguas estrangeiras. E é sobre esses assuntos que eu vou tratar neste artigo.
A prática de atividades físicas
São inúmeros os benefícios que a prática de atividades físicas proporciona às crianças, e não é a minha intenção esgotá-los neste momento. Aqui, a idéia é apenas chamar sua atenção para alguns desses benefícios, que considero centrais para o bom desempenho das crianças em outras disciplinas escolares.
As crianças precisam adquirir uma consciência corporal, de modo que se tornem capazes de coordenar e neutralizar o próprio corpo. Atividades físicas devem proporcionar às crianças condições para que adquiram um domínio de si e controlem de forma consciente cada movimento do corpo. Muitas vezes é evidente a relação entre a falta de domínio corporal e o baixo desempenho cognitivo em atividades de linguagem, matemática, música, etc. Por meio de testes simples, em certos casos – vou repetir em alto e bom som! –, em certos casos, é até possível analisar e prever se as crianças enfrentarão ou não dificuldades em sala de aula. Logo, os exercícios físicos ocupam um papel relevante em qualquer programa educacional.
Depois de muito investigar essas questões, cheguei à conclusão de que, para crianças pequenas, a ginástica é uma das modalidades esportivas mais completas. Não é à toa que é considerada por grandes especialistas como a “literacia dos esportes”, ou seja, a alfabetização dos esportes. E também não é por acaso que, antigamente, quando se pensava em educação física, qual modalidade esportiva logo vinha à mente? A resposta é muito fácil: a ginástica!
Pela prática da ginástica, ou das ginásticas – já que há a ginástica artística, a ginástica rítmica, etc. – as crianças aprendem padrões de movimentos básicos, que são fundamentais para o desenvolvimento motor delas. Uma vez obtidos alguns desses padrões, elas são capazes de combiná-los de diversas maneiras, adquirindo e aperfeiçoando habilidades cognitivas muito importantes, tais como análise, síntese e noção espacial.
Para executar com mais precisão as combinações desses padrões de movimento, as crianças precisam imaginá-los e manipulá-los. Treinar essas habilidades é algo extremamente importante na educação de crianças!
Veja só você a importância disso. Tempos atrás, li uma entrevista que me chamou a atenção. A certa altura, o japonês Kehei Uchimura, considerado o maior ginasta de todos os tempos e tido como favorito absoluto para os Jogos Olímpicos de 2016, disse o seguinte: “Sempre imagino cada movimento como uma obra de arte e fico repetindo a coreografia na minha mente”. Imaginar e repetir mentalmente padrões de movimentos: eis o segredo desse e de tantos outros atletas.
A idéia aqui não é introduzir as crianças na prática da ginástica para que se transformem em atletas olímpicos, mas oferecer a elas uma das modalidades esportivas mais completas que existe.
Querem outro exemplo da importância de manipular mentalmente padrões de movimento? Certa vez eu acompanhava a transmissão de um jogo de futebol, quando o locutor da partida se voltou para um dos comentaristas, um ex-craque do futebol brasileiro, e perguntou-lhe: “Quando você estava ali no túnel, que dá acesso ao campo, naquele momento, em que você pensava?” Resposta do craque: “Eu ficava imaginando os possíveis dribles e jogas que faria durante a partida”.
Em síntese, de tudo o que eu disse, grave isto aqui: “Imaginar padrões de movimentos”.
A música, o corpo e a voz
Outra área importantíssima na formação de crianças é a música. E os programas mais eficazes no ensino de música seguem um caminho muito parecido com os de ensino de linguagem. Esses programas enfatizam que o caminho mais seguro para se ensinar música é o seguinte: escuta, entoação de padrões rítmicos e canto de padrões tonais, improvisação, leitura e escrita. Então, antes de tudo, as crianças precisam ouvir muita música, com muito contraste de métricas e tonalidades, a fim de se familiarizarem com uma variedade de padrões rítmicos e tonais. E por que se familiarizar com esses padrões? Porque se, de um lado, a menor unidade de significado em linguagem é a palavra, de outro, em música, a menor unidade de significado são os padrões rítmicos e tonais. “Ótimo! Então, vou comprar hoje mesmo uma bateria e um pianinho para meu filho exercitar esses padrões! Na bateria, ele treinará padrões rítmicos; no piano, concentrarei a atenção dele nos padrões tonais.”
Nada disso! Os primeiros instrumentos que seu filho tem de dominar você não os encontrará em lojas musicais. Na verdade, ele os tem à mão gratuitamente todos os dias: o próprio corpo e a própria voz. Por meio de movimentos corporais, que envolvem noções de fluidez, peso, espaço e tempo, as crianças responderão a estímulos musicais e praticarão padrões rítmicos. Utilizando a sua qualidade de voz cantada, imitarão, depois de muita aculturação, padrões tonais. E, no fim de um longo processo, elas serão capazes de imaginar esses padrões, o que garantirá o alto desempenho em música. O nome técnico dessa habilidade chama-se audiação. A audiação está para a música assim como o pensamento está para a linguagem. Grosso modo, audia quem é capaz de imaginar padrões tonais e rítmicos, fazendo-os soar mentalmente. Em síntese: a audiação é o fim que os alunos no aprendizado de música devem atingir.
A alfabetização e o princípio alfabético
Bom, outra área importantíssima, na qual o blog tem se concentrado desde sempre, é a do desenvolvimento lingüístico das crianças, visando principalmente à alfabetização. Aqui não há como não chover no molhado. Mas não custa repetir que, infelizmente, quando o assunto é alfabetização, as escolas brasileiras não estão desempenhando um bom papel. E não é preciso fazer muito esforço para concordar com isso. Basta analisar as pesquisas que avaliam o rendimento em leitura, para você entender que a situação é catastrófica. Em síntese, 50% dos estudantes universitários são analfabetos funcionais. E o que isso significa? Significa que 50 % de nossos estudantes, que amanhã ou depois sairão das universidades com seus respectivos diplomas e assumirão importantes cargos, não compreendem o que lêem.
Como eu já disse, a raiz de todo o problema está na ineficácia dos métodos de alfabetização adotados pelas escolas em quase todo o país. Infelizmente, nossos pedagogos preferem os métodos globais, silábicos e mistos, aos métodos fônicos.
Em resumo, quando o assunto é alfabetização, assim como na música, as crianças precisam trilhar os seguintes passos: ouvir sons verbais, falar, ler e escrever. E, antes de aprender a ler, as crianças precisam dominar o princípio alfabético, ou seja, elas têm de ser capazes de converter, de modo consciente, grafemas em fonemas. Para não me aprofundar muito neste assunto, até porque não é o objetivo deste artigo, fonemas são representações abstratas de padrões articulatórios da fala. Então, crianças que conseguem acessar e manipular essas representações abstratas, que estão lá na mente do falante, terão alto desempenho em leitura e escrita; crianças que não acessarem essas abstrações não atingirão o mesmo desempenho.
Em síntese, é mais ou menos isso que acontece no campo da alfabetização.
Ora, você notou algo em comum em todas essas áreas, não é mesmo? Imaginar padrões de movimentos, imaginar padrões tonais e rítmicos e, agora, acessar e manipular representações abstratas de padrões articulatórios de fala. Imaginação, representações abstratas, padrões. Eis uma síntese de todas as minhas experiências e pesquisas na área da educação. Se um dia alguém me perguntar o que descobri ao longo de minha experiência na educação infantil, eu responderei, sem hesitar: a existência, em praticamente todas as áreas, de representações abstratas de padrões sonoros, motores, etc. Os melhores métodos de ensino, em quase todas as áreas, são os que levam as crianças a manipularem mentalmente esses padrões, sejam eles tonais, rítmicos, de movimento, de articulações de fala, etc.
E as línguas estrangeiras?
Já estava me esquecendo de uma coisa: o ensino de línguas estrangeiras! Você sabe quais são os melhores métodos para o ensino de línguas? São justamente aqueles que seguem o caminho “ouvir, falar, ler, escrever”. Com certeza, você já percebeu as semelhanças entre ensino de línguas, alfabetização e educação musical.
(Sobre o método natural, já temos conteúdo de sobra no blog. Se você ainda não assistiu às entrevistas com o professor Nathan Freeman, por favor, faça isso o quanto antes. Em quatro vídeos, ele fala sobre o poder dos métodos naturais de ensino de línguas.)
Há outros pontos sobre outras áreas que queria destacar, porém este texto já está ficando muito longo.
Em síntese, a conclusão é a seguinte: infelizmente, no Brasil, as escolas não levam as crianças à abstração e manipulação desses padrões. E essa é uma das razões do fracasso da educação brasileira.
Mas nós não estamos aqui para mudar todo o sistema educacional brasileiro, e sim para auxiliar você a educar de forma eficaz seus filhos em casa. E é por isso que, a partir de agora, graças à colaboração de diversos parceiros, você terá acesso, aqui no blog, a outros conteúdos, e não só relativos à alfabetização.
Então, é isso! Se você gostou deste artigo, não deixe de compartilhá-lo. E, caso você não queira perder nossos vídeos semanais e outros conteúdos do blog Como Educar Seus Filhos, você poderá entrar em nossa Lista VIP, clicando no link que está aqui embaixo.
Fique com Deus! E até a próxima!
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Muito obrigado pela informação!
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Parabéns pelo excelente trabalho, Carlos Nadalim. Neste texto, eu gostaria de enfatizar que, na Grécia antiga, o ensino musical precedia a ginástica (“educação física”). Tenho observado que a música promove o domínio corporal (“coordenação motora”), enquanto que educação física fortalece os músculos já dominados. Por isso, é essencial introduzir a música desde o nascimento da criança, os instrumentos musicais (todos!) e canto. Somente os bons professores podem orientar adequadamente tanto a educação musical quanto a educação física.
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boa noite!
Na minha opinião você deveria começar do início. Não sei se tem filhos, mas se tiver comece alfabetizando seus filhos, vá as reuniões de escola, participe de todas atividades escolares, você vai descobrir uma coisa muito simples… A escola não vai conseguir alfabetizar ninguém se os pais não acompanharem o desenvolvimento das crianças.
Sei que é difícil de entender, mas é verdade!
Não é a aula de educação física, não é o método construtivista, tradicional etc… É o método escola e família grudadinhos um ao outro para um único objetivo mudar a educação brasileira! Eu fiz tudo isso que estou lhe falando e consegui tirar minhas filhas do quadro analfabetos e toda chatice que escrevem nos livros… beijos…
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Acredito que o problema maior chama-se Paulo Freire. Abraços
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Concordo, esse engodo introduziu em nossos professores e alunos uma mentalidade fracassada.
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Artigo interessante, mas acredito que o buraco é mais embaixo ainda: falta de hábito de leitura por parte dos adultos. Se uma criança cresce num lar em que os pais mais passam tempo em frente da TV ou manuseando smartphones e tablete, dificilmente desenvolverá o excelente hábito de ler livros e descobrirá o prazer de apreciar uma boa leitura.
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Realmente é a realidade brasileira!
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Gostei muito do texto que trata de desenvolver nas crianças sua consciência corporal e também que para desenvolver a musicalidade nas crianças não são necessários instrumentos, mas apenas utilizar o próprio corpo desses pequeninos. Só senti falta no texto, de sugestões de atividades que possamos colocar em prática essas atividades com nossos filhos. Se já existir material que trata desse assunto, tenho muito interesse em acessá-los.
Obrigada pela atenção
Att
Jaiane Ostemberg Dummer