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Volta e meia a imprensa fala desse tema. Há sete anos, uma revista semanal difundiu uma notícia: cientistas teriam descoberto uma maneira de diagnosticar, sem delongas, o autismo. Três características do novo modelo diagnóstico ficaram em evidência: rápido, barato, tecnológico.
Nada de anamneses[1]: diagnóstico em 10 minutos. Nada de equipes multidisciplinares: um radiologista. Nada de recursos tradicionais: um aparelho de ressonância magnética.
Municiados com conhecimentos altamente especializados em Biologia, alguns pesquisadores, do campo das Ciências Médicas, muitas vezes trabalhando em conjunto com Psicólogos, Linguistas, Educadores, e apoiados por Físicos e Matemáticos, desenvolvem softwares capazes de medir características micro e macroestruturais dos tecidos cerebrais.
O software codifica essas informações. A codificação resulta em imagens. Por meio delas tem-se uma visão precisa dos feixes de fibras neuronais que ligam as regiões cerebrais. Imagens desses feixes em cérebros de pessoas com desenvolvimento típico e atípico são comparadas. O tipo de difusão das moléculas de água nos tecidos cerebrais também se constitui em informação. Com elas pode-se descobrir associações entre as medidas cerebrais[2] e os perfis de desenvolvimento, típico ou atípico, de vários indivíduos.
Quantas pessoas, tendo lido a notícia, podem identificar os autores do estudo, localizar a publicação e ler o artigo na língua em que foi publicado, com plena capacidade de aferir seu valor científico?
Como julgar a informação? Ela é confiável? Dá uma contribuição proveitosa para pais e educadores, instruídos, mas sem formação científica de alto nível? E de 2010 para cá, ano de publicação do artigo, os achados nele publicados foram confirmados por outros pesquisadores, em outros centros de pesquisa com imagem cerebral?
Por outro lado, haveria formas de identificação precoce do autismo? Quais seriam elas? Haveria fatores de risco?
Vamos por partes.
A descrição científica oficial do autismo
À época em que o estudo foi realizado, o DSM 5 – Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mentais, da American Psyquiatric Association – ainda não tinha sido publicado. Vigorava sua versão anterior. Mas o CID 10 já era público. CID é o Código Internacional de Doenças, da Organização Mundial da Saúde.
O DSM V e o CID são as referências mundiais para o diagnóstico, descrição e classificação de doenças. Com a diferença de que o DSM V se refere apenas aos distúrbios que afetam a saúde mental.
A essa época o autismo já estava identificado e descrito. Os termos gerais dessa identificação e descrição permanecem hoje. A nomenclatura atual o descreve como Transtorno do Espectro Autista. Há convergência entre o DSM V e o CID 10.
Consoante o DSM V e o CID 10, sobre o autismo pode-se dizer, em geral, o seguinte:
- A utilização do termo espectro na expressão que o descreve reflete uma compreensão dimensional e integrada do distúrbio. Vários aspectos do desenvolvimento biopsíquico, sociocomportamental, podem estar afetados, conferindo a esse processo de desenvolvimento uma trajetória atípica.
- No curso dessa trajetória, capacidades e ou habilidades mentais, cognitivas, sociocomportamentais, podem se desviar do padrão típico. O arranjo formado pelo naipe de capacidades e habilidades cuja evolução ficou comprometida ou desviada, incluindo-se a intensidade desses desvios, dá lugar a perfis biopsíquicos e sociocomportamentais diversos. Assim, o autismo pode ser classificado em gradações e em sua descrição deve-se explicitar outras condições médicas ou genéticas associadas.
- No Transtorno do Espectro Autista, distúrbios do desenvolvimento de certas habilidades e capacidades se entrelaçam e afetam negativamente dois domínios principais da vida. Por um lado, a comunicação oral. Por outro, a interação social. No primeiro caso por falhas no desenvolvimento dos processos ligados à produção e recepção da fala e aos seus suportes cognitivos e ou mentais como a atenção, o controle inibitório, a representação do estado mental dos participantes da interação social. No segundo caso porque comportamentos, interesses, e ações sofrem restrição e se expressam de modo repetitivo e/ou estereotipado.
- A gravidade se define pelo nível de apoio necessário em função do comprometimento no domínio da comunicação e da interação social: exige apoio, exige apoio substancial, exige apoio muito substancial.
Um biomarcador para o autismo?
Em primeiro lugar, deve-se informar que a notícia com a qual iniciamos este artigo exagerou os achados do artigo científico em que se baseou. Os pesquisadores comunicaram resultados de um estudo no qual, por meio das imagens do cérebro, eles encontraram, nas fibras neuronais que conectam regiões já reconhecidas como envolvidas na linguagem, emoção e cognição social, diferenças entre pacientes autistas e não autistas. Eles concluíram que o estudo abre caminhos promissores para o uso de imagens no diagnóstico do autismo.
Haveria, então, um marcador biológico para o autismo: as diferenças observáveis nos feixes de fibras neuronais que ligam áreas do cérebro envolvidas na linguagem, emoções e cognição social.
Um estudo publicado quatro anos depois, no ano de 2016, fez uma revisão de todos os achados de estudos importantes que compararam imagens cerebrais de autistas e não autistas. Conclusão? Os conhecimentos gerados têm-se aperfeiçoado, continuam promissores e têm confirmado as evidências da origem neurobiológica do autismo, isto é, avolumam-se as evidências de que a origem do autismo está ligada ao desenvolvimento cerebral. No entanto, um marcador biológico incontroverso ainda não foi definitivamente estabelecido.
Em fevereiro de 2017, e isto comprova o avanço, outra importante e numerosa equipe de cientistas, em estudo publicado na Revista Nature – que junto com a Revista Science forma o par de publicações com maior prestígio e reputação científicos no mundo -, apresentou as seguintes evidências: crianças que aos 24 meses ostentam comportamentos sociais típicos do autismo, apresentam, entre o primeiro e o segundo anos de vida, crescimento do volume cerebral intracraniano e hiperexpansão da espessura do córtex cerebral. Boa parte desses estudos usou imagens cerebrais obtidas por técnicas de ressonância magnética funcional.
Identificadores comportamentais
O autismo, vimos, afeta domínios da comunicação e da interação social. No ser humano a comunicação e a interação social só são plena e definitivamente funcionais ao final da infância, e depois da adolescência. Assim, durante o período inicial do desenvolvimento não é fácil detectar comportamentos nos quais se patenteiam falhas ou desvios de padrões da comunicação linguística e da interação social. Essa detecção é feita, no mais das vezes, em ambiente clínico, por profissional especializado. Ela depende bastante da existência de baterias de testes para avaliação de comportamentos associados ao autismo. Esses testes precisam passar por rigorosos estudos de validação para ser usados. No Brasil já dispomos de alguns. Mas não há um teste que diagnostique autismo. As baterias de testes são instrumentos que ajudam a compor o diagnóstico. Ele requer um amplo e minucioso trabalho de equipe multidisciplinar.
Diante da ausência de um marcador biológico definitivamente estabelecido e cientificamente incontroverso e das informações a respeito de sinais comportamentais, é natural que educadores e pais procurem informações que lhes habilite a detecção precoce desses sinais no curso de desenvolvimento com o fito de monitoramento preventivo. Nesse campo também tem havido progresso. Mesmo que o avanço dos conhecimentos não tenha ganho uma velocidade que responda à urgência com que dele necessitamos
Afinal, quais as causas do autismo?
Vai-se firmando uma conclusão sobre isso, suportada por evidências científicas que pouco a pouco se consolidam e forjam consenso: os distúrbios da comunicação e da interação social, típicos no Transtorno do Espectro Autista, teriam origem neurobiológica e estariam associados a fatores genéticos e ambientais.
Há também quem atribua a causa à hipótese da ausência de uma “teoria da mente” nos autistas. Isso significa que no autismo ter-se-ia uma incapacidade de representação dos estados mentais de outras pessoas. Mas a hipótese não tem grande penetração científica. Ainda que seja defendida por uma eminente e respeitada pesquisadora em Ciência Cognitiva: Uta Frith.
Há fatores de risco associados ao autismo. Alguns são ambientais. Quanto a eles uma preocupação crescente é a alta variabilidade das taxas de prevalência. Muitos esforços científicos são hoje despendidos para entender porque taxas tão elevadas de prevalência do autismo são encontradas, por exemplo, em alguns lugares como a Coréia do Sul.
Há também fatores genéticos associados. Estudos recentes dão conta da descoberta de vários genes envolvidos nos controles do desenvolvimento neuronal. E vimos como há evidências de que distúrbios do desenvolvimento neurobiológico se ligam à emergência dos comportamentos que caracterizam os comportamentos autistas.
Para concluir
Vê-se que o DSM V e o CID 10 padronizam a descrição e fornecem critérios para identificação da condição de saúde mental identificando-a como Transtorno do Espectro Autista.
Vê-se, também, que ele afeta sobretudo a comunicação e a interação social e, assim, acarreta prejuízos no funcionamento social. São graves e pesadas as implicações no âmbito do provimento de Educação e do apoio em Saúde.
Não há dados consolidados sobre a prevalência no Brasil. De qualquer modo se ela for compatível com a média mundial isso significará um imenso contingente de pessoas afetadas.
O Transtorno do Espectro Autista envolve um naipe muito diverso de situações e condições, provavelmente de origem neurobiológica, cuja identificação só pode ser feita adequadamente por equipe multiprofissional que envolve médico e psicólogo no mínimo.
DICAS IMPORTANTES PARA PAIS E EDUCADORES COMPROMETIDOS COM A PRÁTICA ESCLARECIDA DA AÇÃO EDUCACIONAL
1- Em Ciência, a palavra de um gênio, isolada, vale menos do que o consenso que se constitui no campo de estudos, pela acumulação de evidências produzidas por vários cientistas, em vários laboratórios ou ambientes distintos.
2 – Deve-se dar pouca ou nenhuma importância à informação científica que circula em revistas não especializadas e em jornais.
3 – É importante ter uma referência para informações educacionais e de saúde. Essa pessoa deve ser de sua confiança e ter alta formação científica.
4 – As piores abordagens do autismo são aquelas que dão ocasião a pais e a educadores a realizarem observações informais para estimar probabilidade de autismo em seus alunos e/ou filhos.
5 – Nenhuma lista informal de sinais a serem observados é útil aos pais ou às crianças.
6 – O melhor a fazer é cuidar para que haja:
- Um bom acompanhamento pré-natal da gestante e do futuro bebê.
- Consultas constantes ao pediatra após o nascimento e durante toda a infância.
- Diálogo esclarecido com o pediatra para ampliação de informações sobre o processo de desenvolvimento do bebê em todos os aspectos de seu desenvolvimento, inclusive os que se relacionam à comunicação oral e à interação social.
- Interação social-familiar intensa com o bebê, sobretudo em termos linguísticos, desde o nascimento.
- Participação privilegiada da mãe no provimento da alimentação, na organização do sono e na higiene da criança. Conversar com a criança nunca é demais.
- Uma busca por relatar ao pediatra qualquer observação que seja motivo de dúvida.
[1] Anamnese: fazer menção a. Do grego ana- “para trás”, por extensão, “do passado”, + mimneskesthai “relembrar” memória, lembrança.
[2] A comparação de imagens de regiões cerebrais de indivíduos autistas e não autistas teria revelado padrões diferentes. Essa diferença poderia ser uma forma de distinguir crianças autistas de não autistas por intermédio de exame de imagem cerebral.
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