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Ler para os filhos desde cedo, despertando neles o amor pela literatura. Muitos e muitos pais já tomaram essa feliz decisão, ainda que as razões para buscar uma formação literária possam não estar muito claras em suas mentes. Este artigo é uma tentativa de esclarecer essa questão.
O pastor e escritor Sydney Smith, que viveu no início do século XIX, certa vez afirmou que, se a arte culinária evoluísse como a educação, estaríamos ainda hoje tomando sopa na concha das mãos. É bem por aí – o tempo passou, mas a analogia mantém a sua atualidade. Novas idéias e reformas continuam a surgir na educação (…), cada uma, a seu modo, proclamando revoluções no ensino. Uma após a outra, essas revoluções agonizam e fracassam fragorosamente, deixando seus propagadores com o aspecto daquilo que Wallace Stevens chamava de “maníacos de uma idéia só”.
Enquanto isso, a situação educacional continua em queda livre: os modelos caem, as grades curriculares sofrem ora mais, ora menos pressão política, e, não obstante a ênfase na escolarização de todos os níveis sociais, a dança da educação continua presa ao monótono um passo para a frente, dois para trás. Educação é sempre educação, isto é, um assunto difícil de generalizar. Não importa quão difundida esteja a chamada educação superior – apenas um pequeno número de pessoas, digamos, infinitesimal, consegue tirar dela um sério proveito durante os anos de instrução escolar.
Permitam-me acrescentar que, quando jovem, eu não pertencia a essa minoria. Fui aluno da Universidade de Chicago em meados de 1950. Nenhum dos professores que reencontrei anos depois lembrava-se de mim, e isso por uma boa razão: em meus tempos de estudante, procurava ao máximo passar despercebido. Se me dedicava a algo, era a esconder minha ignorância – genuína e substanciosa. Porém, algo mais que ignorância estava em jogo: por alguma razão, eu não conseguia me concentrar – “focar”, como se diz hoje –, por um longo período, em muitas das matérias ministradas.
Enquanto o professor, à vontade com todo o jargão acadêmico, posava com muita autoridade no púlpito, enumerando as oito razões para o surgimento da Renascença, eu me perguntava por que raios ele tinha comprado aquela gravata ridícula, e se aquele pontinho bem no meio dela seria uma mancha de sopa… de galinha ou de legumes? Chegada a época dos exames, eu lembrava de apenas cinco das oito razões para a Renascença e tirava um “C” que não era de “continue assim”.
A sala de aula pode, por vezes, arruinar temas maravilhosos e livros esplêndidos. É por essa razão que Willa Cather insistia para que seus livros não fossem publicados em edições escolares. Ela temia que a leitura precoce, aliada ao rigor da educação formal, fizessem com que os alunos jamais retornassem a eles na idade adulta – justamente quando esses livros seriam mais adequados. Da forma como é convencionalmente ministrada nas salas de aula, a educação não alcança a todos, incluindo-se aí pessoas muito inteligentes, algumas até incrivelmente brilhantes. Henry James nunca foi muito bem na escola, nem Paul Valéry; Marcel Proust foi um aluno medíocre no Liceu Condorcet. W. H. Auden não conseguiu ser o melhor aluno de Oxford. Sainte-Beuve conta que, para Pascal – um verdadeiro gênio –, “era mais fácil descobrir as coisas por conta própria do que estudar à maneira dos outros.” Havia algo de errado com esses homens, todos grandes artistas e filósofos, ou o erro estaria na educação, da forma como é geralmente concebida e praticada?
Um primo meu já falecido, Sherwin Rosen, foi presidente do departamento de Economia da Universidade de Chicago – departamento que, há pelo menos trinta anos, tem sido referência nessa disciplina. Na cerimônia em sua homenagem, um dos colegas mais antigos de meu primo, o Nobel Gary Becker, disse que Sherwin quase foi excluído do programa de PhD em Economia daquela universidade. O motivo, explicou Becker, é que meu primo demorava muito para responder às perguntas do professor. Ele não tinha respostas seguras à mão; hesitava, titubeava. Mas, depois de um ou dois dias, às vezes depois de uma semana, Sherwin retornava ao professor que havia feito a pergunta e, discretamente, revelava-lhe o defeito em sua formulação. “O que isso me ensinou”, disse Becker, “é que a educação formal prioriza o reagir rápido, o cuspir informação. Não sobra muito espaço para a reflexão e o amadurecimento que o trato com as questões sérias requer.”
O “aluno produtivo”
Gosto dessa anedota porque ela subverte as noções convencionais de como a educação deve ser. Depois de trinta anos lecionando na universidade, desenvolvi uma desconfiança calculada, às vezes beirando o desprezo, pelo que eu (secretamente) chamava de “o aluno produtivo”. O aluno produtivo tem sempre as maiores notas, porque vai à aula com uma única pergunta em mente: “O que esse professor quer?” Assim, quando o aluno produtivo chega a uma conclusão, é isto o que ele faz: produz os produtos. O aluno produtivo é capaz de produzir produtos muito diversos: feministas, para a professora feminista das 09:00; marxistas, para o professor marxista das 10:00; conservadores, para o professor conservador das 11:00, e, logo depois do almoço, para o professor que se gaba por não ter nenhuma ideologia ou inclinação política alguma.
Na Universidade de Chicago, eu não era um “aluno produtivo”, no sentido pejorativo que acabei de descrever, mas também não era seriamente devotado como aqueles alunos que, mais tarde, como professor, eu viria a apreciar. Sem qualquer dom para as ciências naturais ou línguas estrangeiras, ou interesse pelas abstrações (frequentemente áridas) e conclusões (decepcionantemente simples) das ciências sociais, senti que não teria outra saída senão graduar-me em literatura inglesa.
Consertando a própria educação
Qualquer pessoa minimamente imaginativa desejaria refazer a própria educação. Suponho que isso aconteça porque somos submetidos à educação formal muito antes de ter qualquer idéia sobre o que seja realmente educação. Duque de Saint-Simon, o maior escritor de memórias que o mundo já conheceu, observou, desapontado, que: “Eu tinha uma paixão natural por leituras e por História… Penso freqüentemente que, se tivessem me incentivado a dedicar-me a isto seriamente, eu teria me tornado alguém.” Duff Cooper, o diplomata inglês, em sua autobiografia Old Men Forget, escreveu:
“Tivesse eu devotado às leituras escolares o tempo que gastei em leituras à toa, teria conseguido algum reconhecimento acadêmico. Mas eu tinha a estúpida idéia de que era degradante dedicar-me a tarefas obrigatórias. O que eu admirava era um sucesso brilhante sem muita aplicação e, se possível, combinado com desregramento.”
Quanto a mim, se tivesse de fazer tudo de novo, estudaria os clássicos, aprenderia grego e latim para ler Heródoto e Tucídides, Tácito e Horácio no original; não me incomodaria terminar meus dias como aqueles cavalheiros vitorianos da gravura de Max Beerbohm, traduzindo as Geórgicas de Virgílio para o inglês em hexâmetros perfeitos.
(…)
A importância da literatura
Para dar uma idéia da natureza aleatória, quase acidental, da educação – o que sempre me impressionou –, diria que o curso mais importante que fiz na Universidade de Chicago foi um (mal arranjado) sobre a história do desenvolvimento do romance. Esse curso foi mal ministrado por um instrutor sem muita auto-confiança que ainda não chegara aos trinta anos de idade. Como um equivalente literário de uma maratona de dança, o curso durou dez semanas, numa média de um livro por semana – abrangendo de A Princesa de Cléves a Ulisses, com paradas ao longo do caminho para Jane Austen, Stendhal, Dostoiévski, Flaubert, Mann e Proust. O que você acha que um jovem de vinte anos vai aproveitar de O Caminho de Swam? Minha aposta mais otimista é que ele aproveitará de quinze a vinte por cento do que Proust colocou ali.
Mas, porém, todavia e entretanto, algo nesse curso acendeu uma centelha dentro de mim. Ele me fez perceber que, durante minha passagem pela terra, se alguma pista havia de como o mundo funciona e de como se constitui a natureza humana, ela estaria na literatura – e, especialmente, na arte do romance. Os infinitos detalhes presentes nos romances, os pensamentos de personagens imaginários, a dramatização de temas profundos cuidadosamente transformados em enredo, o retrato de como o mundo funciona – realmente funciona –, essas são as coisas que a literatura, tratada com cuidado, podia me ajudar a compreender.
Uma mente tão saudável que nenhuma idéia poderia violá-la
Aos dezenove anos, li com genuína emoção a grande obra de Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, absolutamente impressionado pelas conexões intelectuais do autor. Senti meu espírito arder lendo O Mal-estar na Civilização, de Freud. As idéias de Weber e Freud são poderosíssimas, mas são – e espero não soar condescendente – meras idéias. São idéias no sentido utilizado por T. S. Elliot quando, discorrendo sobre Henry James, afirmou que “sua mente era tão saudável que nenhuma idéia poderia violá-la”.
Acredito que o que Elliot quis dizer com “uma mente tão saudável que nenhuma idéia poderia violá-la”a não é que Henry James fosse desinteressado de idéias, ou que não pudesse manejá-las com maestria, mas que James sabia haver verdades acima do nível das idéias, verdades dos instintos, do coração, da alma, e essas eram as verdades que, fiel à sua arte literária, ele buscava descortinar em seus romances e histórias.
Idéias, por mais brilhantes e grandiosas que sejam, são infinitamente sujeitas a revisão, senão à total destruição. Dois dos grandes sistemas de idéias dos últimos cento e cinquenta anos – Marxismo e Freudismo – já foram descartados, e o terceiro, o Darwinismo, enfrenta pesados ataques. Consideremos o seguinte: havia provavelmente não oito razões para a Renascença, mas oitocentas, 678 das quais, a essa altura, já não devem mais se sustentar.
Não que uma educação literária e o aprendizado de idéias sejam mutuamente excludentes. A combinação de ambos, na mente de alguns pensadores, pode dar os mais impressionantes resultados. John Maynard Keynes era um assíduo leitor de romances e poesia. Oliver Wendell Holmes, famoso juiz da Suprema Corte Americana, também. Clifford Geertz, o maior antropólogo de sua geração, fazia questão de manter-se em dia com a ficção de seu tempo, parte dela francamente ruim. Sigmund Freud afirmava que devia aos poetas muito do que sabia – apesar de que o mundo, na minha opinião, estaria muito melhor se ele não tivesse lido Sófocles.
Meu amigo Edward Shils, um dos maiores sociólogos dos últimos cinquenta anos, leu e releu Dickens, Balzac, Conrad e Cather; não resta dúvida de que isso fez dele um cientista social melhor. Jamais me esquecerei quando Edward me disse uma vez o quanto admirava Milton Friedman, George Stigler e outros economistas teóricos do livre mercado, antigos colegas seus da Universidade de Chicago. “São homens extremamente inteligentes”, disse ele, “com sutileza e penetração de pensamento e coragem intelectual. Apesar disso, Joseph, receio que eles não se deixem impressionar suficientemente pelos mistérios da vida.”
Somos todos autodidatas
Se penso em minha própria educação como de cunho literário, não é no sentido convencional em que se entendia uma educação literária cerca de um século atrás. Alguém que recebesse uma educação assim, naquele tempo, deveria conhecer em profundidade a história literária do seu próprio país e pelo menos de algum outro; deveria manejar duas, três, senão todas as línguas românicas, além das duas principais línguas antigas; deveria dominar as regras, senão a prática, da métrica, e levar na memória quilômetros de poesia e uma grande familiaridade com Shakespeare.
Minha própria educação literária não teve nenhuma semelhança com isso. Descrevendo-a em poucas linhas, diria que foi descuidada, radicalmente irregular e principalmente autodidata. Mas, afinal, com exceção das pessoas treinadas para ser scholars profissionais ou cientistas, somos todos autodidatas, fazendo nosso caminho da melhor forma que podemos, os livros sendo nossos reais professores. Por causa disso, o melhor que uma universidade pode fazer é colocar seus alunos na direção certa: mostrar-lhes quais são as possibilidades intelectuais e o que de melhor foi pensado e escrito no passado. Nesse sentido, a Universidade de Chicago, nos meus tempos de estudante, cumpriu o seu papel.
Mas, se denomino minha própria educação de literária, é porque ela está firmemente ancorada na crença de que a literatura – principalmente, mas não exclusivamente, a literatura de imaginação – fornece a melhor educação para homens e mulheres em uma sociedade livre. “É papel da literatura”, escreveu Desmond MacCarthy, “transformar fatos em idéias”. MacCarthy quer dizer que o método da literatura é indutivo: fatos primeiro, idéias depois. Cientistas e sociólogos alegam trabalhar por indução, mas há razões para acreditarmos que não, não realmente; que eles estão na verdade testando palpites, a que dão o nome de hipóteses. Mas romancistas e poetas, se leais à sua arte, não estão aí para provar coisa alguma. Se eles narrarem suas histórias com honestidade e de forma convincente, de alguma maneira aqueles pequenos sapos de fatos se transformarão no belo príncipe de uma encantadora idéia.
Idéias são rótulos, literatura é outra coisa…
Ainda assim, “idéias” não são o negócio da literatura. Uma vez que você tiver identificado as idéias de um romance ou de um poema, não creio que terá muito para mostrar. Em seu Em Busca do Tempo Perdido, Proust – os scholars revelaram – estava trabalhando sob uma concepção bergsoniana do tempo; Thomas Mann, em A Montanha Mágica, estava pintando um quadro da torrente de idéias políticas no alvorecer do Fascismo na Europa. Mas, uma vez dito isso, após ter espremido as idéias desses escritores, o que, realmente, você tem em mãos? Talvez tivesse sido melhor ler Henri Bergson diretamente, ou uma história intelectual da Europa no entre guerras, do que ler Proust ou Mann. Embora os romancistas possam ter idéias em abundância, ou lidar com idéias complexas em seus trabalhos, raramente são suas idéias o que há de mais consistente em suas obras.
Tomemos por exemplo Theodore Dreiser, um glutão de idéias, quase todas ruins. Seduzido por Hitler e Stalin, Dreiser ajudou a piorar o já péssimo Darwinismo social de seu tempo e acreditava no papel decisivo de “quimismos” no destino humano. Esse mesmo Dreiser, nascido pobre, criado em um ambiente dominado por superstição religiosa, foi provavelmente o maior romancista americano do século passado. Isso, diria eu, porque Dreiser sentia mais profundamente que ninguém o que era ser um pária, e sabia mais sobre o ardor do desejo, sobre a pungente necessidade humana – tome por exemplo Sister Carrie ou An American Tragedy – do que qualquer outro escritor. Se a obra de Dreiser dependesse das idéias para sobreviver, estaria hoje morta e enterrada, e com razão.
Não era a busca por idéias que estava no centro da minha educação literária. A grande maioria das idéias é, afinal, infinitamente mutável, sujeita à revisão e à rejeição, para não mencionar ao esquecimento e à erradicação. É bom que muitas idéias tenham um prazo de validade relativamente curto. Algumas, porque são más e até perigosas: a Raça Dominante, a luta de classes, o complexo de Édipo e o Socialismo são quatro idéias ruins cujas nefastas conseqüências logo vêm à mente.
“Elaborar um conceito”, escreveu Ortega y Gasset, “é deixar a realidade para trás”. O que ele está dizendo é que nenhum conceito, nenhuma idéia, é suficientemente abrangente para abarcar todo o fenômeno que procura descrever. Os conceitos, é certo, desviam nossa mente da riqueza da realidade, que geralmente tende a nos escapar. Dê a algo o rótulo de um conceito – transtorno do déficit de atenção, crise da meia idade, “bela, recatada e do lar”, a mão invisível do mercado – ah, que expressões tranquilizadoras! Mas não deveriam ser. Invoque esses conceitos – e muitos outros – e, puf!, a realidade sai de cena.
Uma função pouco reconhecida da literatura é que ela nos mostra como a realidade sempre se furta às idéias muito rigidamente estabelecidas. Graças à disseminação da assim chamada (sempre “assim chamada”) educação superior (superior a quê, eu me pergunto cada vez mais) e à difusão dos meios de comunicação em massa e mídias on-line, o mundo hoje é talvez mais orientado por idéias do que em qualquer outra época na história. Uma das razões da revolta contra os departamentos de Literatura Inglesa do nosso tempo é que eles venderam a riqueza da literatura por um pequeno número de idéias cruas – gênero, raça, classe e outros subprodutos – e, assim, abriram mão do seu direito de primogenitura por um prato de teoria.
Uma das funções mais importantes da literatura nos dias atuais é cultivar uma saudável desconfiança das idéias lançadas pelo jornalismo e pelas ciências sociais. Romances e poemas podem ser o antídoto para isso. “O espírito do romance é o espírito da complexidade”, escreveu Milan Kundera. “O romancista diz ao leitor: as coisas não são tão simples quanto você pensa.” Quando trabalha bem, o bom romancista afirma, de forma convincente, que a vida é mais surpreendente, bizarra, fascinante, complexa e rica do que qualquer doutrina, conceito ou teoria utilizados para explicá-la. Uma sólida educação literária fortalece o gosto pela infindável variedade da vida, ensina o quão assombrosa é a realidade – e o quão resistente a qualquer tentativa, por mais habilidosa, de compreender seus mecanismos ou explicá-la em toda a sua extensão. “Um homem é mais complicado do que seus pensamentos”, disse Valéry – e, se você pensar bem, felizmente é assim.
Durante os trinta anos em que ensinei literatura na Universidade Northwestern, preferia acreditar que eu era um professor melhor do que o aluno que fui. (Também passei a acreditar que se aprende melhor quando se ensina, mais do que quando se ouve aos professores.) Ao ensinar, não tentei transformar meus alunos em imitações de scholars, mas, em vez disso, quis que eles aprendessem, o melhor que pudessem, o que um pequeno grupo de escritores julgou ser conhecimento útil nesta vida carregada de mistério.
Quis que meus alunos voltassem da leitura de, por exemplo, Charles Dickens, tendo aprendido a importância da amizade, da lealdade e da bondade num mundo hostil; de Joseph Conrad, o lugar central do cumprimento do dever numa vida dominada pela solidão espiritual; de Willa Cather, a dignidade que o sofrimento paciente e resignado pode trazer; de Tolstoi, a divindade contida mesmo nos momentos mais ordinários – dar um beijo de boa noite em uma criança, trabalhar a terra, cumprimentar um filho que retorna da guerra; de Henry James, quis que aprendessem que é obrigação de todo homem sensível viver em permanente estado de alerta, e tornar-se um homem ou uma mulher para quem nada está perdido, e jamais esquecer – como James escreveu em A Princesa Casamassima – que “as figuras no tabuleiro de xadrez ainda são as paixões e os ciúmes e as superstições do homem”.
A literatura não opera por telescópios nem por microscópios. “As impressões são para o escritor”, escreveu Proust, “o que a experimentação é para o cientista”. As impressões são, por sua natureza, inexatas, mas fornecem um ponto de vista, um ponto de vista de muitos ângulos. Uma das lições que o grande romance de Proust nos ensina é o quão diferente um personagem, uma situação, um acontecimento nos parecem, quando vistos de diferentes ângulos e perspectivas, e, ainda assim, quão inexato permanece nosso conhecimento deles. O historiador britânico Lewis Namier afirmou que estudamos História para saber como as coisas não aconteceram. Parece pouco, mas não é, uma vez que tantas pessoas constantemente tentam nos impingir suas falsas versões de como as coisas aconteceram ou acontecem.
Do estudo da literatura aprendemos que a vida é triste, cômica, heróica, viciosa, digna, ridícula e infinitamente divertida – às vezes uma dessas coisas de cada vez, às vezes tudo isso ao mesmo tempo –, porém nunca mais grotescamente divertida do que quando um suposto grande pensador aparece insistindo que descobriu ou formulou a chave para sua compreensão. Um dos motivos por que a maioria dos artistas literários desdenham de Sigmund Freud – cujo pensamento Vladimir Nabokov sintetizou como sendo um “cobrir as partes íntimas com mitos gregos” – é que seu acentuado determinismo é sentido como profundamente infiel à rica complexidade da vida, com suas guinadas e inumeráveis surpresas.
Tolstoi e Flaubert
Em 1887, Matthew Arnold escreveu a respeito de uma tradução francesa de de Ana Karenina. Em sua crítica, Arnold considerou o romance de Tolstoi, como ainda hoje o fazemos, “delicado e repleto de grande sensibilidade e sutileza, empenhando-se, com total desinteresse e simplicidade, em representar a vida humana. O romancista russo é dotado de um feitiço pelo qual os segredos da natureza humana – o que é externo bem como o que é interno, gestos e modos não menos do que pensamentos e sentimentos – se rendem sem nenhuma resistência.”
Mais à frente, Arnold, inevitavelmente, compara o romance de Tolstoi com Madame Bovary, outro romance sobre o mesmo tema. “Madame Bovary”, Arnold escreve, “é uma obra de sentimento petrificado; sobre ela paira um sentimento amargo, de ironia e impotência; não há um personagem no livro que nos console ou alegre; as fontes do frescor e do sentimento não estão lá para criar tais personagens”. Flaubert, Arnold conclui, “persegue-a [Emma Bovary] sem piedade e sem trégua, como que perversamente; ele é mais severo com ela do que qualquer leitor, penso eu, estaria inclinado a ser.”
Tolstoi, hoje sabemos, a princípio planejou arrasar com Ana Karenina tão completamente como Flaubert fizera com Emma Bovary. Mas, no meio da composição, descobrindo a riqueza da personagem que ele criara, apaixonou-se por ela. Isso o levou a remodelar radicalmente o romance: a abrandar Ana, a endurecer Alexi Alexandrovich Karenin, a fazer de Vronski um homem mais tolo do que o autor inicialmente pretendera. A maior diferença entre Tolstoi e Flaubert é que Tolstoi trabalhava a partir da vida; Flaubert, de idéias – e, neste caso, de uma idéia muito simplista, que era o ódio à burguesia e à vida provinciana. Dos dois homens, Tolstoi tinha o maior coração, o que lhe permitiu apreciar melhor a complexidade da existência humana e duvidar mais da capacidade de idéias grosseiras e simplistas de abrangê-la, incluindo aquelas do escritor russo que iniciara o romance.
Primeiro a realidade, depois as idéias
Espero não ser tomado como inimigo das idéias em geral. Não sou. (…) O efeito de uma educação literária não é desmentir a utilidade de muitas idéias, mas entender sua limitação. No fim das contas, uma educação literária nos ensina as limitações do intelecto mesmo, ao menos quando aplicado às grandes questões, problemas e mistérios da vida. Sobre esse ponto, Marcel Proust escreveu:
“Nosso intelecto não é o instrumento mais sutil, mais poderoso, mais apropriado para revelar a verdade. É a vida que, aos poucos, de exemplo em exemplo, permite-nos ver que o que é mais importante para o coração, para a mente, é aprendido não pelo raciocínio, mas por outros meios. Então acontece de o intelecto, observando a superioridade desses outros meios, abdicar, por fundamentos racionais, do desejo de controle, e concordar em tornar-se um colaborador e lacaio.”
Uma educação literária ensina que a natureza humana é mais bem compreendida, ainda que sempre de maneira incompleta, por meio do exame de casos individuais, e não há nada mais estimulante do que aqueles casos que nos colocam diante de exceções que não provam regra alguma – em outras palavras, a ímpar personalidade humana. Uma educação literária, com seu ceticismo intrínseco quanto às idéias frívolas e, principalmente, quanto aos grandes sistemas de idéias, é naturalmente contrária ao fanatismo. Ela proporciona uma maior apreciação dos mistérios e complexidades da vida, o que reforça o valor inestimável da liberdade humana – especialmente daquela liberdade que nos permite buscar aquela realidade da qual todos vivemos distantes, correndo o risco de morrer sem conhecê-la.
“Primeiro o pão”, disse Bertold Brecth, “depois a moral”. Uma má idéia, eu diria. Melhor seria: “Primeiro a realidade, depois as idéias”. É isto que, em todo caso, minha educação literária me ensinou.
Artigo de Joseph Epstein publicado originalmente na revista “The New Criterion”, em junho de 2008, sob o título “A Literary Education: On Being Well-Versed in Literature”. Traduzido e adaptado para o blog Como Educar Seus Filhos.
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