O PISA Atesta o Óbvio: Nossos Estudantes Lêem Mal

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A cada três anos a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) realiza o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), exame que avalia sistemas educacionais em todo o mundo, testando habilidades e conhecimentos de estudantes de 15 anos de idade.

No dia 6 de dezembro, a organização divulgou os resultados da última edição, realizada em 72 países e economias. Nas três áreas avaliadas, os estudantes brasileiros apresentaram um desempenho abaixo da média. O país também caiu no ranking mundial, ficando em 59o em leitura.  

Dinheiro não é o problema

No Brasil, o gasto acumulado por aluno passou de 32% da média dos países da OCDE em 2012 para 42% em 2015. Os investimentos em educação aumentaram significativamente, mas o desempenho nas áreas avaliadas caiu, o que sugere que o emprego de mais recursos não conduz necessariamente a uma educação de melhor qualidade.

Deveríamos seguir o exemplo de vários países membros da OCDE que, ao se deparar com resultados negativos, não se restringem a aumentar os investimentos em educação, mas promovem mudanças profundas nos currículos, nos programas de formação de professores e nas práticas de alfabetização, alcançando melhorias reais na qualidade da educação.

Desempenho em leitura e compreensão de textos

O PISA estabelece 7 níveis de leitura. O nível com maior porcentagem de brasileiros (26,52%) foi o 1a, cujas atividades não requerem a realização de inferências, mas somente a identificação de informações explícitas e do tema principal e o estabelecimento de relações simples entre informações do texto e conhecimentos do dia-a-dia.

Mais da metade dos estudantes do país ficaram abaixo do nível 2 em leitura, patamar em que, segundo a organização, “começam a demonstrar as habilidades de leitura que lhes permitirão participar efetivamente e produtivamente na vida.” Enquanto a média dos países da OCDE em leitura foi de 493 pontos, a brasileira foi de 407 pontos, comparável à de países como Albânia, Jordânia, Qatar, Geórgia e Tailândia.

Além disso, o Brasil apresentou um índice baixíssimo de alunos com alto desempenho em leitura. Apesar de todo o empenho construtivista em fazer os estudantes desenvolverem desde a mais tenra idade um “pensamento crítico”, os resultados mostram que são raros – até mesmo na rede privada de educação – aqueles capazes de demonstrar um entendimento mais minucioso de um texto e de fazer uma avaliação crítica.

Como nosso sistema educacional produz tantos analfabetos funcionais?

Em 2003 especialistas elaboraram um relatório sobre alfabetização infantil, apresentado na Câmara dos Deputados. Apontaram alguns problemas crônicos da educação brasileira que têm grande parte de responsabilidade pelos resultados obtidos no PISA 2015.

O primeiro deles é uma alfabetização infantil ineficaz, que se revela no péssimo desempenho nas séries posteriores. “A alfabetização inadequada compromete o sucesso escolar dos alunos e afeta de maneira irreversível a trajetória escolar dos alunos de nível sócio-econômico mais baixo”, revelam os especialistas.

O segundo problema está na dificuldade em utilizar os resultados de avaliações nacionais e internacionais com vistas a melhorar a educação. É o caso do SAEB. É também o caso do PISA: de três em três anos, quando publicados os resultados da avaliação, o fracasso do Brasil é alardeado pelos veículos de comunicação. Porém, uma semana depois, praticamente não se fala mais no assunto. Os detalhados relatórios fornecidos posteriormente pela OCDE são ignorados.

Além disso, as práticas de alfabetização de crianças não acompanharam a evolução científica mundial nos últimos 30 anos. Como já disse em artigo anterior, os métodos de alfabetização adotados pela maioria das escolas públicas e particulares em todo o país são ineficazes. Nossos educadores dão preferência aos métodos globais, silábicos e mistos em detrimento dos fônicos. Temos também um establishment pedagógico obcecado pela idéia de que, ao aprender a ler, as crianças devem ser educadas para incrementar uma “consciência crítica”. Conseqüentemente, os alunos continuam saindo do Ensino Fundamental com fortes chances de se tornarem analfabetos funcionais.

Razões para o fracasso

Pelos resultados do PISA, a maioria dos estudantes brasileiros é capaz de ler com dificuldade e entende muito pouco daquilo que lê. Faltam-lhes as habilidades necessárias para ler e compreender textos com desembaraço, em especial as seguintes:

  • Fluência em leitura. Para ler um texto escrito é preciso, antes de tudo, decodificar, ou seja, converter grafemas em fonemas. Crianças alfabetizadas por meio de métodos ineficazes geralmente empregam um esforço muito grande nesse primeiro processo, porque não dominam o princípio alfabético e têm um conhecimento precário das relações entre grafemas e fonemas, tropeçando principalmente no momento de decodificar palavras novas. Se têm nisso dificuldade, terão ainda mais em reconhecer automaticamente as palavras. Assim, um processo que deveria ser rápido e fluido, torna-se lento e penoso. A falta de fluência desestimula a prática da leitura e pode fazer com que uma pessoa jamais sinta prazer ao ler.
  • Bom vocabulário. Alguém cujo vocabulário limite-se às palavras empregadas na fala corrente, certamente terá problemas em compreensão textual. A escuta de histórias – acompanhada de interações verbais de qualidade – e uma posterior prática da leitura individual são o melhor meio de enriquecer e expandir o vocabulário das crianças.
  • Conhecimento sintático. Uma boa compreensão textual também exige um contato prévio com estruturas frasais mais complexas, pouco ou nunca utilizadas na conversação do cotidiano. Se não têm costume de ouvir ou ler construções sintáticas mais elaboradas, haverá muitos tropeços no momento da leitura.
  • Memória de curto prazo bem treinada. Pessoas com uma memória ruim não são capazes de recontar histórias ouvidas ou lidas, de armazenar e relacionar informações verbais ou escritas, de fazer inferências; para elas, compreender textos é mais penoso.

Se empregam um grande esforço para decodificar (pois não dominam o princípio alfabético), lutam para entender seu sentido (pois têm vocabulário muito limitado) e têm uma memória de curto prazo também restrita, não serão capazes de ir além do entendimento do sentido literal – se é que chegarão a ele – e ainda tomarão a leitura por algo chato e complicado.

Não há tempo a perder

Para melhorar o desempenho em leitura e compreensão de textos dos estudantes brasileiros são necessárias mudanças profundas nas políticas educacionais nacionais. As sugestões apresentadas no relatório supracitado incluem a provisão de materiais didáticos adequados, eficazes e cientificamente elaborados, políticas específicas para alfabetização, reformulação das atuais diretrizes para a alfabetização e revisão dos programas de formação de professores.

Os pais, contudo, não podem cruzar os braços e aguardar até que o sistema educacional passe por tantas mudanças. Mudanças tais levam tempo para serem implementadas e não há indícios de que ocorrerão em breve. Por isso, além de requerer das autoridades competentes as reformas educacionais necessárias, os pais precisam se dedicar a suprir, de algum modo, aquilo que a escola não tem oferecido.

Muito pode ser feito em casa para evitar que os filhos se tornem analfabetos funcionais. A começar por ler em voz alta com freqüência, de preferência diariamente. Embora a leitura em voz alta seja especialmente valiosa para as crianças pequenas, sua prática pode-se estender às mais velhas, contanto que não substitua a leitura individual. Mais de um estudo da OCDE baseado nos resultados do PISA destacou a já conhecida relação entre quantidade de leitura e alto desempenho em compreensão textual. A leitura freqüente tem também o poder de compensar deficiências associadas, dentre outras coisas, ao nível sócio-econômico.

Além da leitura, é possível adotar práticas simples para expandir a linguagem das crianças, usar atividades do dia-a-dia para treinar a memória auditiva de curto prazo e para desenvolver nelas as habilidades cognitivas necessárias a um futuro bom desempenho em leitura e escrita. Para implementar tais costumes em sua casa não é preciso ter graduação em Pedagogia nem conhecimentos avançados de gramática; um pouco de paciência e alguns minutos diários são o bastante.

Os pais podem, além disso, capacitar-se para dar aos filhos a chance de serem bem alfabetizados, no que obterão outros benefícios, como listei anteriormente. Se você tem isso em mente, baixe o e-book “As 5 Etapas Para Alfabetizar Seus Filhos em Casa”. Com a devida orientação e o acesso a métodos eficazes, você poderá livrá-los de engordar as estatísticas do analfabetismo funcional.


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