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A vida de um professor de Educação Infantil que deseja ensinar verdadeiramente e por meio de métodos eficazes não anda lá muito fácil; mas a culpa não é das crianças. Se o engodo do construtivismo dá dor de cabeça até em seus idólatras, tanto mais em quem já percebeu seu estrago. A educação em geral carece de método, contudo essa realidade é especialmente trágica na Educação Infantil. Nessa fase os erros tendem a se arrastar e a se agravar pelos futuros anos escolares. A criança, vítima inocente, ainda não tem consciência do prejuízo. Os pais padecerão por tabela. Mas nós, professores, podemos fazer nossa autoavaliação honestamente, reconhecer o porquê do fracasso que nos assombra e buscar soluções corajosamente. Tais soluções não precisam ser segredos. Sim, nós podemos, por amor à verdade que está à nossa frente, compartilhar experiências e trabalhar abertamente em parceria com os pais. Por que uma parceria?
Este ano estou lecionando majoritariamente para crianças de 6 anos, que vão para o Ensino Fundamental já no próximo ano. E como não me preocupar com a pré-alfabetização? Todavia na Educação Infantil a pré-alfabetização tornou-se uma espécie de tabu. O professor que ousa se preocupar com isso é visto como um torturador de crianças, como alguém que lhes rouba a infância ao forçá-las a um aprendizado precoce – mesmo que o educador se fundamente nas mais recentes e sérias pesquisas e lance mão de uma abordagem verdadeiramente eficaz e lúdica.
Falarei sem papas na língua. Pré-alfabetização na Educação Infantil não é nenhuma monstruosidade, é solução. Já o letramento… Bem, o letramento, tão caro aos educadores brasileiros, é um ritual pedagógico construtivista que, com suas concepções sociais de leitura e escrita, busca mais levar as crianças à tomada de consciência de classe e ao desenvolvimento do que chamam de senso crítico do que propriamente alfabetizá-las. A maioria das escolas não adota métodos eficazes de alfabetização e pré-alfabetização, e isso gera, via de regra, analfabetismo funcional. Depois de anos de Educação Infantil e Ensino Fundamental, as crianças continuam incapazes de ler e compreender textos!
Autoavaliação
Repito aos demais professores uma pergunta que já fiz a mim mesma: considerando todos os problemas atuais do ensino básico no Brasil e as estatísticas educacionais, como vocês acham que encontrarão seus alunos daqui a três, cinco, dez anos? Vocês realmente acreditam que a maioria deles estará escrevendo, lendo e compreendendo bem os textos que precisarão ler? Acreditam que grande parte desses alunos saberá sequer selecionar o que lê? Pensem nos seus próprios alunos. Se a autoavaliação docente for sincera, as respostas serão, em sua maioria, “não” para todas essas perguntas.
Dias atrás uma aluna minha, de 6 anos, disse com grande naturalidade, mas com notável tristeza e seriedade: “Tia, na minha casa não pode chover, senão cai água drento [sic]. Tem muita goteira!”. Isso é para ilustrar a realidade na qual trabalho. Alguns bem poderiam argumentar: “Veja a realidade dessas crianças! E você preocupada com métodos eficazes de ensino!”. Ora, eu também venho da escola pública, e é exatamente por causa dessas circunstâncias que a minha prioridade é habilitar-me para oferecer um ensino verdadeiramente eficaz. E isso de modo algum exclui a minha preocupação e comiseração imediatas com problemas pontuais de alunos sob a minha responsabilidade docente. Não podemos de modo algum privar as crianças que vivem em condições precárias ou que advêm de famílias desestruturadas de receberem um ensino de qualidade, ainda que isso demande dos professores um empenho muito maior.
Ensino coletivo versus ensino individualizado
Sejamos realistas. Há sem dúvida um choque muito grande entre o ensino coletivo e o individualizado. Os ex-alunos do curso Ensine seus Filhos a Ler são unânimes em afirmar que individualizar o ensino de seus filhos, aplicando em casa exercícios e técnicas de pré-alfabetização, foi algo realmente transformador; ou até mais, algo que salvou seus filhos de se tornarem analfabetos funcionais.
A maioria das escolas, públicas ou privadas, por questões diversas, não emprega um método de ensino eficaz nem para a pré-alfabetização nem para a alfabetização. Enquanto a Educação Infantil se esconde sob o discurso de focar a autonomia e a ludicidade por si mesmas, sem se preocupar com conteúdos, o Ensino Fundamental, por sua vez, costuma confiar cegamente no pior método de alfabetização e, em uma permissividade e negligência inacreditáveis, espera que os alunos aprendam sozinhos, como que por osmose, à medida que lêem.
A parceria de que precisamos
A conclusão a que se pode chegar facilmente é que continuaremos a ser negligentes se não estabelecermos, de maneira cada vez mais sólida e definitiva, uma efetiva parceria entre os professores e as famílias de nossos alunos. Ou seja, devemos deixar de lado preconceitos e admitir que é muitíssimo benéfico que as crianças recebam ensino individualizado em casa, com seus pais e famílias. E isso não é incompatível com a matrícula e a freqüência em uma escola. Diversos especialistas em pedagogia e educação e professores em geral podem ficar ofendidos e cair no erro de se escandalizarem com uma iniciativa como a que tem se concretizado por meio do blog Como Educar seus Filhos até o ponto de a condenarem, mas não deveriam. Quando um movimento como esse finalmente surge para ajudar os pais a se interessarem verdadeiramente pela educação dos filhos e a buscarem um ensino eficaz para eles – e para lhes convencer de que são capazes e que têm legitimidade para tanto –, isso deve ser motivo de grande júbilo para os pedagogos e professores que atuam em escolas.
Não, eu não sou contra escolas nem contra pedagogos ou professores. Aliás, é importante frisar que nenhum profissional envolvido neste blog o é. Sou professora atuante na rede escolar e continuarei sendo, talvez até o fim de minha vida. Como, pois, seria inimiga de meus colegas? Se faço um apelo em prol de uma parceria entre pais e escolas é porque desejo que os profissionais escolares sejam verdadeiramente reconhecidos por fazer um trabalho bom e efetivo. Mas um trabalho salutar como esse só será concretizado em parceria com os pais. Há um bom combate a lutar, e ele tem de ser travado ao lado das famílias.
Coragem e humildade
Tenho perfeita consciência de quão real e importante é a primazia da educação dos pais na vida dos filhos. Ora, se os pais querem o melhor para seus filhos, precisamos nos unir a eles. Nós, professores e pedagogos, precisamos enxergar que iniciativas como a deste blog são oportunidades excelentes e imperdíveis de juntarmos forças com as famílias para melhorarmos a educação de nossos pequenos; e isso pode ser disseminado aos poucos por todo o Brasil. Joguemos para escanteio quaisquer ciúmes irracionais, pois, se a criança pode alcançar um melhor ensino, uma melhor fluência de linguagem com a ajuda de seus pais e família, tanto melhor!
Deixo aqui meu testemunho de que é possível que professores da rede pública ou privada trabalhem com muito mais afinco em benefício do fortalecimento de um ensino eficaz justamente porque em perfeita e integrada parceria com os pais. São os pais, as famílias, meus verdadeiros chefes, meus superiores. Como funcionária pública, meu salário procede do imposto que eles pagam. Se são bons pais (como é o caso da maioria), devo também servi-los.
Nós, professores, devemos ter a humildade e a coragem de estabelecer uma parceria efetiva e integrada com os pais e as famílias, mantendo um zelo de salutar serviço. A nossa referência deve ser o protagonismo real do núcleo familiar da criança. Por lei devemos respeitar as crenças e os valores de cada família.
Aos professores cabe, pois, admitir a capacidade que tem a maioria dos pais de, com alguma orientação e os instrumentos adequados, participar também do ensino dos filhos. Aos pais compete descobrir tal capacidade e buscar auxílio. De ambas as partes, será preciso um esforço para estabelecer uma relação de confiança, o que não é algo exatamente fácil, mas vale a pena quando se tem o objetivo de dar o melhor para nossas crianças.
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